Alterações na fala podem ser o primeiro sinal de uma demência rara

Wait 5 sec.

Dificuldade para encontrar palavras, trocar nomes de objetos ou passar a falar de forma diferente do habitual nem sempre faz parte do envelhecimento. Em alguns casos, essas alterações podem ser os primeiros sinais da afasia progressiva primária, uma doença neurodegenerativa rara que afeta principalmente a linguagem.O tema ganhou visibilidade após o diagnóstico do ator Bruce Willis e voltou a ser discutido no Brasil durante a Brain Week, realizada no início de junho, em Porto Alegre. Convidado pelo Instituto do Cérebro (InsCer), o neurologista norte-americano Bruce Miller, da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e uma das principais referências mundiais em demência frontotemporal, falou sobre diagnóstico precoce e os desafios para reconhecer essas doenças.Na avaliação do especialista, as alterações na linguagem costumam ser percebidas pelas famílias relativamente cedo, o que facilita o reconhecimento da afasia progressiva primária em comparação com outras formas de demência.“As afasias progressivas são um pouco mais fáceis de diagnosticar. Acho que as famílias percebem relativamente cedo que a linguagem está mudando e entendem que a linguagem vem do cérebro”, afirma.Mesmo assim, atrasos ainda acontecem. Em um estudo publicado na National Library of Medicine, Miller e outros pesquisadores descrevem o caso de um paciente que teve as dificuldades de linguagem inicialmente atribuídas ao uso crônico de álcool antes de receber o diagnóstico correto de afasia progressiva primária.Nem toda demência começa pela memóriaAo contrário da doença de Alzheimer, em que a perda de memória costuma ser o sintoma mais conhecido, a afasia progressiva primária começa comprometendo principalmente a comunicação. Isso acontece porque a doença afeta primeiro áreas específicas do cérebro responsáveis pela linguagem.“Se o lado esquerdo do cérebro é afetado, a pessoa desenvolve uma afasia progressiva. Quando a área responsável pela linguagem é comprometida, a doença se manifesta principalmente por alterações na linguagem”, explica.Já quando outras regiões cerebrais são atingidas, os sintomas podem ser completamente diferentes.“Se a doença afeta os dois lados do cérebro, mas com maior comprometimento do lado direito, ela costuma se apresentar com alterações comportamentais, como comportamento antissocial, compulsão alimentar, desinibição e apatia”, aponta. Leia também SaúdeDemências ainda desafiam a ciência apesar de décadas de pesquisas Fábia OliveiraEsposa de Bruce Willis desabafa sobre a demência do ator: “Em luto” Vida & EstiloNoiva se casa duas vezes para garantir a presença do avô com demência CiênciaComprimento da passada das patas pode indicar demência em cães Essas diferenças ajudam a explicar por que algumas demências são mais difíceis de reconhecer do que outras. Enquanto as mudanças na fala costumam despertar atenção rapidamente, alterações de comportamento muitas vezes são interpretadas como problemas emocionais, conflitos familiares ou mudanças de personalidade.“Em nossos estudos na Universidade da Califórnia em São Francisco encontramos cerca de três anos de sinais evidentes da doença antes que a pessoa receba, de fato, o diagnóstico de demência frontotemporal”, diz.Quando procurar ajudaPara o neurologista, qualquer mudança persistente nas funções cognitivas merece avaliação médica. “Tenho um limiar muito baixo para recomendar que as pessoas procurem uma avaliação. Fazer uma avaliação não faz mal”, afirma.Ele explica que alterações de personalidade, dificuldade para encontrar palavras, mudanças importantes de memória ou lentidão dos movimentos podem indicar doenças neurológicas, mas também podem estar relacionadas a condições tratáveis.“Algumas dessas doenças podem ser tratadas com algo simples, como a reposição de uma vitamina. Por isso, acredito que o diagnóstico precoce é muito importante”, destaca.O que o álcool tem a ver com issoO caso descrito pelos pesquisadores chamou a atenção porque as alterações de linguagem foram inicialmente atribuídas ao consumo crônico de álcool, retardando o diagnóstico da doença.Miller afirma que as evidências mais recentes mostram que o abuso de bebidas alcoólicas é um fator de risco importante para a doença de Alzheimer e, provavelmente, para outras doenças neurodegenerativas. Isso acontece porque o álcool atua como uma neurotoxina, capaz de causar danos ao sistema nervoso.“Há alguns anos, vários estudos sugeriam que o consumo moderado de álcool poderia oferecer uma leve proteção, mas a maior parte dessas pesquisas foi contestada”, afirma.Apesar disso, interromper o consumo excessivo pode trazer benefícios. “Curiosamente, muitas pessoas que abusaram do álcool, quando deixam de beber, reduzem esse risco de doenças degenerativas”, diz.Para o neurologista, compreender quais regiões do cérebro são afetadas primeiro também tem ajudado os pesquisadores a identificar os mecanismos envolvidos em cada tipo de demência. Esse conhecimento tem contribuído para diagnósticos mais precisos e poderá orientar tratamentos cada vez mais específicos no futuro.