Durante décadas, o nome Sharp foi um dos vários sinônimos de eletrônicos no Brasil. Televisores, videocassetes, micro-ondas, aparelhos de som e calculadoras eram só alguns dos destaques da marca, em especial dos anos 1980 em diante.A trajetória dessa marca é bem curiosa: ela tem o mesmo nome que uma antiga gigante nascida no Japão, mas ao mesmo tempo viveu o auge sem ter relação com essa companhia. Além disso, a derrocada dela foi inesperada, com o nome passando a ser cada vez mais raro no país depois de um tempo.A seguir, confira ou relembre a origem e o desfecho de ambas as Sharp: a lendária marca japonesa que conseguiu sobreviver ao mercado graças a uma divisão de telas e o empreendimento brasileiro, que foi uma das quedas mais bruscas da indústria nacional de eletrônicos.O nascimento de uma giganteA Sharp nasce oficialmente em 1912 na cidade japonesa de Tóquio como uma loja de produtos de metal fundada por Tokuji Hayakawa. Após a marca criar produtos como um cinto ajustado que não tinha buracos na tira de couro, uma lapiseira vira o primeiro grande projeto do grupo. Uma segunda versão, a Ever-Ready Sharp Pencil, foi o produto que décadas depois inspirou a troca de nome da Hayakawa para Sharp, que significa "afiado" em inglês e tinha a ver com o fato de uma lapiseira não precisar ser apontadaO setor de lapiseiras foi o primeiro de grande sucesso da empresa japonesa. (Imagem: Mercari/Reprodução)A entrada da companhia em eletrônicos começa por volta de 1925, quando ela começa a pesquisar a ainda pouco comum tecnologia do rádio no Japão e lança produtos bem aceitos no país. Em 1953, a Sharp foi a responsável por lançar o primeiro televisor produzido no Japão.Em seguida, ela passa a vender lâmpadas, calculadoras, aparelhos de ar-condicionado, microondas e ventiladores. Ela também esteve muito presente também no setor de mídias físicas, como fitas cassetes e principalmente aparelhos de videocassete.A queda da Sharp japonesaNa década de 2000, a Sharp vira uma das maiores especialistas do mercado em painéis LCD, atuando desde a idealização até a fabricação e venda desses displays. Essa escolha foi importante para que ela seguisse relevante no mercado global.Isso porque, a partir dos anos 2000, a participação de mercado da Sharp em TVs e outros eletrônicos despencou com mudanças no mercado e trocas no comando. Ela chegou a lançar modelos de renome, como o J-SH04, um dos primeiros celulares com câmera embutida do mundo, e a linha Aquos de eletrônicos, passando por televisores e celulares.Um modelo mais recente de Smart TV da linha Aquos. (Imagem: Sharp/Divulgação)Porém, o crescimento na quantidade de fornecedoras de painéis LCD no mercado faz ela derreter nos anos 2010, a ponto de recorrer a demissões e reorganização de atividades.A mudança mais drástica surge só em 2016. É o ano em que a taiwanesa Foxconn, tradicional fabricante de eletrônicos para outras companhias, adquire a maior parte da Sharp por US$ 3,5 bilhões — um valor alto, mas que seria maior antes que despesas não declaradas fossem descobertas pela nova dona.Por que a Sharp brasileira é diferente da originalA história da Sharp por aqui é no mínimo peculiar: ela foi uma marca de muito sucesso ao longo de décadas, mas fez isso praticamente sem relação com a companhia japonesa original.Isso porque a Sharp do Brasil nasce em 1969, quando o empresário Matias Machline consegue uma autorização oficial para usar o nome no país depois de alguns anos com um empreendimento diferente. Ou seja, a atuação da marca se deu de forma independente, apesar do braço nacional prosperar em setores parecidos que a empresa original.O fundador da Sharp do Brasil. (Imagem: Fundação Matias Machline/Reprodução)Ela se tornou uma das maiores fabricantes nacionais de eletrônicos e um dos muitos destaques da indústria brasileira na Zona Franca de Manaus. A companhia estava entre as líderes em áreas como calculadoras eletrônicas, aparelhos de som, videocassetes, filmadoras e televisores.Diversificando os negócios, o grupo abre empresas como a SID Informática, um consórcio que vira referência no setor bancário e automação. Além disso, ela lança em 1985 o HotBit, um dos dois modelos de MSX que foram feitos por empresas daqui.Porém, a Sharp foi uma das várias fabricantes nacionais a sofrer os impactos negativos da abertura econômica do mercado brasileiro pelo então presidente Fernando Collor de Melo, com a concorrência internacional sendo implacável contra a marca. Já sem Machline, que faleceu em um acidente em 1994, a Sharp do Brasil pede concordata em 2000 e teve a falência decretada dois anos depois.A Sharp ainda existe?Assim como a origem e o desenvolvimento da empresa no Brasil e no mundo, a resposta sobre o atual panorama da marca também varia. O ponto em comum é a redução das atividades: atualmente, o grupo não tem o mesmo tamanho ou prestígio de décadas anteriores.A Sharp original, nascida no Japão e ainda sob o controle da Foxconn, segue em atividade. Ela tem registrado números relativamente positivos em 2026, inclusive gerando lucro;A divisão de displays segue em operação, apenas de hoje operar no vermelho, enquanto o foco dela está em produtos corporativos e, em alguns mercados, ainda com eletrodomésticos;Já a Sharp do Brasil, aquela que fez fama sem relação com a original, de fato não existe mais. A Mitsui Produtos Eletrônicos (MPE), detentora da Sharp após a falência, foi comprada pela companhia japonesa e as marcas foram enfim unificadas só em 2011;Nesse ponto, a Sharp “oficial” abre uma representação no Brasil com uma atuação quase totalmente restrita ao mercado corporativo, inclusive em impressoras multifuncionais e telas interativas — agora vindas da marca japonesa e não mais uma criação original.Que fim levou a CCE, outra clássica marca nacional de aparelhos de som e TVs? Descubra nesta matéria!