Uma nova crítica publicada na revista científica Nature levanta novas questões sobre o suposto avanço da Microsoft em computação quântica, anunciado no ano passado — um marco que embasou a declaração da empresa, feita neste mês, de que terá um sistema quântico funcional até 2029.Computadores quânticos poderiam solucionar problemas científicos e de cibersegurança que estão além da capacidade das máquinas convencionais. Eles se tornaram uma prioridade para o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, que investiu US$ 2 bilhões na área e que, nesta semana, estabeleceu metas para a criação de um sistema quântico científico até 2028. Leia mais Amazon anuncia mais US$ 13 bi na Índia para reforçar infraestrutura de IA Projeto brasileiro inédito com IA devolve autonomia a pacientes com ELA Samsung perde posto de empresa mais valiosa da Coreia do Sul Assim como suas concorrentes do setor de tecnologia — como IBM, Google (da Alphabet) e outras —, a Microsoft está desenvolvendo o próprio computador quântico. No entanto, enquanto as concorrentes projetam máquinas baseadas em tecnologias quânticas já conhecidas, a Microsoft tem se dedicado há quase duas décadas a abrir novos caminhos científicos em uma tecnologia que, segundo a empresa, poderia permitir que ela ultrapassasse a concorrência.Em uma resposta formal à crítica e em entrevista à Reuters, a Microsoft afirmou manter a confiança em suas pesquisas e garantiu que seu programa de computação quântica está registrando avanços práticos, apesar de quaisquer preocupações levantadas.O esforço científico da Microsoft tem despertado ceticismo. Dois artigos anteriores apoiados pela empresa foram retratados pela Nature, enquanto editores emitiram alertas sobre possíveis problemas de pesquisa em outros dois trabalhos — um publicado na Nature e outro na Science.A Microsoft afirmou que os artigos anteriormente retratados na Nature foram produzidos fora de seus laboratórios e que a empresa não revisou os dados neles contidos antes da publicação.Uma crítica revisada por pares, publicada na revista na quarta-feira por Henry Legg — professor de física quântica na Universidade de St. Andrews, na Escócia, — levanta preocupações sobre um quinto artigo, publicado em fevereiro de 2025, e um comunicado de imprensa associado. Esse artigo, que não está sendo retratado, é fundamental para todos os esforços subsequentes da Microsoft na área de computação quântica.No ano passado, a Microsoft anunciou publicamente ter encontrado o férmion de Majorana, uma partícula subatômica cuja existência era teorizada há muito tempo e que é central para a abordagem da empresa. No entanto, a descoberta não foi publicada em uma revista científica com revisão por pares. O artigo publicado em fevereiro de 2025 apresentava uma afirmação mais restrita: a de que a Microsoft havia desenvolvido um software para identificar uma lacuna minúscula em um fio que, de outra forma, seria altamente condutor.A existência dessa lacuna é relevante porque os qubits — as unidades básicas dos computadores quânticos — são poderosos, porém frágeis, perdendo frequentemente seu estado em frações de segundo. A Microsoft afirma que encontrar uma lacuna estável em um fio condutor faz parte de um processo que poderia levar à criação de qubits mais duradouros e úteis.Legg, contudo, constatou que o software da Microsoft “produziu resultados inconsistentes e relatados de forma equivocada”. Ele também apontou que um conjunto de dados mais amplo, divulgado pela Microsoft, mas não incluído no artigo, apresentava ruído aleatório, sem evidências claras da lacuna que a empresa alegava ter encontrado.Em uma entrevista, ele comparou o esforço a tentar encontrar a imagem de Jesus em uma torrada, examinando todos os pães de uma padaria inteira: “Se você está analisando algo que é, essencialmente, apenas física aleatória, eventualmente encontrará o Jesus na sua torrada”, disse.Em sua resposta publicada na revista Nature, a Microsoft defendeu suas afirmações e declarou que o software era uma “ferramenta prática de ajuste” para identificar locais adequados nos chips para a alocação de qubits.Chetan Nayak, responsável pelas iniciativas de hardware quântico da empresa, disse à Reuters, em entrevista, que o código funciona suficientemente bem para que a Microsoft o utilize regularmente na configuração de chips que já executam operações de computação quântica.“É quase como discutir se o voo é possível ou não, estando ao lado de um avião”, disse Nayak. “Bem, por que você não embarca e faz um voo de teste?”Sergey Frolov, físico da Universidade de Pittsburgh que também criticou o trabalho da Microsoft, afirmou que a empresa carece de evidências de longa data que sustentem as abordagens adotadas por rivais como a IBM e a Quantinuum — as quais não dependem da existência do férmion de Majorana.“Nem a Microsoft nem qualquer outra entidade estabeleceu uma base que demonstre claramente a plausibilidade desses avanços (baseados em Majorana) por meio de uma série de experimentos confiáveis”, disse Frolov. “Pelo contrário, temos uma série de artigos que continuam sendo contestados em seus fundamentos básicos por diferentes pessoas.”Microsoft anuncia lançamentos de inteligência artificial para Windows