O setor de luxo enfrenta ventos contrários neste momento. De um lado, o conflito militar no Oriente Médio levou consumidores de alta renda a deixar a região e a apertar os gastos. De outro, o avanço da inteligência artificial e de medicamentos para perda de peso, como os GLP-1, tornou mais fácil do que nunca comprar marcas premium — e também criou uma nova motivação para isso.O mais recente Luxury Monitor, da consultoria global Bain & Co, mostra que o crescimento do setor recuou levemente, em 1% na comparação anual, com estimativas para o primeiro trimestre de 2026 apontando queda de 3% em câmbio constante.Ainda assim, há sinais positivos. Um dos principais vetores de consumo tem sido o uso de medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1, segundo o relatório assinado por Claudia D’Arpizio e Federica Levato, sócias seniores da Bain & Co. O avanço dessa tendência “é uma questão central, e a tendência macro de consumo em várias categorias, dentro e fora do luxo, sob uma perspectiva sociológica e antropológica, é o tema mais interessante do momento”, disse Levato à Fortune.Na categoria de luxo mais acessível, como roupas e calçados, “há, claro, o entusiasmo de ter perdido peso, e isso se traduz diretamente em algo como: ‘vamos comprar um novo guarda-roupa’”, explica Levato. “Há mais disposição para uma onda de compras — e isso está diretamente ligado a um aumento da confiança do consumidor.”Levato não se refere à confiança do consumidor no sentido de uma perspectiva econômica melhor. Ela fala mais de um sentimento de “YOLO” — sigla em inglês para “só se vive uma vez” — que ganhou força primeiro com o fim da pandemia e, depois, com novas fontes de autoconfiança trazidas por medicamentos como Ozempic e Mounjaro.Para as marcas, isso levanta várias questões. Levato sugere que o principal desafio do setor de luxo é ampliar sua base de clientes, seja por geração, região ou faixa de renda. Outro efeito do uso disseminado de GLP-1 é que mais pessoas podem passar a se encaixar nas opções de tamanho, muitas vezes limitadas, oferecidas pelas marcas de luxo, afirma.Marcas de luxo estão encolhendo a grade de tamanhosO setor de luxo há muito tempo é criticado por sua falta de inclusão — independentemente da barreira de renda. Na era dos medicamentos para emagrecimento, a representação de diferentes tipos de corpo parece ter regredido ainda mais. O relatório Fall/Winter 2026 Size Inclusivity Report, da Vogue Business, divulgado em março, mostrou que, dos quase 8 mil looks apresentados na temporada, 97,6% estavam nas chamadas “straight sizes”, equivalentes aos tamanhos 0 a 4 dos EUA.A categoria intermediária, ou mid-size (tamanhos 6 a 12 nos EUA), teve participação de 2,1%, enquanto os tamanhos plus size (14 ou mais) representaram apenas 0,3%.Esse número caiu em relação à temporada anterior, quando os looks mid-size somavam 2% — praticamente estáveis nas últimas três temporadas — e os plus size representavam 0,9%. Assim, a presença de tamanhos maiores voltou ao mesmo patamar do outono/inverno de 2025, o nível mais baixo desde que a Vogue Business começou a acompanhar a inclusão de tamanhos, há três anos.Apesar das questões éticas em torno da inclusão, o uso de GLP-1 também abre uma oportunidade para as marcas de luxo, destaca Levato.Outro ponto relevante para o setor é o avanço das marcas de luxo acessível. Segundo ela, “nos últimos dois ou três anos, as marcas se concentraram principalmente no topo de 1% da pirâmide de renda e não estão capturando o valor de mercado onde está a grande maioria”.“Existe uma enorme onda de novos clientes em potencial, mas está realmente nas mãos das marcas perceberem isso ou não. Porque, se continuarem aumentando os preços, vão excluir parte da população. Outras marcas, especialmente as americanas, fazem isso muito bem — sendo mais acessíveis tanto em tamanhos quanto em faixas de preço — e isso permanece na mente e no coração dos consumidores.”Qualidade versus quantidadeO fator GLP-1 também se estende às experiências de luxo. Levato aponta que, em restaurantes, por exemplo, os clientes estão comendo menos, mas ao mesmo tempo migrando para experiências gastronômicas de maior qualidade.“As marcas de alimentos estão realmente fazendo embalagens menores, mas com maior valor intrínseco no que vendem”, afirma Levato. “Então eu compro menos, o preço final não muda, mas não porque a margem das marcas é maior — e sim porque elas colocam mais qualidade em porções menores.”2026 Fortune Media IP LimitedThe post “Vamos comprar um novo guarda-roupa”: como o GLP-1 virou aposta para marcas de luxo appeared first on InfoMoney.