O mercado global de small e mid caps (empresas de pequena e média capitalização) está diante de um cenário em que a proporção de companhias que oferecem um retorno em dividendos superior ao dos títulos públicos de longo prazo despencou para mínimas históricas. O alerta vem do mais recente relatório do JPMorgan, “The SMid View”, assinado pela equipe de estratégia global liderada por Eduardo Lecubarri.De acordo com o documento, desde o início de 2024, o percentual de small e mid caps nos Estados Unidos com dividend yield acima do yield do título de 30 anos do Tesouro americano caiu de 19% para apenas 9% — o menor patamar em 24 anos. O movimento é acompanhado por dinâmica semelhante no Reino Unido e na Europa Continental.“Estes não são os anos 1990”, alertam os estrategistas. “Na década de 1990, o dólar estava se valorizando, o crescimento do PIB real era mais forte e o yield (rendimento) do título de 30 anos estava caindo. Hoje, o cenário é exatamente o oposto.”O que está por trás da alta dos juros longos?O relatório aponta que a alta dos yields dos títulos de 30 anos não pode ser explicada apenas pelos catalisadores tradicionais — inflação, juros de curto prazo e crescimento do PIB real. Desde 2023, o prêmio de prazo (term premia) nos Estados Unidos dobrou, atingindo níveis que historicamente só foram vistos após uma queda de mais de 70% na taxa básica de juros (Fed Funds Rate) — cenário que o banco considera improvável no momento.A explicação, segundo os analistas, está no que chamam de “evento de 3 sigmas”: pela primeira vez na história, cerca de 60% do PIB mundial está nas mãos de governos com relação Dívida/PIB superior a 100% e com déficits fiscais elevados.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa sobe com PETR4, aos 206 mil pontosBolsas dos EUA recuam com forte alta do petróleo e preocupações com a inflação“O driver do yield do título de 30 anos que está a 3 sigmas de sua norma é a saúde financeira do governo americano”, escrevem Lecubarri e sua equipe, destacando que a dívida pública dos EUA como proporção do PIB está em 126% e deve subir para 127% em 2026.E o Brasil?Em meio a esse cenário global de aperto, o Brasil aparece como uma das exceções mais interessantes para investidores em small e mid caps em busca de rendimento. O relatório do JPMorgan traz um quadro global das small e mid caps com maior “excesso de yield” — definido como a diferença entre o dividend yield da ação e o yield do título de 30 anos do governo local — combinado com crescimento consistente de receita nos últimos três anos.Das 164 ações globais que atendem a esses critérios, várias são brasileiras, e algumas se destacam pelos yields excepcionalmente altos, que seguem abaixo:EmpresaTickerSetorDividend YieldExcesso de YieldVulcabrasVULC3Calçados38,8%32,2%JSLJSLG3Transporte29,6%23,0%Direcional EngenhariaDIRR3Incorporação26,7%20,1%Plano & PlanoPLPL3Incorporação22,1%15,5%Moura DubeuxMDNE3Desenvolvimento Imobiliário21,5%14,9%Cury ConstrutoraCURY3Incorporação16,6%10,0%Azzas 2154AZZA3Vestuário16,6%10,0%Porto SeguroPSSA3Seguros1,7%— (no portfólio modelo)A Vulcabras (VULC3) lidera com folga: um dividend yield de 38,8% e um excesso de yield de 32,2 pontos percentuais acima do yield do título de 30 anos do governo brasileiro. A empresa de calçados, conhecida por fabricar marcas como Olympikus, aparece como um dos destaques do setor de consumo discricionário.Já as incorporadoras Direcional Engenharia (DIRR3), Cury Construtora (CURY3) e Plano & Plano (PLPL3) também figuram na lista, beneficiadas pelo ciclo de aquecimento do setor imobiliário brasileiro e por valuations atrativos.No setor de transportes, a JSL (JSLG3) — coberta com recomendação Overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) — oferece um dividend yield de 29,6% e um excesso de 23,0%.Por que isso importa?O JPMorgan argumenta que a queda na proporção de ações com dividend yield superior ao dos títulos de 30 anos tem historicamente coincidido com uma desaceleração nos retornos futuros das small e mid caps em um horizonte de 12 meses.“O melhor indicador de se os investidores podem esperar algum upside de reavaliação é o ‘excesso de yield'”, afirmam os estrategistas. “E essa métrica hoje sugere que não há espaço para reavaliação na maior parte do mercado de small e mid caps do mundo.”Leia tambémMagalu (MGLU3) segue como maior aposta? As varejistas com espaço para subir após raliEm vez de simplesmente procurar as ações mais sensíveis à queda dos juros, passou a ser necessário identificar onde ainda existe espaço para valorizaçãoPara o Brasil, no entanto, o cenário é mais favorável. Com a taxa básica Selic em 13,75% ao ano, o earnings yield (lucro sobre preço) das small caps brasileiras está em 7,9%, o que, descontado da taxa oficial, resulta em um excesso de yield negativo de 5,9%. Apesar disso, as empresas listadas no screening global mostram que ainda há oportunidades para quem busca rendimento em um ambiente de juros elevados.O portfólio modeloO banco também adicionou dois novos nomes ao seu portfólio modelo global de small e mid caps neste mês:DaShenLin Pharmaceutical Group (603233 CH) — ação chinesa do setor farmacêutico, com capitalização de US$ 3,0 bilhões, classificada como overweight. A empresa foi destacada justamente por seu alto excesso de yield e crescimento acelerado de lucros.Befesa (BFSA GY) — empresa europeia de reciclagem de resíduos perigosos, com valor de mercado de € 1,4 bilhão, também classificada como overweight.No portfólio para mercados emergentes (RoW), a Porto Seguro (PSSA3) — seguradora brasileira com recomendação overweight do analista Antonio Grespan — já figurava entre as posições, com um retorno total acumulado de 10,2% desde sua inclusão em janeiro de 2025.O veredito dos estrategistasO banco mantém sua recomendação de overweight para small e mid caps em relação às large caps nos mercados desenvolvidos (ex-Japão), uma visão que o banco adotou em novembro de 2023 e que, segundo eles, “parece estar funcionando e tem pernas para continuar”.Leia tambémShoppings ainda podem subir após rali eleitoral? JPMorgan vê alta de até 27%Multiplan (MULT3), Iguatemi (IGTI11) e Allos (ALOS3) seguem com recomendação de compra para o banco“A small e mid cap oferece uma oportunidade muito assimétrica, com potencial de underperformance de curto prazo de 0% a 5% em um cenário pessimista, dentro do que consideramos ser uma oportunidade de 30% a 60% de alpha em relação às large caps nos próximos 3 a 5 anos”, concluem.Para o investidor brasileiro, a mensagem é clara: em um mundo onde os juros longos sobem e comprimem os retornos das ações, as small e mids brasileiras ainda oferecem um oásis de rendimento — desde que se saiba onde procurar.The post Small e mid caps brasileiras aparecem entre destaques globais do JPMorgan; veja ações appeared first on InfoMoney.