O fim do emprego médio

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Hoje, são precisamente essas profissões que a inteligência artificial está a transformar com mais velocidade.A narrativa dominante sobre automação ainda se concentra nos trabalhos manuais e repetitivos. Essa narrativa está, no entanto, desatualizada. Os modelos de linguagem de hoje redigem contratos, analisam balanços e produzem relatórios de due diligence com uma competência que até há pouco tempo exigia anos de formação especializada. O trabalho cognitivo de rotina, aquele que exige conhecimento técnico sólido mas dispensa criatividade ou decisão estratégica, é o mais exposto. E é também o que define o perfil de uma fatia significativa do emprego qualificado em economias como a portuguesa.O impacto não se manifesta na forma de um desaparecimento súbito de categorias profissionais. Manifesta-se sim numa contração gradual, onde as empresas contratam menos para as mesmas funções e onde os planos de carreira se estreitam. A geração que entra agora no mercado encontra uma escada com menos degraus do que a geração anterior encontrou, num momento em que a formação que recebeu foi desenhada para uma estrutura que já está a  mudar por baixo dos seus pés.Esta mudança importa, porque as consequências desta dinâmica vão além do mercado de trabalho. As classes médias são o principal sustentáculo da estabilidade política nas democracias liberais. Quando a escada económica perde os seus degraus intermédios, o espaço para o ressentimento e para o populismo alarga-se. O padrão é visível nos países onde a desindustrialização aconteceu mais rápido: a erosão económica da classe média precede quase sempre a erosão política da confiança institucional.Portugal, precisamente, tem uma concentração significativa de emprego qualificado nos setores mais expostos. Serviços financeiros, consultoria e direito são áreas onde a adoção de IA já está claramente a comprimir a procura de perfis intermédios em mercados mais avançados. O desfasamento temporal entre o que acontece nesses mercados e o que chega a Portugal cria uma ilusão de segurança que os dados não sustentam.Mas a transformação ainda está no início. As profissões mais expostas têm tempo para se adaptar, os sistemas de ensino têm espaço para reorientar, e as organizações têm margem para investir em requalificação antes de serem forçadas a fazê-lo. E esta margem existe porque a velocidade de adoção de novas tecnologias em Portugal é, pela cultura de negócio, mais lenta do que nos mercados de referência.O que essa margem não faz é esperar pelos ciclos políticos. A janela para agir com antecedência é real, e a sua duração é finita.O conteúdo O fim do emprego médio aparece primeiro em Revista Líder.