A coluna teve acesso a novos áudios gravados em uma reunião entre o defensor público de Mato Grosso Rogério Borges Freitas e a servidora que o denunciou por importunação sexual, ocorrida ao longo de quase 10 anos. Após a denúncia, ele foi afastado inicialmente pelo prazo de 60 dias.Durante o encontro, realizado em março deste ano para tratar de conflitos em um determinado setor da instituição, Rogério afirma que a servidora possuía um “espírito faccioso” e comportamento de “rebeldia”.“Você é uma pessoa maravilhosa, extraordinária, mas tem uma língua grande. Não aquieta a língua. Ninguém quer saber da sua vida. Senta, faz teu serviço e não comenta nada com ninguém”, disse o defensor em um dos trechos.Na sequência, ele orienta que a servidora aceite as determinações da chefia sem resistência. Leia também Mirelle PinheiroConversas no ChatGPT expõem plano de pai para matar filho: “R$ 50 mil” Mirelle PinheiroPai planeja morte de filho pelo ChatGPT e é preso após alerta do FBI Mirelle PinheiroDeputada Tayla Peres é alvo da PF em ação contra lavagem de dinheiro Mirelle PinheiroMulher é flagrada ao esfregar cocô de cachorro em imagem de Bolsonaro “Receba a ordem dele. Não tenha uma postura de adversidade, de oposição, de rebeldia. Procura manter a submissão ali. Porque ali nós acolhemos você e abrimos as portas do setor. Eu tenho respeito e carinho por você, mas às vezes alguns comportamentos precisam ser ajustados”, falou.Ao responder, a servidora relata o sofrimento psicológico decorrente do ambiente de trabalho e afirma que passou a fazer acompanhamento psiquiátrico e psicológico.“Eu estou sobre medicação, tratamento psiquiátrico e psicológico. O que a gente vê é que tudo é abafado. Eu só estou aqui porque eu preciso. Senão, eu já pensei até de pular lá de cima com as coisas que ele falou”, afirmou.Em determinado momento, Rogério lê trechos do capítulo 12 do Evangelho de Mateus e afirma que “a boca fala do que o coração está cheio”. Em seguida, menciona que as pessoas responderão por suas palavras “no dia do juízo”.Depois, pergunta repetidamente se a servidora conseguiria perdoar o superior apontado por ela como responsável pelos problemas. “A senhora vai perdoá-lo e ele vai pedir perdão para a senhora.”EntendaA investigação começou após a denúncia da mulher ser registrada na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá (MT), em maio deste ano.A vítima relata que os episódios começaram em janeiro de 2017, quando o defensor teria oferecido carona e se lançado sobre ela dentro de um veículo sob o pretexto de auxiliá-la com o cinto de segurança.Em outro episódio, ocorrido em janeiro de 2018, Rogério teria chamado a servidora para acompanhá-lo em uma atividade dentro de seu gabinete e passou a ler trechos da Bíblia para ela e outro colega.Já em julho de 2019, segundo a denúncia, o defensor teria elevado o tom de voz e humilhado a servidora ao exigir que realizasse tarefas para as quais ela não possuía capacitação técnica adequada.Outro casoO caso, que já havia sido divulgado anteriormente pela coluna, ganhou novos desdobramentos após uma outra mulher, ex-servidora do órgão, registrar mais uma denúncia contra o servidor.Segundo o relato, após um velório ocorrido em 2023, o defensor teria permanecido por cerca de uma hora circulando de carro com ela antes de estacionar em um local escuro e isolado. Nesse momento, de acordo com a denúncia, Rogério segurou sua mão, puxou-a em sua direção e tentou beijá-la à força.Após resistir às investidas, segundo a ex-servidora, suas atribuições teriam sido gradualmente esvaziadas. Ela afirmou que passou períodos sem receber demandas de trabalho e que faltas indevidas teriam sido lançadas em seus registros funcionais. A exoneração ocorreu em fevereiro de 2024.Em nota, a Polícia Civil confirmou que as investigações dos dois casos estão em trâmite na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá. “Os fatos estão sendo apurados com celeridade e imparcialidade.”