«O poder político é um servo voluntário da riqueza», afirma o filósofo Viriato Soromenho-Marques

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Entre 13 a 28 de junho, o ESPANTO traz palestras, conversas e workshops dedicados ao tema do Desejo, reunindo pensadores, escritores, artistas e académicos nacionais e internacionais. Viriato Soromenho-Marques ganha destaque nesta edição, sendo homenageado em vários momentos do festival. É filósofo e professor catedrático aposentado da Universidade de Lisboa, reconhecido pelo seu trabalho nas áreas da filosofia política, ética e ambiente. É também uma das principais vozes portuguesas na reflexão sobre a crise climática, os direitos humanos, a paz e os desafios do Antropoceno.É sobre isso que reflete, nesta entrevista à Líder. Ora veja. O desejo tem sido, ao longo da história do pensamento, força de criação, mas também de destruição. Como é que o lê hoje, num momento em que a crise ambiental e a crise democrática coexistem?Seria possível reinterpretar a história universal como a camaleónica marcha do desejo. Trata-se de um hiperconceito, que a tradição ocidental moderna enclausura dentro de outro, também ele polissémico, a vontade. O que importa, todavia, é um elemento comum e transversal a todas as topografias históricas do desejo/vontade. Nesse elemento coabitam uma força genesíaca abraçada a outra força, que podemos definir como um impulso de desmesura e destruição.Essa dualidade violenta – patente no pensamento de Freud desde 1920 na oposição entre ‘pulsão de morte’ (Todestrieb) e pulsão de vida (Lebenstrieb) – tem sido um motor na transformação do modo como habitamos o mundo e como nos olhamos no espelho do nosso próprio agir, como indivíduos e comunidades.Parece, contudo, que somos chegados a uma encruzilhada histórica de ‘grande aceleração’, onde esse equilíbrio está a partir-se perigosamente. As múltiplas crises (ambiental, bélica, tecnológica, política…) estão a ganhar uma energia própria, perante a qual nos sentimos cada vez mais impotentes. São crises antropogénicas. Não se trata de uma maldição dos deuses, mas nós já não nos reconhecemos nesse labirinto diabólico que criámos.Na verdade, vivemos uma intensificação da síndrome da ‘obsolescência do humano’ face ao cada vez maior poderio da tecnologia, analisada por Günhter Anders como elemento contemporâneo determinante de servidão voluntária e de ‘cegueira perante o apocalipse’ (Apokalypse-Blindheit)[1]. Duvidamos radicalmente das nossas faculdades coletivas para mudar de rumo.Isso ajuda a perceber a atual adoração apavorada do bezerro de ouro da Inteligência Artificial. Incapazes de desejar com risco e autenticidade, preferimos navegar na inesgotável indústria do divertissement pascaliano, como analgésico.Somos demasiados frágeis para assumir o confronto com as teias do determinismo que nós próprios gerámos. Elas aparecem como insensíveis a qualquer possibilidade de mudança… A sua obra cruza Filosofia, política, ambiente e pensamento estratégico. Pode o desejo – individual ou colectivo – ser uma categoria política? Quem define o que uma sociedade deseja?Desde o pensamento contratualista dos séculos XVI-XVIII a Hannah Arendt, que a esfera da teoria política pode ser definida como um contínuo processo de deliberação sobre os modos de coabitar em paz, válido para indivíduos e povos, dentro de diferenças e desigualdades, mas também esperanças, consentidas.Hoje a esfera política foi anexada aos territórios de um mercado e de uma tecnociência que concentram o poder sob todos os modos, inclusivamente a fabricação de consensos. Aquilo que Benjamin Constant antecipou em 1819 triunfou, quase sem exceções, por todos os regimes representativos: o poder político é um servo voluntário da riqueza[2].Nos EUA a situação é de absoluto escândalo. Como escreveu John Rawls, nas duas Câmaras do Congresso as leis são compradas e vendidas[3]. Num mundo em que as decisões empresariais, unilaterais de Elon Musk têm maior impacto sobre o futuro da humanidade do que a legislação dos parlamentos à escala mundial, a ideia de um novo contrato social obtido nas urnas tornou-se uma impossibilidade técnica e política, pelo menos no nosso mundo ocidental. Ao mesmo tempo, as sementes de rebeldia ainda não parecem trazer em si possibilidades revolucionárias. Mas, se fizer sentido perguntar pelo lugar da Filosofia e do filósofo, é aí, nesse lugar desabrigado da resistência que deveremos estar e perseverar. Vivemos numa época de muito ruído e pouca escuta. O que acontece ao desejo de pensar quando a atenção se fragmenta?Identifiquei há muitos anos o palimpsesto como uma metáfora do nosso tempo. Tal como nos palimpsestos físicos que podem acumular, por sobreposição, múltiplas mensagens, gravadas ao longo de vários séculos, o palimpsesto metafórico da contemporaneidade, intensificado pela multiplicidade da esfera digital, esmaga-nos com múltiplos conteúdos, todavia, desdobrados, simultaneamente, na mesma superfície.Neste palimpsesto pletórico de imagens e representações não existe hierarquia. A faculdade de definir prioridades, essencial para as políticas públicas e as práticas de cidadania, é deliberadamente ferida pelos estilhaços de futilidades fabricadas, pelo mercado e pela indústria da ‘mentira organizada’, tão certeiramente denunciada por Hannah Arendt, em 1967, na revista New Yorker[4].Se juntarmos a isto, a natureza progradamente aditiva dos algoritmos das redes sociais e da esfera digital no seu conjunto, perante a qual as universidades, quase sem exceção, capitulam reverencialmente, perceberemos as causas não só da degradação das condições de possibilidade do pensamento, bem como do desaparecimento das normas éticas básicas do seu exercício: o esforço no tempo longo, a disciplina do estudo, a autenticidade, a recusa total de qualquer forma de fraude/plágio…Há quem diga que a Europa perdeu o desejo de si própria, de um projeto comum, de uma identidade partilhada. Concorda?A União Europeia encontra-se num estado comatoso. Escrevi o meu primeiro ensaio sobre a Europa e o seu futuro em 1985, e o mais recente em 2019, com outro livros e centenas de artigos e conferências[5]. Por isso, é com profunda tristeza que o digo: esta UE que apresenta como seu futuro preparar-se para uma guerra de destruição mútua contra a Rússia (identificada como não europeia…) não sabe para onde quer ir, nem quem é, nem quem foi.A sua perpetuação depende da continuação de um paradoxo antipolítico: ausência de poder nas esferas nacionais, onde ainda existem resíduos de democracia, compensada pelo imenso poder acumulado nas paisagens burocráticas vazias de sopro democrático das instituições europeias, como é o caso da Comissão Europeia.Estamos num caminho que não permite a reforma, mas favorece a acumulação de tensões. Estas poderão culminar numa implosão que ninguém quer, mas de que todos seremos vítimas. Portugal deve resistir, em vez de surfar nesta onda sinistra. Resistir, ajudar a calar as armas é o primeiro passo, para que a Europa não tenha perdido definitivamente a sua alma, citando uma expressão de Josep Borrel a propósito da cumplicidade da UE com o genocídio cometido pelo Estado de Israel sobre o povo palestiniano. Filosofia e ação pública cruzaram-se várias vezes na sua vida. Acredita que a Filosofia ainda consegue transformar a forma como vivemos ou tornou-se sobretudo uma ferramenta de interpretação do mundo?Começando pela segunda parte da pergunta. Sem colocar em causa a grandeza do pensamento de Marx, julgo que levar à letra a 11.ª tese sobre Feuerbach seria um erro: «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, o que se trata, contudo, é de transformá-lo» [6].Na verdade, as diferentes filosofias e visões do mundo sempre inspiraram a transformação desse mundo, mas considerar que a Filosofia se esgota como esforço de compreensão e interpretação do mundo, para dar lugar, de seguida, a uma simples operação de transformação material (como o engenheiro faz a partir do trabalho do arquiteto) parece ser mais um artifício de ênfase retórica, ou ainda a sobrevivência em Marx do conceito hegeliano de um saber absoluto.A grande tarefa da Filosofia continua a ser a interpretação. E isso prende-se hoje com a consciência da unidade estreita entre o futuro da humanidade e o futuro da Terra, coisa que foi capturada em 2000 no conceito de ‘época do Antropoceno’[7].Vivemos numa sociedade mortal e num planeta que pode ser devastado pela desmesura descontrolada de uma civilização sem dispositivos de travagem e de reformulação crítica. Por isso mesmo, o filósofo pode e deve participar na ação política, contudo se o seu nível de envolvimento se tornar absorvente e profissional (o que é inteiramente legítimo), se ele cair na tentação do ‘filósofo-rei’, ele perde as condições de possibilidade do habitat filosófico, que implicam distanciamento crítico para uma prospeção dos riscos do presente/futuro. Um chefe de partido, tal como um general numa guerra, o que querem não é a verdade, mas a vitória… Quando o pensamento acontece em público, em festivais como este, ele continua livre ou começa a tornar-se performance?Aristóteles ensinou-nos, a propósito da retórica, que há uma dimensão performativa positiva e estimulante para a comunicação dialógica. Sobretudo no pensamento que, em alternativa à dominação pela persuasão vazia de significado filosófico, ouse a aproximação à meta inalcançável da verdade. O problema surge quando um discurso não deixa mais nada no público do que o espetáculo nu da sua enunciação.Nos anos 80, durante a vaga da pós-modernidade vivemos um tempo filosófico onde a iluminação e o fogo-de-artifício discursivo montaram a sua tenda de costas voltadas para o abismo. Um pensamento que é incapaz de perceber a diferença entre um jogo lúdico e uma ameaça mortal não merece ser considerado filosófico. O que é hoje o espanto? Um momento de lucidez ou apenas uma interrupção breve da distração?O espanto filosófico seria hoje, uma experiência de iluminação da consciência para aquilo que é essencial: para os riscos existenciais que a humanidade e a casa planetária no seu conjunto correm. Este nosso tempo é uma singularidade na história.Para impedir a destruição generalizada e o reino planetário da pulsão de morte teremos de fazer do espanto um ponto de partida para a ‘cooperação compulsória’ entre indivíduos, comunidades, Estados e o sistema internacional no seu conjunto. Unir a humanidade na tarefa de reconstruir, no respeito pela natureza, a nossa habitação da Terra seria não só uma prova de realismo político, mas também um sinal de amadurecimento ético absolutamente formidável. E o que é a ética, senão o saber que nos ajuda a perceber que nem tudo o que podemos realizar tecnicamente, é moralmente aceitável e politicamente adequado? O tema da edição anterior do Espanto foi o medo. Tem medo dos tempos que vivemos?Importa sublinhar a importância do medo. Ainda está por inventar uma teoria política séria que prescinda do medo, ou uma ética que não veja nele uma prova material da nossa finitude. Contudo, se há alguma coisa que une os temas que tenho estudado ao longo deste mais de meio-século, essa é a necessidade de não ser paralisado pelo medo. Tenho enfrentado (e combatido) pelo pensamento temas assustadores, como o são, o perigo da guerra nuclear, a crise global do ambiente e clima, a degradação económica e política do mundo euroamericano, a desmesura tecnológica.Não sei se ainda vamos a tempo de moderar a gigantesca e dolorosa tragédia da cascata em cadeia dos choques existenciais em rede que temos pela frente. O que sei, todavia, é que a lucidez é a única forma de transformarmos o medo num estímulo para tentar, que mesmo as pequenas e ocultas oportunidades de mudar de rumo, não se tornem em milagres desperdiçados. [1] Günther Anders, Die Antiquiertheit des Menschen. Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution, [1ª. ed. 1956], München, C-H. Beck, 1961, p. 294 segs.[2] « (…) le pouvoir menace, la richesse récompense ; on échappe au pouvoir en le trompant ; pour obtenir les faveurs de la richesse, il faut la servir (…) » Benjamin Constant, « De la liberté des Anciens comparé à celle des Modernes » [1819], Écrits Politiques, Paris, Gallimard, 1997, p. 615.[3] “When politicians are beholden to their constituents for essential campaign funds, and a very unequal distribution of income and wealth obtains in the background culture, with the great wealth being in the control of corporate economic power, is it any wonder that congressional legislation is, in effect, written by lobbyists, and Congress becomes a bargaining chamber in which laws are bought and sold?”, John Rawls, The Law of Peoples with «The Idea of Public Reason Revisited», [1999], Cambridge-MA, London, Harvard University Press, 2002, footnote19, §2, p. 24.[4] Hannah Arendt, “Truth and Politics” [1967], Between Past and Future. Eight Exercises in Political Thought, New York, Penguin Books, 1993, pp. 232-239[5] Viriato Soromenho-Marques, Europa: o Risco do Futuro. A Insegurança Estratégica nos Anos 80, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985; Viriato Soromenho-Marques, Depois da Queda. A União Europeia entre o Reerguer e a Fragmentação, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2019.[6] „Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretirt, es kömmt drauf an sie zu verändern“, Marx/Engels Gesamtausgabe (MEGA), Berlin, Akademie Verlag, 1998, Vierte Abteilung, Band 3, S. 21.[7] Crutzen, P. J., and E. F. Stoermer (2000). “The’Anthropocene'”. Global Change Newsletter 41: 17–18.O conteúdo «O poder político é um servo voluntário da riqueza», afirma o filósofo Viriato Soromenho-Marques aparece primeiro em Revista Líder.