Uma nova análise genética revelou possíveis pistas sobre os segredos da longevidade de uma tartaruga gigante chamada Jonathan, o animal terrestre mais velho do mundo. Os pesquisadores afirmam que as descobertas podem, eventualmente, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos que visem retardar o declínio celular relacionado à idade em humanos.Acredita-se que Jonathan tenha 194 anos. Ele é uma tartaruga-gigante-de-aldabra, uma espécie nativa das ilhas Seychelles, no Oceano Índico e passou a maior parte de sua vida na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, um território ultramarino britânico.As tartarugas-gigantes estão entre os animais terrestres mais longevos do planeta, com alguns registros indicando que elas podem sobreviver regularmente por mais de um século. Mas Jonathan, prestes a completar 200 anos, é um exemplo extremo nesse grupo já tão especial. Leia Mais Tartaruga mais velha do mundo é ícone do Guinness World Record Essas 'tartarugas alienígenas' estão de volta a uma ilha de Galápagos onde estavam extintas desde o século XIX História das tartarugas-gigantes de Galápagos é um conto de piratas: agora, 'tartarugas alienígenas' apareceram pela primeira vez desde o século XIX Uma explicação para a longa expectativa de vida desses animais pode ser que eles vivam muito lentamente até mesmo em nível genético, de acordo com um novo estudo publicado na última quarta-feira (7) no periódico Science Advances .“Sempre se presumiu que a taxa metabólica deles é muito baixa em comparação com a nossa”, disse o coautor do estudo, Justin Gerlach, pesquisador em biologia na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. “Isso significa que os processos que ocorrem dentro das células são mais lentos, portanto, há menos reações químicas e, consequentemente, menos danos às células e ao DNA.”Mais de 150 tartarugas-gigantes são soltas no Equador | AGORA CNNGerlach e seus colegas testaram essas hipóteses examinando o genoma de Jonathan, o conjunto completo de DNA, bem como seu epigenoma, os interruptores que ligam e desligam os genes. Os pesquisadores encontraram 287 variantes genéticas associadas à proteção do animal contra os inevitáveis danos celulares que ocorrem com o tempo.“Ele possui alguns genes que são particularmente bons para o reparo do DNA e para a redução da inflamação”, disse Gerlach, referindo-se a dois mecanismos essenciais que comprovadamente retardam o processo de envelhecimento.Mais especificamente, a análise sugere que Jonathan pode continuar expressando os genes corretos nos níveis adequados mesmo na velhice. Esse processo normalmente começa a falhar muito mais cedo na maioria dos outros animais, incluindo os humanos, disse Gerlach.Jonathan (à esquerda) com outra tartaruga gigante chamada David. • Joe Hollins“Nossas células começam a funcionar de forma errada e desenvolvemos câncer, por exemplo. Mas Jonathan ainda possui o controle genético de um animal muito mais jovem”, acrescentou. “Não sabemos se isso se deve ao fato de ele ser excepcional ou se é realmente uma característica das tartarugas gigantes. Mas significa que seus corpos são muito mais saudáveis do que esperaríamos para a idade deles, em comparação com o que aconteceria com os humanos.”Outros membros do reino animal, incluindo espécies de baleias, tubarões e moluscos, também são conhecidos por atingirem idades mais avançadas, mas os cientistas sabem pouco sobre os mecanismos genéticos e moleculares que determinam se a expectativa de vida de um animal é longa ou curta, disse João Pedro de Magalhães, catedrático de biogerontologia molecular da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que não participou do estudo.“Compreender por que algumas espécies vivem muito mais tempo do que outras representaria um grande avanço na nossa compreensão do envelhecimento e da longevidade, com potenciais aplicações na saúde humana”, acrescentou por e-mail.Um plano para a resiliênciaA idade exata de Jonathan é desconhecida. Cientistas estimam que o grande réptil tenha cerca de 194 anos, com base em uma fotografia de 1882 que o retrata em Santa Helena já em tamanho adulto. Tartarugas-gigantes geralmente atingem esse tamanho por volta dos 50 anos, o que permite aos pesquisadores deduzir sua idade atual a partir de uma foto tirada há 144 anos.Com base nessa estimativa, o governador de Santa Helena, em 2022, concedeu a Jonathan uma data de nascimento oficial : 4 de dezembro de 1832; Abraham Lincoln, Charles Darwin e a Rainha Vitória já estariam vivos nessa época e seriam jovens.No entanto, Jonathan poderia ser ainda mais velho, 200 anos ou mais, de acordo com Gerlach. A chegada do animal a Santa Helena provavelmente ocorreu porque o público no século XIX considerava as tartarugas-gigantes como “curiosidades” e, como tal, ele teria sido um presente interessante para um administrador colonial. Esse destino o poupou de um destino muito mais macabro, comum para a espécie na época. As tripulações de navios de exploração frequentemente capturavam esses animais gigantes e os mantinham como fonte de alimento.Uma foto tirada em 1882, quando Jonathan (à esquerda) chegou a Santa Helena. • AL Innes“Os navios recolhiam tartarugas das Seychelles, das Galápagos ou das Ilhas Maurícias, e podiam mantê-las a bordo durante meses sem se preocuparem em alimentá-las ou dar-lhes água”, explicou Gerlach. “Elas continuavam vivas e comestíveis. Era uma prática cruel que contribuiu para a extinção da espécie mauriciana.”Pesando cerca de 180 quilos, Jonathan ainda está ativo apesar de ter perdido a visão devido à catarata. Ele é uma atração turística popular e, no início deste ano, foi alvo de uma pegadinha viral de 1º de abril que afirmava erroneamente que ele havia morrido, levando o governo de Santa Helena a confirmar que ele estava vivo e bem.Devido à idade avançada do animal e para evitar qualquer risco de infecção, os autores do estudo coletaram amostras de DNA esfregando sua boca com um cotonete, em vez de coletar sangue. A equipe observou que as amostras de saliva impediram o uso de técnicas de sequenciamento de DNA mais precisas.Os pesquisadores compararam o DNA e o epigenoma de Jonathan com os de membros muito mais jovens de sua espécie encontrados no Atol de Aldabra, nas Seychelles, e observaram semelhanças notáveis. Além disso, suas mitocôndrias, as estruturas celulares que produzem energia, estavam em condições surpreendentemente ideais.“Ainda não sabemos se isso é comum à sua espécie, mas um dos nossos próximos objetivos é analisar outras tartarugas-gigantes-de-aldabra para descobrir”, disse o autor sênior do estudo, Dr. Stephen Clark, fundador da Fundação Kallel, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nashville dedicada a aumentar a longevidade humana.“Existem alguns dados que mostram que a saúde mitocondrial é importante para espécies longevas, e foi demonstrado que os supercentenários humanos têm mitocôndrias mais eficientes, então nossos resultados em Jonathan estão de acordo com essas descobertas”, disse Clark em um e-mail, referindo-se a pessoas que chegam aos 110 anos ou mais.O genoma de Jonathan oferece um mapa da resiliência celular que pode se traduzir em tratamentos para humanos, acrescentou Clark. “Estamos muito interessados em encontrar medicamentos genéricos para humanos que melhorem a saúde mitocondrial e queremos levar esses medicamentos para ensaios clínicos em humanos dentro de um ou dois anos.”LEIA TAMBÉM: Animal minúsculo da Antártica mora e se alimenta em ‘pequenos vulcões’ a quase 1 km de profundidade; descoberta revela cem anos de mistérioSão necessárias mais amostrasCom um único animal, as novas descobertas não permitem aos pesquisadores determinar exatamente por que Jonathan viveu tanto tempo, e mais tartarugas-gigantes e outras espécies longevas são necessárias para se obter uma compreensão mais completa dos fatores genéticos que determinam a longevidade, de acordo com Handan Melike Dönertaş, professora assistente e pesquisadora de genômica da Universidade Técnica do Oriente Médio, na Turquia. Ela não participou do estudo.“Ao comparar esses indivíduos extremos com outros, não apenas entre humanos, como os centenários, mas também em outras espécies, podemos começar a aprender o que os torna especiais e, com os avanços na tecnologia médica, podemos encontrar maneiras de aplicar o que aprendemos”, disse ela em um e-mail.Jonathan é um sujeito de pesquisa ideal para investigar alterações genéticas que podem estar ligadas a uma vida mais longa, tornando o novo estudo convincente, disse Vincent J. Lynch, professor do departamento de ciências biológicas da Universidade de Buffalo, em Nova York.No entanto, alguns dos métodos do estudo são propensos a gerar resultados falso-negativos e falso-positivos, afirmou Lynch, que não participou do trabalho. “Desenvolvemos métodos computacionais para determinar se as mutações são adaptativas, benéficas ou deletérias”, escreveu ele em um e-mail. “Mas esses métodos são muito sensíveis às suposições que fazemos sobre como os genes evoluem. O modelo que eles usaram, embora comum, faz suposições irrealistas que podem levar à classificação de mutações benéficas como prejudiciais e vice-versa.”Ainda assim, o estudo é um complemento valioso para um crescente corpo de pesquisas e reforça a ideia de que as tartarugas-gigantes são únicas em sua capacidade de desafiar as expectativas de longevidade e saúde, afirmou Ylenia Chiari, professora associada da Faculdade de Medicina e Ciências da Saúde da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. Chiari também estudou a longevidade de espécies de tartarugas-gigantes nas Ilhas Galápagos, mas não participou do estudo recente.“Essas descobertas estão começando a desvendar a complexidade dos mecanismos que permitem que alguns organismos alcancem uma longevidade excepcional”, disse Chiari em um e-mail. “Em última análise, um dos objetivos de estudar esses e outros animais excepcionalmente longevos é obter conhecimentos que possam ser aplicados à pesquisa sobre envelhecimento humano e câncer.”