Famílias detalham as marcas que o feminicídio deixa nos filhos das vítimas

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O crime de feminicídio deixa feridas eternas não só nas mulheres brutalmente assassinadas, mas também nos familiares que ficam e tentam honrar a memória das vítimas, que tiveram suas vidas ceifadas repentinamente.  A servidora pública federal Daniella Di Lena Pelaes, 46 anos, e a auxiliar de serviços gerais Islladdy Pereira Bastos, de 36 anos, entraram para a estatística cruel e deixaram três e cinco filhos, respectivamente, sem o alento materno.O Metrópoles conversou com as familiares das vítimas que tiveram de assumir a guarda dos filhos que ficaram órfãos.Além dos três filhos de sangue, a irmã de Daniella, Beth Pelaes assumiu a maternidade dos seus sobrinhos após a morte trágica da sua irmã mais velha, ocorrida em maio de 2024. Os filhos presenciaram o assassinato, cometido pelo próprio pai, dentro do condomínio onde a família morava, no Jardim Botânico (DF).  “Eles perderam o pai e a mãe ao mesmo tempo. O pai foi para o presídio — e eles não querem mais saber dele — e a mãe virou uma estrelinha no céu”, disse Beth Pelaes.A rotina dos filhos foi impactada após o crime, já que tiveram que deixar Brasília para ir morar no Amapá, onde vive a família de Daniella. “Nosso Natal nunca mais vai ser o mesmo. O aniversário da minha irmã é sempre aquele silêncio em casa. Tem dias que são fáceis, tem dias que não… Tem dias que é mais pesado”.2 imagensFechar modal.1 de 2A vítima de feminicídio, Daniella Pelaes e dois de seus filhos 2 de 2Beth com os seus filhos e os sobrinhos que agora também se tornaram filhos. "Agora eu tenho cinco filhos", disse a irmã de DaniellaUm dos sobrinhos de Daniella, José tinha somente 3 anos de idade quando perdeu a mãe, mas não esquece da memória dela e pede a ajuda da tia para ler a Bíblia e rezar pela alma da genitora. “O José me disse esses dias: ‘Mamãe, Jesus vai voltar, né? Então quando Jesus voltar, a minha mamãe Daniela vai voltar com Ele e eu vou morar com ela. Não fica triste não, tá?'”, contou a irmã de Daniella.Tendo que superar o luto diário e fazendo o papel de mãe para os sobrinhos, Beth faz questão de deixar um alerta para as mulheres.  “O conselho que eu dou para as outras mulheres é se amar acima de tudo e ficar sempre alerta aos sinais, porque os sinais sempre se repetem. Primeiro afasta do seio familiar, dos amigos, é ciúme da roupa. São pequenos detalhes”, relatou.Autor do feminicídio, Janilson Quadros de Almeida foi condenado a 39 anos de prisão em regime fechado. “A gente tinha essa dívida com a Dani, de fazer justiça na terra, mas nada vai trazê-la de volta”, lamentou a irmã. Na época do julgamento, a família se deslocou do Amapá até Brasília para pedir justiça e realizou protesto na Esplanada homenageando outras vítimas de feminicídio.6 imagensFechar modal.1 de 6Cemitério a céu aberto na Esplanada chama atenção para o número de feminicídiosAna Clara de Lima / Metrópoles2 de 6Cruzes com nomes de vítimas como Marielle Franco e Eliza Samudio também foram expostosAna Clara de Lima / Metrópoles3 de 6Dezenas de placas foram colocadas com os nomes de vítimas do feminicídioAna Clara de Lima / Metrópoles4 de 6Protesto foi organizado pela família de Daniela Pelaes Ana Clara de Lima / Metrópoles5 de 6Daniella Pelaes, de 46 anos, foi morta a facadas, dentro de casa ao lado dos filhosAna Clara de Lima / Metrópoles6 de 6Maria do Socorro e Beth Pelaes, mãe e irmã de DaniellaImagem cedida ao MetrópolesAvó no papel de mãeMarinalva Pereira Bastos, 55 anos, foi surpreendida com a notícia do assassinato da filha, conhecida como Leidinha, em 8 de setembro de 2025. Islladdy Santos que era dependente química e foi seduzida por um homem após uma recaída para fazer uso de drogas. Ela foi encontrada morta em uma área de mata no Núcleo Bandeirante (DF).O autor do crime contra a auxiliar de serviços gerais está respondendo na Justiça e já passou por audiência de instrução. O caso não foi muito repercutido na época, mas a dor da família nunca passou.Segundo a mãe, Islladdy estava travando uma luta contra o vício de drogas e estava conseguindo reconstruir a vida ao conseguir comprar uma casa e um carro. “A trajetória certa é os filhos enterrarem os pais, e não os pais enterrarem os filhos, mas isso é coisa que acontece na vida. E do jeito que eu perdi ela foi muito trágico, muito assim, repentino”, desabafou Marinalva com a voz embargada.Isllady havia acabado de terminar a faculdadeMarinalva segue cuidando dos cinco netos, que têm entre 7 e 16 anos, e ajuda a criá-los desde que nasceram. “Em relação às crianças, não é fácil. A gente, de família humilde, criar quatro crianças, mas também não é impossível”, contou.Em meio às dificuldades, a mãe de Isladdy cultiva a memória da filha para os netos e se emociona. “A gente tem que gritar para ver se esses políticos veem a dor de uma mãe. Não só de uma mãe, de tudo, né?”No último dia 24 de junho, Isladdy iria completar 37 anos de idade.Vítimas de feminicídio em 2026No primeiro semestre do ano, o DF já registrou 11 vítimas de feminicídio. Em 20 de fevereiro, Dileusa Almeida Durães foi morta, aos 46 anos, a facadas pelo marido Sandro Souza de Oliveira, 34. O crime ocorreu na frente dos filhos  do ex-casal, de 4 e 14 anos de idade.A mulher havia solicitado medida protetiva contra o próprio companheiro há quatro meses, mas depois solicitou retirada. Sandro segue preso e foi denunciado pelo Ministério Público do DF (MPDFT) pelos crimes de feminicídio e tentativa de homicídio.Programa Acolher Eles e ElasO Programa Acolher Eles e Elas é uma iniciativa do Governo do Distrito Federal (GDF) voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes que são órfãos do feminicídio.Atualmente, o projeto conta com 194 beneficiários. Desde o lançamento, em dezembro de 2023, até 31 de maio de 2026, 217 filhas e filhos de mulheres vítimas de feminicídio já passaram ou permanecem sendo atendidos pelo programa.Somente entre janeiro e maio deste ano, 15 órfãos foram atendidos pelo acolhimento da Secretaria da Mulher. Os filhos de Isladdy e a mãe fazem parte dos órfãos acolhidos pelo programa. “A cada 15 dias nós cinco (Marinalva e os quatro netos) fazemos sessões com os terapeutas”, contou a avó.O Acolher Eles e Elas também oferece um salário mínimo de R$ 1.518 a cada criança ou adolescente que perdeu a mãe para o feminicídio.Como denunciar violência domésticaMulheres vítimas de violência doméstica e familiar podem registrar ocorrência na delegacia eletrônica da Polícia Civil do Distrito Federal pelo telefone 197. As vítimas também podem acionar a Polícia Militar do Distrito Federal por meio do telefone 190.As vítimas também poder solicitar a inclusão no Programa Viva Flor, programa do GDF e do Tribunal de Justiça do DF que gera um botão de pânico e georreferenciamento no Distrito Federal e as autoridades são acionadas rapidamente. Para isso, é necessário registrar a ocorrência em uma delegacia e solicitar as Medidas Protetivas de Urgência.