Goldman: Flávio é favorito, mas mercado agora cobrará fiscal e equipe econômica

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O resultado do primeiro turno das eleições deu à direita brasileira uma força política maior do que indicavam as pesquisas e colocou Flávio Bolsonaro (PL) como favorito inicial para a disputa decisiva contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo avaliação do Goldman Sachs.Para os mercados, porém, o foco deve mudar rapidamente das urnas para as propostas econômicas, a composição de um eventual governo e, principalmente, a estratégia fiscal para os próximos quatro anos, apontam Alberto Ramos e Panteleymon Semka, que assinam o relatório. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, mais de 4 pontos percentuais acima do indicado pela média das pesquisas acompanhadas pelo banco. Lula recebeu 45,16%, resultado aproximadamente em linha com os levantamentos, mas ficou mais de 2,2 milhões de votos atrás do adversário.O desempenho acima das expectativas também ocorreu nos três grandes colégios eleitorais destacados pelo Goldman. Em São Paulo, Flávio recebeu 51,9%, contra 38,2% de Lula; em Minas Gerais, 48,2%, ante 43,3%; e no Rio de Janeiro, 53%, contra 39,4%.Para o banco, os levantamentos não erraram apenas quem terminaria à frente, mas também subestimaram a votação de Flávio em 4,3 pontos percentuais.Vantagem de 2 a 3 pontos no 2º turnoO Goldman Sachs espera que as próximas pesquisas mostrem Flávio Bolsonaro com vantagem de 2 a 3 pontos percentuais sobre Lula no segundo turno.Um dos argumentos está na transferência dos votos dos candidatos eliminados, uma vez que Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema somaram 7,6% dos votos válidos, ou 9,1 milhões de votos. Pesquisas citadas pelo Goldman indicam que, em termos líquidos, esses eleitores se inclinam mais para Flávio, embora parte dessa migração possivelmente já tenha ocorrido antes mesmo do primeiro turno.Além disso, o banco espera que partidos de centro e centro-direita que permaneceram neutros formalizem apoio ao senador. Caiado e Zema já haviam manifestado apoio, enquanto governadores eleitos do Republicanos em São Paulo e Minas Gerais também podem ter participação visível na campanha.O Goldman ressalta, contudo, que a eleição permanece em aberto. Entre os fatores que podem decidir a disputa estão desempenho da campanha, debates, mobilização dos eleitores e a capacidade de alcançar os 21,1% que se abstiveram no primeiro turno.Congresso vira peça-chave para o mercadoPara além da disputa presidencial, é a composição do Congresso que cria uma das principais mudanças estruturais identificadas pelo Goldman.A Câmara avançou para a direita, impulsionada especialmente pelo desempenho do PL. A bancada do partido passou de 98 para 121 deputados, maior número de cadeiras conquistado por um único partido desde 1986. Já o PT terá 70 deputados e a federação PT-PCdoB-PV, 88.Somadas, direita e centro-direita ficam com 57% das cadeiras da Câmara, enquanto esquerda e centro-esquerda respondem por 25%.Leia tambémItaú BBA tem compra para Brasil, vê Ibovespa a 246 mil e aposta em 4 ações atrasadasNa visão do banco, a precificação do mercado passou a ser compatível com um cenário de ajuste fiscal gradualContinuidade de euforia no mercado depende de plano ainda incerto de Flávio BolsonaroAnalistas que acompanham o Brasil esperam que o país tenha mais chances de enfrentar o déficit crescente sob o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, embora ele ainda não tenha apresentado um plano detalhado de como pretende fazer issoNo Senado, a mudança foi igualmente relevante uma vez que, das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19, fazendo sua bancada crescer de 16 para 29 senadores, ou 36% da Casa. Consideradas em conjunto, direita e centro-direita terão 51 dos 81 assentos, equivalentes a 63% do Senado, ante 46% anteriormente.O Goldman espera que o PL dispute a presidência das duas Casas legislativa, mas ressalta que os partidos de centro, geralmente pragmáticos e internamente heterogêneos, continuarão ocupando papel decisivo no funcionamento do Congresso.Governabilidade seria mais favorável a FlávioEssa nova configuração ajuda a explicar por que o banco considera as condições de governabilidade potencialmente mais favoráveis a Flávio Bolsonaro em caso de vitória.O senador ainda precisaria de partidos de centro para construir uma coalizão de governo, mas partiria de uma base significativa de direita e centro-direita formada por PL, PP, União Brasil, Republicanos e Novo, o que facilitaria a aprovação de legislação ordinária.Para Lula, o cenário seria mais desafiador dado que, se o presidente conseguir reverter o resultado eleitoral, o Goldman avalia que enfrentaria uma oposição conservadora maior no Congresso. O relatório acrescenta que seu capital político seria limitado pelo fato de não poder concorrer à reeleição em 2030.Mas uma vitória de Flávio garantiria automaticamente a aprovação de reformas mais ambiciosas. Mudanças constitucionais exigem maioria de dois terços, o que demandaria capacidade relevante de negociação. Em troca de apoio, partidos de centro provavelmente buscariam ministérios, influência sobre verbas orçamentárias e cargos de alto escalão em agências reguladoras e empresas estatais, de acordo com o Goldman.O próximo governo também encontrará um Congresso altamente autônomo e disposto a manter controle sobre parcela significativa do gasto público, avalia o Goldman, tornando assim a construção e manutenção da coalizão fundamentais.Vitória conservadora foi além de BrasíliaA guinada à direita também apareceu nos Estados sendo que, dos 27 governos estaduais, 20 foram decididos no primeiro turno, e candidatos alinhados a Bolsonaro tiveram desempenho superior às expectativas em diferentes disputas. O PL venceu cinco governos e disputa dois dos sete segundos turnos restantes.Leia tambémO que os bancos estrangeiros esperam da Bolsa e do dólar após o 1º turno?Morgan Stanley, JPMorgan e Goldman Sachs passaram a adotar uma visão mais construtiva para ações, câmbio e fluxo de capitais, embora todos ressaltem que a continuidade do movimento dependerá da trajetória fiscal do paísEstrangeiros trouxeram R$ 10 bilhões para Bolsa apenas no “Flávio Day”Até dia 2 de outubro, o capital estrangeiro já era positivo em R$ 2,55 bilhões e, após a sessão de segunda, ficou em R$ 12,61 bilhõesEm São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito com 62,7% dos votos, contra 36,4% de Fernando Haddad. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo venceu com 55,4%, enquanto no Paraná Sergio Moro obteve 50,1% e liquidou a disputa no primeiro turno.Apesar do avanço conservador, o PT preservou força em Estados do Nordeste, com vitórias citadas pelo relatório na Bahia e no Ceará, entre outras disputas.E depois do rali?O Goldman acredita que a discussão mais importante para os investidores começa agora. Depois da forte valorização dos ativos brasileiros após o primeiro turno, com salto de 7,7% do Ibovespa na segunda e queda de 4% do dólar, o Goldman acredita que a direção do mercado dependerá das pesquisas do segundo turno e das sinalizações de política econômica dos dois candidatos.Uma questão especialmente importante será a indicação para postos-chave de um eventual governo, com o Goldman colocando em primeiro plano quem comandaria o Ministério da Fazenda.A outra variável será o detalhamento da estratégia fiscal dos candidatos para os próximos quatro anos, que o Goldman considera ainda pouco definida. Também estará no radar a possibilidade de Lula deslocar sua campanha e sua plataforma de políticas para o centro neste segundo turno.Leia tambémGestores elevam aposta em Brasil, mas apontam 2º turno como gatilho para reduçãoLevantamento da XP com 24 gestoras de multimercados macro mostra Bolsa como ativo preferido e unanimidade por novo corte da Selic, de olho no resultado final das eleições neste mês Entre o 1º e o 2º turno: como investir na Bolsa sem apostar tudo na eleiçãoApós forte reprecificação dos ativos, especialistas recomendam entrada gradual, rebalanceamento e diversificação enquanto juros e cenário fiscal seguem no centro das atençõesEsses fatores acabam sendo uma transição importante na narrativa do mercado, avalia o Goldman. O primeiro turno permitiu uma rápida reprecificação baseada em probabilidades eleitorais, mas sustentar o movimento passa a exigir respostas mais concretas sobre quem executará a política econômica e qual será o plano para as contas públicas.Eleição acaba, mas teste fiscal ficaO pano de fundo macroeconômico é relevante uma vez que, no cenário econômico apresentado pelo Goldman, o crescimento do PIB brasileiro desacelera de 2% em 2026 para 1,2% em 2027, enquanto a inflação IPCA recua de 5,2% para 4,5%. A Selic terminaria 2026 em 13,75% e 2027 em 12%.Ao mesmo tempo, o cenário fiscal continua desafiador: o Goldman projeta dívida bruta do governo geral em 83,5% do PIB em 2026 e 87% em 2027, com resultado primário negativo nos dois anos.Assim, a composição mais conservadora do Congresso ganha importância para os mercados, por poder melhorar as condições políticas para uma eventual agenda de reformas em um governo Flávio, mas não eliminando a necessidade de negociação nem garante a execução de um ajuste fiscal.Com isso, a conclusão do Goldman Sachs é que o significado duradouro da eleição irá muito além de quem vencer em 25 de outubro. O próximo presidente encontrará crescimento fraco, contas públicas pressionadas e um Legislativo com grande poder de negociação.The post Goldman: Flávio é favorito, mas mercado agora cobrará fiscal e equipe econômica appeared first on InfoMoney.