Crescemos a ouvir que os melhores anos são os vinte, os trinta, talvez os quarenta. A narrativa está em todo o lado. Nos filmes, na publicidade, nas revistas, nas redes sociais. A juventude aparece associada à beleza, à liberdade, à descoberta, à possibilidade. A partir de determinada idade, a conversa muda. Começam a surgir palavras como envelhecimento, reforma, abrandamento, declínio. Como se a vida tivesse uma curva previsível ou seja, uma subida entusiasmante e uma descida inevitável. Mas a realidade raramente é assim tão simples.Se olharmos para trás com honestidade, percebemos que a primeira metade da vida é, muitas vezes, vivida em piloto automático. Não porque não seja rica ou importante, mas porque passamos grande parte desses anos a cumprir etapas. Estudamos, procuramos emprego, tentamos afirmar-nos profissionalmente, construímos uma família, pagamos contas, procuramos corresponder às expectativas dos outros e às nossas próprias expectativas. É uma fase de construção, mas também de enorme pressão. Há decisões para tomar, inseguranças para gerir e uma constante sensação de que ainda não chegámos onde devíamos estar.Conheci há alguns anos uma mulher que ilustra bem esta ideia. Chamemos-lhe Teresa. Quando chegou ao coaching tinha 58 anos e uma carreira sólida numa grande empresa. Era respeitada, competente e financeiramente estável. Aos olhos de quem a rodeava, tinha tudo para estar satisfeita. Mas a verdade é que estava profundamente inquieta. Não porque lhe faltasse alguma coisa, mas porque começava a sentir que a vida estava a ficar demasiado previsível. Um dia disse-me uma frase que nunca esqueci:— Passei a vida toda a fazer o que era suposto fazer. Agora gostava de descobrir o que quero realmente fazer.Aquela frase ficou comigo porque traduz aquilo que muitas pessoas sentem e raramente verbalizam. Durante meses conversámos sobre essa inquietação. Não era uma crise. Não era uma depressão. Era algo mais subtil. Era a consciência de que ainda tinha muitos anos pela frente e que não queria passar esses anos apenas a repetir o que já conhecia.Dois anos depois deixou a empresa. Não para se reformar. Não para descansar. Mas para criar um projeto ligado à literacia financeira para mulheres acima dos cinquenta anos. Um tema que a apaixonava e sobre o qual falava há anos sem nunca ter tido coragem de avançar.Lembro-me de lhe perguntar, algum tempo depois, se sentia falta da posição que ocupava. Sorriu e respondeu:— Sinto falta do salário. Mas não sinto falta da pessoa que eu era.A resposta dizia tudo. Há uma liberdade que muitas vezes só chega com a maturidade. Aos vinte anos preocupamo-nos demasiado com aquilo que os outros pensam. Aos trinta tentamos provar o nosso valor. Aos quarenta estamos frequentemente divididos entre responsabilidades profissionais e familiares. Aos cinquenta ou sessenta começamos finalmente a perceber que talvez não seja necessário viver para impressionar ninguém.É nessa altura que algo curioso acontece. Aquilo que parecia uma perda pode transformar-se num ganho. Perdemos algumas ilusões, é verdade. Perdemos alguma energia física. Perdemos pessoas que amamos. Mas ganhamos discernimento. Ganhamos perspetiva. Ganhamos uma compreensão muito mais profunda sobre quem somos e sobre aquilo que realmente importa.Talvez por isso tantas pessoas afirmem sentir-se mais felizes depois dos cinquenta do que aos trinta. Não porque a vida se torne mais fácil, mas porque deixam de desperdiçar tanta energia a tentar ser aquilo que não são.O problema é que continuamos a olhar para esta fase da vida através de lentes antigas. Ainda falamos dos cinquenta ou sessenta anos como se estivéssemos a aproximar-nos do fim, quando na realidade muitas pessoas têm pela frente mais trinta ou quarenta anos de vida. Trinta anos. Pensemos no que cabe em trinta anos. Carreiras inteiras são construídas em menos tempo. Empresas nascem e transformam setores em menos tempo. Filhos nascem e tornam-se adultos em menos tempo.Porque insistimos, então, em olhar para esta etapa como uma fase de encerramento? Talvez porque ainda não aprendemos a imaginar o que significa viver muito tempo. Sabemos acrescentar anos à vida, mas ainda estamos a aprender a dar significado a esses anos.O meu pai viveu até aos 99 anos. E aquilo que mais me impressionava não era a idade que tinha. Era o interesse que mantinha pela vida. Continuava atento às pessoas, às conversas, ao que acontecia à sua volta. Continuava a fazer planos, mesmo pequenos planos. Continuava a sentir que o dia seguinte merecia ser vivido. Foi com ele que percebi uma coisa importante: o contrário de envelhecer não é ser jovem, é desistir.Há pessoas que desistem aos quarenta. E há pessoas que continuam curiosas aos noventa. Talvez seja por isso que acredito que a segunda metade da vida pode ser mais interessante do que a primeira. Porque é a fase em que já sabemos muitas coisas, mas ainda temos tempo para fazer alguma coisa com esse conhecimento. É a fase em que deixamos de viver apenas para construir uma vida e começamos, finalmente, a habitá-la.E talvez a verdadeira longevidade não tenha a ver com quantos anos vivemos. Talvez tenha a ver com a capacidade de continuar a encontrar razões para querer viver os anos que ainda temos pela frente.O conteúdo A segunda metade da vida pode ser mais interessante do que a primeira aparece primeiro em Revista Líder.