Alberto Levy: «A IA não é perigosa por substituir os humanos; é perigosa quando deixamos de pensar»

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Alberto Levy, professor na New York University e Global Keynote Speaker, levou a discussão para uma dimensão mais radical com AI: The Point of No Return. Perante uma plateia de líderes no Estoril, estruturou a intervenção em três atos, da ilusão à escolha, e concluiu que a inteligência artificial já não admite regresso, restando decidir como lhe responder, e fazê-lo hoje.Uma ilusão chamada produtividadeLevy abriu com uma parábola que, admitiu, a plateia reconheceria de imediato. Sandra recorre à IA para redigir um relatório. Bill usa a IA para o resumir e para formular perguntas sobre ele. Sandra responde a essas perguntas, também com a IA. Bill pede à IA uma apresentação do relatório, Jane serve-se da IA para tomar notas dessa apresentação, e a equipa de Jane condensa as notas com a mesma ferramenta. O desfecho, sentenciou, é que ninguém escreveu o relatório, ninguém o leu, ninguém o compreendeu e nenhum valor de negócio foi criado.Chamou-lhe automatização sem pensamento. E deslocou o receio do lugar habitual: «A IA não é perigosa por substituir os humanos; é perigosa quando deixamos de pensar.»Assista ao momento aqui:Alberto Levy – AI: The Point of no ReturnReal ou gerado por IA?Para aferir a acuidade da sala, Levy propôs um jogo. Projetou pares de imagens em vídeo e concedeu cinco segundos para indicar, em voz alta, qual delas fora gerada por IA. A sala falhou com frequência, o que lhe valeu a provocação de que a «equipa dos humanos» estava a perder. Os seis dedos por mão pertencem ao passado, advertiu: o engano reside agora nos pormenores. Num último exemplo, a falha era evidente e serviu para nomear o fenómeno da alucinação, que, segundo o orador, ocorre com mais frequência do que se presume.Porque se fala de IA agora e não há três anos? Porque convergiram quatro elementos, já maduros. O primeiro é a explosão de dados, que grassa nos relógios, nos semáforos, nos automóveis, em cada transação e nas câmaras que registam a entrada numa sala como aquela. O segundo é a computação na nuvem, escalável: cada prompt é processado noutro computador, não no de quem o escreve. O terceiro são os processadores gráficos (GPU), tornados mais baratos graças a duas indústrias, os videojogos e a mineração de criptomoedas. O quarto são os modelos de código aberto, que poupam a cada equipa o recomeço do zero.Segundo Levy, 1,5 mil milhões de pessoas usam hoje IA de forma ativa, e o ChatGPT alcançou 100 milhões de utilizadores em dois meses, contra os dez anos que a Netflix demorou a chegar ao mesmo patamar. Trata-se, explicou, de uma tecnologia exponencial: décadas de aparente quietude desde que Alan Turing iniciou a conversa, nos anos 1950, e depois a explosão. O orador resumiu o momento numa fórmula, a da industrialização da inteligência.Desfez também a aura de prodígio. A IA não é magia, é infraestrutura, e perpassa-a uma «fábrica invisível» por detrás de cada aplicação e de cada prompt: requer energia em quantidade maciça, dados em abundância, capacidade de cálculo e muito capital.Usar não é criar valorNo segundo ato, Levy apontou três aspetos que, a seu ver, continuam a escapar ao olhar, embora estejam diante dele. O primeiro é não confundir utilização com valor. Usam-se ChatGPT, Claude, Copilot, Gemini, DeepL e tantas outras ferramentas, mas a maioria das organizações limita-se a fazer prompts, sem criação sistemática de valor.Ilustrou-o com uma analogia. O GPS ajudou os condutores a conduzir melhor, e é esse o papel de muitas aplicações de IA hoje. O ganho maior surge quando o fluxo de trabalho é redesenhado: o carro autónomo não melhora o condutor, questiona a necessidade de existir um. Ser mais rápido, insistiu, não basta. É preciso redesenhar o que se faz.O segundo aspeto é o viés, mecanismo de adaptação próprio da cognição humana, que pode contaminar os dados sobre os quais a IA assenta e, por essa via, amplificar-se. Levy explicou a aprendizagem supervisionada com um exemplo simples: mostra-se à máquina a imagem de um camelo, de uma vaca e de um elefante, cada uma com a sua etiqueta. Quando surge um elefante parcialmente oculto por uma árvore, o sistema hesita, o supervisor corrige, e a máquina aprende. Com mais dados, o resultado melhora. O problema instala-se se quem etiqueta não souber bem o que é uma vaca ou um elefante.A IA é treinada por humanos, com a sua ideia particular da realidade. E essa ideia, lembrou, não coincide com o mundo tal como ele é: decorre da cultura e da educação de cada um. Para o demonstrar, conduziu um segundo jogo, «hot dogs ou hot legs», com imagens ambíguas de salsichas e de pernas cobertas de ketchup e mostarda. A sala dividiu-se, sem consenso em várias imagens, e o sistema de IA incipiente que Levy treinou com o mesmo material errou nas respostas. Se nem os humanos concordam em algo tão simples, o que sucederá quando se alimentar a IA com crenças e preconceitos? E quem verifica, de facto, os dados usados na banca ou na indústria dos carros autónomos? A resposta do orador foi que, na prática, não o sabemos.Agentes: a IA que executaO terceiro aspeto é a IA agêntica, que, avisou, não é promessa de futuro. Cria-se o ambiente, dão-se as instruções, e os sistemas agem por si, sem humanos no circuito. O exemplo foi o de uma refeição. Em 2025, bastava fotografar o prato e pedir ao ChatGPT a receita. Hoje, um agente identifica a receita, deteta a localização através do endereço IP, percorre os sites de supermercados com entrega ao domicílio, compara preços e avaliações quando dois produtos cumprem a mesma função, compõe o carrinho e conclui a compra.Não escapou à referência ao debate recente sobre o risco de a IA «nos matar a todos». O conselho de Levy foi dado com humor: «Não se assustem. Preocupem-se apenas.»Os luditas e a escolhaDe seguida recuou a Nottingham, em 1811, terra de Robin Hood e cidade célebre pelos seus tecelões, artesãos de elevada perícia cujos tecidos eram apreciados em toda a Europa. «A Revolução Industrial já vinha a caminho e trouxe máquinas mais baratas, mais rápidas e mais precisas, capazes de produzir em escala industrial», disse. Os tecelões sentiram-se excluídos dos benefícios e passaram a destruir as máquinas de noite. O movimento, associado a Ned Ludd, ficou conhecido como ludismo.Levy reconheceu-lhes a razão: as máquinas destruíram, de facto, muitos empregos artesanais. O erro esteve na escolha. Os luditas cometeram três segundo o orador: «tentaram destruir as novas ferramentas em vez de as aprender; travaram uma batalha perdida contra o progresso em vez de ajudar a moldar as regras da transição; e agarraram-se ao mundo que conheciam em vez de imaginar novos papéis.» Tornaram-se símbolo de resistência ao progresso e saíram derrotados.Quatro verbos para líderesA mensagem final, dirigida a uma audiência de líderes, reduziu-se a quatro verbos. «Aprender: experimentar as ferramentas, num ambiente seguro, de preferência no computador pessoal e não no da empresa, sem receio de desencadear uma catástrofe», alertou. Moldar as regras: «não esperar pela regulação nem pelo que Sam Altman e Elon Musk decidirem», e agir com responsabilidade e ética. Imaginar novos papéis: a equipa conta agora com um novo elemento, a tecnologia, e importa pensar como trabalhar em conjunto. Liderar a revolução: não aguardar que as coisas aconteçam.Levy confessou que ainda não se sabe tudo, mas que, em conjunto, é possível fixar uma nova forma de trabalhar. O ponto de não retorno, rematou, já foi ultrapassado: não se consegue viver sem inteligência artificial. Resta a decisão, para a qual invocou a palavra coragem, e que «tem de ser tomada hoje».Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo Alberto Levy: «A IA não é perigosa por substituir os humanos; é perigosa quando deixamos de pensar» aparece primeiro em Revista Líder.