Liquidada pelo BC, Sefer aparece em ação do Banco Master sobre ocultação de patrimônio

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A liquidação extrajudicial da Sefer Investimentos, decretada na última sexta-feira (26), lança luz sobre uma ação judicial em que a administradora aparece ligada a uma estrutura “espalhada por diversas jurisdições” que, segundo o liquidante do Banco Master, foi utilizada para movimentar recursos entre Brasil, Estados Unidos e Ilhas Cayman.Uma ação movida pelo liquidante do banco de Daniel Vorcaro aponta uma estrutura que envolve o Dublin Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados (FIDC NP), administrado pela Sefer, uma empresa nos Estados Unidos e um veículo registrado nas Ilhas Cayman. Na petição, o liquidante afirma que recursos transferidos pelo ecossistema do banco teriam percorrido essa estrutura e pede medidas para preservar ativos que poderão ser alvo de futuras ações de recuperação.A liquidação da Sefer foi determinada pelo Banco Central sob o argumento de comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, com risco anormal aos credores quirografários, além de graves violações às normas que regem sua atividade.O processo que envolve o Dublin e a administradora foi protocolado em março na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo por empresas do Grupo Master em liquidação. O liquidante pede o chamado protesto contra alienação de bens, medida que dá publicidade à disputa e busca dificultar a venda ou transferência de patrimônio que poderá ser alvo de futuras medidas para recuperação de valores considerados potencialmente desviados.A Sefer não é autora nem a principal ré da ação. Ela aparece no processo como administradora do Dublin e como representante, no Brasil, da Investments Horizon LLC, empresa estrangeira que, segundo o liquidante, integra a estrutura ligada ao veículo registrado nas Ilhas Cayman. A petição pede que a Sefer seja notificada nessa condição, assim como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a gestora Acura.Na petição, o liquidante afirma haver “fundadas evidências” de que o Dublin integrou uma “estrutura espalhada por diversas jurisdições”, supostamente utilizada por “pessoas interpostas” para movimentação de recursos.Segundo a ação, entre 2023 e 2025 o fundo recebeu “transferência de valores milionários” do Banco Master e de veículos de seu ecossistema em operações registradas como compra de direitos creditórios. O liquidante sustenta que parte desses recursos “não permaneceram no Brasil” e pede medidas para preservar futuras tentativas de recuperação de “valores potencialmente desviados”.Ainda de acordo com o liquidante, os livros contábeis do Banco Master registram repasses recorrentes ao Dublin para suposta aquisição de direitos creditórios. A petição também afirma que parte das instruções de tesouraria relacionadas às operações teria sido encaminhada por Dino Garcia, descrito pelo liquidante como profissional contratado por Daniel Vorcaro após deixar a Sefer.Segundo o liquidante, os recursos saíam do ecossistema do Banco Master para o Dublin FIDC e, a partir dali, passariam pela Investments Horizon LLC, empresa representada pela Sefer no Brasil, chegando à Centara Multimarket Fund Ltd. SPC, registrada nas Ilhas Cayman. Na visão apresentada na ação, essa estrutura internacional teria sido utilizada para fazer circular recursos por diferentes jurisdições.Em resumo, a cadeia descrita pelo liquidante é:Banco Master → Dublin FIDC → Investments Horizon LLC → Centara Multimarket Fund Ltd. SPC (Cayman).A Centara Multimarket Fund possui CNPJ brasileiro ativo e aparece em bases cadastrais como empresa domiciliada nas Ilhas Cayman, com endereço em Willow House, Cricket Square, Georgetown — o mesmo citado na ação judicial.A estrutura descrita pelo liquidante também dialoga com outros episódios revelados anteriormente. Reportagens mostraram que a Sefer atuava como representante, no Brasil, de empresas estrangeiras ligadas ao ecossistema de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.Não é a primeira vez que a Sefer aparece em episódios envolvendo o ecossistema do Banco Master. Durante a recuperação judicial da Fictor, por exemplo, a administradora foi apontada pela empresa como credora, afirmação que contestou. Segundo a administradora, ela apenas exercia a administração do fundo Krispy, em nome da offshore Master Titan Capital Holding, estrutura ligada a Daniel Vorcaro.Mais recentemente, em abril, menos de um mês após o Banco Central determinar a indisponibilidade dos bens da offshore Titan Capital Holding, registrada nas Ilhas Cayman, uma nova holding de nome praticamente idêntico — Titan Capital Holdings Ltd. — foi aberta em Londres em nome de um produtor rural brasileiro, mas com objeto social típico de uma holding financeira.Leia mais: Banco Master: Menos de um mês após BC bloquear offshore de Daniel Vorcaro, ‘nova’ Titan foi criada em LondresO tombo do DublinOs informes enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o Dublin passou a ter um investidor não residente nas cotas subordinadas em setembro de 2025. Os documentos públicos não identificam quem era esse cotista, mas ele permaneceu no fundo até abril de 2026.O dado chama atenção porque, na ação judicial, o liquidante aponta justamente a Investments Horizon LLC — empresa estrangeira representada pela Sefer no Brasil — como integrante da estrutura utilizada nas operações investigadas. Os informes públicos, porém, não identificam o investidor estrangeiro nem permitem concluir que se trata da mesma pessoa jurídica.Nos meses seguintes, o patrimônio líquido do fundo encolheu rapidamente. Em dezembro de 2025, o Dublin possuía patrimônio líquido de R$ 521,4 milhões. Em janeiro de 2026, o valor caiu para R$ 389,6 milhões. Em fevereiro, para R$ 352,6 milhões. Em março — o mesmo mês em que o liquidante ajuizou a ação — o fundo registrou um resgate de R$ 626,3 milhões em cotas subordinadas, fazendo o patrimônio líquido despencar para R$ 70,5 milhões. Em abril, permanecia praticamente no mesmo patamar, em R$ 71 milhões.As cotas subordinadas são a classe que normalmente absorve primeiro eventuais perdas do fundo e costumam concentrar os investidores que assumem maior risco. O resgate dessa classe explica boa parte da redução do patrimônio líquido observada em março.Paralelamente, o Banco Master passou a aparecer nos informes mensais do Dublin como cedente de direitos creditórios. Em fevereiro, março e abril de 2026, os documentos indicam o banco nessa condição. No último informe disponível, referente a abril, a exposição estimada aos créditos cedidos pelo Master era de R$ 35,6 milhões.Embora o patrimônio líquido do Dublin fosse de apenas R$ 71 milhões naquele momento, o fundo mantinha ativos totais de R$ 604,9 milhões, carteira de direitos creditórios de R$ 237,5 milhões e passivo de R$ 534 milhões. A diferença decorre justamente da estrutura patrimonial do fundo: o patrimônio líquido corresponde ao saldo remanescente após o desconto dos passivos.A ação judicial envolvendo o Dublin soma-se a outros processos recentes que mencionam a Sefer, Foco ou Índigo — denominações antigas ligadas à instituição. Em uma produção antecipada de provas no Rio de Janeiro, por exemplo, investidores citam operações envolvendo Benjamin Botelho, Daniel Vorcaro, Banco Master, Máxima e Foco/Índigo DTVM.Até o momento, a ação possui natureza cautelar e busca preservar ativos para eventual recuperação futura de valores. Na petição, o liquidante sustenta que a medida é necessária para evitar que ativos eventualmente relacionados à estrutura sejam transferidos antes do ajuizamento das ações destinadas à recuperação dos recursos que considera potencialmente desviados.A reportagem não conseguiu contato com a Sefer e o Banco Master.