A NVIDIA, sozinha, vale mais que o dobro de tudo que o Brasil produz em um ano.Pare e absorva esse número, porque ele descreve a maior concentração de riqueza da história moderna.As sete maiores empresas de tecnologia do mundo — Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, NVIDIA, Meta e Tesla, as chamadas “Magnificent Seven” — representam hoje entre 34% e 37% de todo o valor do S&P 500. O índice que mede as 500 maiores empresas dos Estados Unidos tem mais de um terço do seu valor concentrado em sete companhias. Em 2016, esse percentual era de 12,5%. Triplicou em dez anos. E continua a subir.A NVIDIA, que fabrica os chips que alimentam a inteligência artificial, valorizou 1.178% em três anos. Foi a primeira empresa da história a atingir 5 trilhões de dólares em valor de mercado. Para dar perspectiva: o PIB inteiro do Brasil em 2025 foi de cerca de 2,2 trilhões de dólares.A OpenAI, por sua vez, saiu de uma avaliação de 29 bilhões de dólares em 2023 para 852 bilhões em março de 2026. Crescimento de 2.838% em menos de três anos. Nenhuma empresa na história do capitalismo cresceu nessa velocidade, nesse patamar.Oitenta por cento do dinheiro do mundoO capital de risco segue o mesmo caminho. No primeiro trimestre de 2026, fundos globais investiram 242 bilhões de dólares em startups. Em um único trimestre. Desse total, 80% foi para empresas de inteligência artificial.Oitenta por cento.De cada cinco dólares que investidores colocaram em startups no mundo, quatro foram para IA. Todo o resto — saúde, fintech, educação, energia, agronegócio — dividiu os 20% que sobraram.Quando o dinheiro fala tão alto assim, não é aposta. É veredicto.O aviso do padrinhoGeoffrey Hinton, conhecido como “padrinho da IA” e ganhador do Nobel em 2024, resumiu o efeito com uma franqueza que deveria ser cravada em pedra: “A inteligência artificial vai tornar poucas pessoas muito mais ricas e a maioria das pessoas mais pobres.”Hinton não especula. Descreve o que já acontece.A proporção entre o que ganha um CEO americano e o que ganha um trabalhador médio chegou a 285 para 1. Para cada dólar que o funcionário leva para casa, o CEO leva 285.Enquanto isso, o mundo tateia soluções que há cinco anos pareceriam ficção:122 projetos-piloto de renda básica universal operam em 33 estados americanos66% dos americanos são favoráveis à renda básicaBernie Sanders propôs um imposto sobre robôsA OpenAI publicou documento defendendo um fundo de riqueza pública e semana de 32 horasA Brookings Institution propõe migrar impostos do trabalho para o consumoA Irlanda tornou permanente, em 2026, um programa de renda básica para artistasQuando dois terços de um país pedem que o governo dê dinheiro para as pessoas simplesmente existirem, algo quebrou de forma profunda no contrato social.A curva que ninguém pretende frearEm 2016, sete empresas representavam 12,5% do S&P 500. Hoje representam 37%. Em menos de dez anos, a riqueza triplicou no topo enquanto o chão do mercado de trabalho rachou em mil pedaços.Se essa curva continuar — e nada indica que vá parar — em 2030 teremos um punhado de empresas valendo mais do que países inteiros e centenas de milhões de pessoas sem lugar na economia.Não é ficção. Não é exagero. É a trajetória dos dados. A pergunta não é mais se vai acontecer. Já acontece.Referências: S&P Dow Jones Indices, composição do S&P 500 (2026); NVIDIA, relatórios trimestrais e valor de mercado; OpenAI, avaliações sucessivas 2023-2026; PitchBook/CB Insights, dados de venture capital global Q1 2026; Geoffrey Hinton, Nobel Lecture (dezembro de 2024); Brookings Institution, “Tax Policy for an Automated Economy”; dados de renda básica: Stanford Basic Income Lab.