“É uma espécie de bolha, mas não no formato tradicional de valorização de ativos. Parece mais uma moda, quase uma ilusão social”, escreveu Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia de 2008, em sua newsletter publicada nesta quarta-feira (24).O alerta vai para a formação da bolha envolvendo empresas de inteligência artificial (IA) e a queda em bloco das ações e índices do setor.“Até poucos dias atrás, muitas empresas estavam praticamente açoitando seus funcionários a usar IA. Era algo como: ‘vamos avaliar você pela quantidade de IA que utiliza, independentemente de você achar isso útil ou não’.”, escreveu Krugman.No entanto, o economista destaca que a capacidade computacional está paulatinamente cada vez mais escassa e os preços dos chips, cada vez mais altos. As empresas de IA começaram a cobrar mais e o custo marginal de usar grandes quantidades de tokens sobe dia após dia.“De repente, as empresas passaram a dizer: ‘esperem, parem. Queremos que vocês economizem tokens’. Ou seja, reduzir o consumo de computação. Foi uma guinada brusca. Isso faz parte de um fenômeno mais amplo sobre o qual pretendo escrever em breve: existe uma certa falta de organicidade no boom da IA”.Queda das ações de semicondutoresKrugman destaca que o movimento dos últimos dias pode significar uma quebra de tendência do mercado de inteligência artificial, ainda que tenha gerado ganhos expressivos.“Deixem-me fazer uma ressalva. Sim, o Índice de Semicondutores da Filadélfia caiu 8% em um único dia, o que é uma queda enorme. Mas ele havia subido 157% nos últimos doze meses. É preciso manter a perspectiva”, afirma.“Esse é um revés impressionante, mas a verdade é que, ao longo do último ano, essas ações tiveram um desempenho extraordinário. O KOSPI [bolsa da Coreia do Sul] caiu 10% — tecnicamente, 9,99%. Mas mesmo depois dessa queda de 10%, ainda acumulava alta de 172% em doze meses. Portanto, não estamos falando de uma catástrofe. Mas, sim, trata-se de uma quebra de tendência”.Para ele, não é incomum que os mercados reajam como se algo terrível estivesse prestes a acontecer — e acabem errando. Por isso, não devemos presumir automaticamente — embora a tentação seja grande — que uma forte queda nos mercados necessariamente sinaliza um problema grave nos fundamentos econômicos.Inteligência Artificial da ChinaPor fim, Krugman entende que a grande mudança de paradigma deve vir da China. Isso porque o país produz modelos de IA cada vez mais baratos, ainda que estejam aquém dos parâmetros de desempenho das gigantes norte-americanas do setor.“De forma geral, os modelos chineses são menos completos, mas extremamente mais baratos e utilizam muito menos capacidade computacional. Essa é, em grande medida, a razão de serem mais econômicos. Se isso acontecer, o cenário muda bastante”.Para o economista, a mudança não vem da decepção com as capacidades da IA, mas a percepção de que uma IA extremamente intensiva em computação talvez não seja essencial para a economia global.