Ataques dos houthis à Arábia Saudita aumentam risco de ampliação da guerra

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Os ataques mortais deste fim de semana ao principal aeroporto de Riad demonstraram a capacidade dos houthis do Iêmen de atingir o coração do poder saudita, aumentando o risco de uma escalada perigosa que pode acabar envolvendo os Estados Unidos.O ataque de sábado (10) matou 12 pessoas e feriu outras 309. Neste domingo (11), o aeroporto foi novamente atingido, desta vez por um projétil de origem desconhecida, marcando o quarto ataque em uma semana. Caças sauditas já apoiam uma contraofensiva das forças do governo iemenita após os houthis tomarem territórios próximos ao estreito de Bab el-Mandeb, um ponto estratégico para o transporte marítimo global na entrada sul do Mar Vermelho.Destroços são vistos no interior do Aeroporto Internacional King Khalid, em Riad, após um ataque reivindicado pelos houthis, grupo apoiado pelo Irã no Iêmen. O terminal foi atingido em 10 de outubro, deixando dezenas de feridos e interrompendo temporariamente as operações do principal aeroporto da Arábia Saudita. Foto obtida de vídeo publicado em redes sociais. REUTERSOs houthis haviam permanecido em grande parte à margem desde o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, em fevereiro. Mas a ofensiva mais recente ilustra como o grupo, integrante do chamado “eixo da resistência” apoiado por Teerã, se transformou em uma força militar autônoma, com uma sofisticada cadeia própria de suprimentos de armamentos e capacidade para agir e escalar conflitos conforme seus próprios interesses, em alguns momentos coordenado com a República Islâmica.Os ataques colocam o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato da Arábia Saudita, sob crescente pressão para intensificar uma guerra da qual o país tenta se desvincular há anos, contra um adversário que talvez esteja mais capacitado do que nunca. Eles também criam dilemas para os EUA e para os novos parceiros de defesa do reino, Turquia e Paquistão, sobre até onde devem ir para ajudar Riad a responder.“Ao intensificar os ataques, eles tentam pressionar a Arábia Saudita a recuar e interromper sua campanha aérea”, disse Ahmed Nagi, analista sênior para o Iêmen do International Crisis Group. “Riad vê esses ataques como uma escalada grave, especialmente pela sua natureza sem precedentes, e provavelmente responderá com maior pressão militar.”Leia tambémAeroporto de Riad volta a ser alvo de ataque em meio à escalada da guerraTerminal de passageiros do Aeroporto Rei Khalid, em Riad, foi atingido por um projétil neste domingo; autoridades ainda apuram a origem do ataque e a extensão dos danosArábia Saudita sente impacto da guerra após ataque com 12 mortos em aeroportoMaior atentado no reino desde o início do conflito com o Irã testa segurança e agenda econômica de RiadA coalizão liderada pela Arábia Saudita culpou os houthis pelo ataque de sábado, classificando-o como “um crime de guerra em larga escala”. O grupo não reivindicou a autoria dessa ação específica, embora tenha assumido ataques anteriores e alertado para novas ofensivas contra aeroportos sauditas.A Arábia Saudita liderou uma coalizão que interveio no Iêmen em 2015 para restaurar o governo internacionalmente reconhecido, mas passou anos bombardeando os houthis sem conseguir derrotá-los. Uma trégua mediada pela ONU em 2022 reduziu drasticamente os combates e ofereceu a Riad um caminho para diminuir seu envolvimento, enquanto as capacidades militares dos houthis continuaram a crescer.Uma ameaça persistenteA Arábia Saudita gastou bilhões de dólares para construir uma das forças armadas mais sofisticadas da região, equipada com caças F-15 americanos e sistemas antimísseis Patriot, cujos interceptadores podem custar até US$ 5 milhões cada. Ainda assim, ataques sucessivos fecharam o aeroporto internacional da capital, cancelando centenas de voos e forçando escolas a migrar para o ensino remoto.Os ataques podem ser um sinal da pressão que os houthis enfrentam dentro do Iêmen. Após o grupo tomar o porto de Mokha, no Mar Vermelho, e áreas próximas a Bab el-Mandeb no mês passado, forças governamentais iemenitas lançaram uma contraofensiva apoiada por aviões sauditas. Segundo a coalizão, Mokha foi retomada e dezenas de alvos militares houthis foram destruídos.“Os houthis estão sentindo o impacto dos ataques aéreos sauditas realizados nos últimos dias em áreas sob seu controle”, afirmou Nagi. “Eles perderam um número significativo de combatentes, e vários locais estratégicos foram atingidos, incluindo oficinas de drones, depósitos de armas e torres de telecomunicações.”Mesmo assim, os houthis ainda dispõem de um arsenal de mísseis balísticos projetados pelo Irã capazes de alcançar Riad, além de drones de ataque de baixo custo que podem ser montados localmente. O grupo sobreviveu a anos de campanhas de bombardeio conduzidas pela Arábia Saudita e pelos EUA, e os ataques recentes demonstram o quão difícil pode ser impedir novos danos ao reino.“Eles parecem ter drones e mísseis baratos em quantidade suficiente, além do conhecimento técnico necessário, para realizar ataques de longo alcance contra infraestrutura civil saudita, que é um alvo relativamente vulnerável”, disse Stacie Pettyjohn, pesquisadora sênior do Center for a New American Security e ex-integrante da área de estratégia do Pentágono.Pressão sobre TrumpOs ataques também criam dilemas para os aliados da Arábia Saudita, começando pelos Estados Unidos, que realizaram grandes bombardeios contra os houthis no ano passado antes de concordarem com uma trégua.O presidente Donald Trump tem buscado evitar uma escalada militar adicional com o Irã antes das eleições legislativas de novembro. Até agora, Washington limitou seu apoio à ofensiva saudita ao compartilhamento de informações de inteligência.“É muito improvável que os sauditas consigam interromper esses ataques se os EUA não conseguiram, a menos que enviem tropas terrestres ou elevem drasticamente a capacidade dos combatentes iemenitas que apoiam”, afirmou Pettyjohn. “A supressão exige patrulhas aéreas constantes em busca de lançadores, o que é difícil. E os iemenitas parecem ter usado o período de cessar-fogo com os EUA para se rearmar.”Mas, com um cidadão americano entre os mortos no ataque de sábado, Trump enfrenta pressão crescente para agir. Questionado no sábado sobre a possibilidade de os EUA participarem de ataques contra os houthis, respondeu: “Talvez. Vamos analisar.”“Riad vai querer ataques diretos dos EUA contra os houthis, reforço das capacidades de defesa aérea, maior compartilhamento de inteligência e cobertura política para uma campanha mais intensa no Iêmen”, disse William Usher, ex-analista sênior para o Oriente Médio da CIA.Impacto econômicoSegundo fontes familiarizadas com o assunto, a Arábia Saudita demonstra frustração com a assistência limitada recebida dos aliados ocidentais. O Reino Unido forneceu uma aeronave de reabastecimento aéreo, mas pedidos sauditas por apoio defensivo adicional ainda aguardam aprovação. A França anunciou o envio de equipamentos militares defensivos ao porto saudita de Yanbu, no Mar Vermelho.A escalada também testa a recém-formada Aliança de Defesa de Meca, pacto assinado em agosto entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. Ambos os países sinalizaram disposição para enviar tropas ou armamentos para ajudar na defesa do reino, embora a Turquia tenha descartado participar de operações ofensivas contra os houthis.Para a Arábia Saudita, o sucesso dos houthis ocorre em um momento delicado. O país se prepara para sediar uma série de eventos destinados a reforçar sua imagem como um dos destinos de investimento mais atrativos do mundo. Entre eles está a Future Investment Initiative, conhecida como o “Davos do Deserto”, que reúne nomes de peso de Wall Street, como David Solomon, do Goldman Sachs, e Larry Fink, da BlackRock.Executivos de grandes petroleiras, incluindo BP e Shell, cancelaram a participação no Congresso Mundial do Petróleo, que começaria no domingo, num sinal de que os ataques já afetam os negócios em Riad. O distrito financeiro da capital, onde estão o fundo soberano saudita e importantes bancos e consultorias internacionais, também adotou trabalho remoto.Os ataques ocorrem enquanto a maior economia do Oriente Médio enfrenta crescente pressão fiscal após anos de elevados gastos com a agenda Vision 2030, projeto de transformação econômica liderado por Mohammed bin Salman. Neste mês, o governo aumentou sua projeção de déficit orçamentário e afirmou que a economia provavelmente encolherá 3,6% neste ano, tornando ainda mais importante a atração de investimentos e financiamento externos.“Os eventos recentes podem causar alguma interrupção no fluxo de investimentos estrangeiros, mas investidores e parceiros não estão abandonando o país. Eles vão observar a situação e esperar a oportunidade de entrar”, disse Said El-Saadi, diretor-executivo da consultoria Access KSA.Ainda assim, os líderes sauditas podem concluir que têm poucas alternativas além de intensificar o conflito para encerrar os ataques e restaurar a estabilidade.“Os houthis sempre foram agressivos e dispostos a assumir riscos”, disse Nadwa Al-Dawsari, pesquisadora associada do Middle East Institute. “Eles só recuam diante de uma ameaça crível e, até agora, não enfrentaram uma.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Ataques dos houthis à Arábia Saudita aumentam risco de ampliação da guerra appeared first on InfoMoney.