Estava conversando com o CEO de uma grande empresa e com o Head de Engenharia sobre a adoção de IA no desenvolvimento de software. Foi quando eles me contaram uma história.Um dos tech leaders mais antigos da empresa, com mais de duas décadas por lá, resolveu fazer um teste: colocou sua squad para desenvolver uma feature e, paralelamente, usou uma IA para fazer a mesma coisa.O veredito?O humano fez muito melhor.Um misto de emoções passou por mim. Uma parte concordava imediatamente. Mas, no instante seguinte, pensei: será que não era minha alma de Dev Raiz falando mais alto?Afinal, qual seria a reação de Leonardo da Vinci ao ver o ChatGPT gerando belas imagens com um prompt? Ou de Michelangelo vendo esculturas produzidas por uma impressora 3D?Será que não existe um pouco disso dentro de nós?Um pouco de arte. De coração no que fazemos. Talvez seja quase inadmissível imaginar que algo sem coração possa fazer melhor do que nós.Codar também sempre foi criar. Era colocar nossa lógica, nossa arte e até nosso legado dentro dessas máquinas frias.Talvez seja por isso que incomode tanto ver algo criado por você sendo feito por uma máquina.Não é apenas sobre o código funcionar. É sobre reconhecer ali uma parte sua: suas decisões, seu cuidado, sua lógica e o caminho percorrido até aquela solução.Nesta mesma semana, conversei com um especialista de uma grande big tech. No meio da conversa, ele perguntou:“Você trabalhou na seguradora X, não?”Respondi que sim, mas que isso devia fazer uns 20 anos.“Como você sabe? Viu meu LinkedIn?”“Não. Tive que mexer em uns códigos e estava seu nome nos comentários.”Na hora, achei que vinha uma crítica.Mas ele completou:“Cara, até hoje seu código roda naquela empresa.”Meu sentimento mudou imediatamente.Da raiva para o orgulho.Aquele código deixou de ser apenas um conjunto de instruções. Voltou a ser uma obra minha: algo que eu havia imaginado, construído e deixado funcionando no mundo.Era como descobrir que uma pintura sua continuava pendurada em algum lugar.Afinal, de algum jeito, minha arte ainda estava lá.Talvez seja esse o sentimento por trás da nossa resistência. Não queremos apenas que o código funcione. Queremos reconhecer nele nossa inteligência, nosso cuidado e nossas escolhas.E talvez seja por isso que um Dev Raiz se incomode quando uma máquina cria algo que ele poderia ter criado.Não porque a máquina necessariamente faça pior.Mas porque, pela primeira vez, ela ameaça ocupar um espaço que sempre pareceu exclusivamente nosso.Voltando à conversa com o CEO, fiquei com uma pergunta:Será que a squad realmente foi melhor que a IA?Ou será que, em algum nível, era o nosso lado raiz gritando mais alto?Minha provocação não é julgar aquele caso. Talvez a squad realmente tenha feito melhor.O ponto é outro.A engenharia de software mudou nos últimos quatro anos como talvez não tenha mudado nos últimos 30.E sim, por causa da IA.Da especificação ao teste. Da arquitetura ao código. Da documentação à manutenção. Praticamente nenhuma etapa passou ilesa.Talvez o problema não seja ser Dev Raiz.Talvez seja continuar desenvolvendo software como se a IA não tivesse acontecido.Participei de grandes migrações de sistemas em que milhões de linhas de código precisavam ser lidas para entendermos o que o sistema realmente fazia. Documentação praticamente não existia. A única “verdade” era o código.Tínhamos batalhões de analistas abrindo programas, lendo regra por regra e traduzindo tudo para português estruturado, para só então alguém codificar novamente em uma arquitetura nova.Foram horas.Dias.Meses.Agora pense nesse mesmo trabalho com IA.Faria sentido montar novamente aquele batalhão?Não porque aquelas pessoas não fossem boas. Eram excelentes profissionais fazendo o melhor possível com as ferramentas disponíveis naquele momento.Mas a ferramenta mudou.Hoje, uma IA pode ajudar a ler código legado, explicar regras de negócio, mapear dependências, gerar documentação e acelerar etapas que antes consumiam meses.Vai fazer tudo perfeitamente?Claro que não.Mas talvez este seja um dos nossos erros: comparar a máquina com o melhor desenvolvedor da equipe e perguntar quem ganhou.A pergunta mais simples talvez seja: quanto do trabalho que fazíamos ontem ainda faz sentido ser feito da mesma forma hoje?Para onde tudo isso vai dar?Em quanto tempo vamos ser substituídos?Não faço a mínima ideia. E desconfio de quem diz que sabe.Mas tenho uma convicção: o profissional que não se adaptar vai ter cada vez menos espaço.Vai ficar desempregado?Provavelmente sim.E os que se adaptarem também vão?Eu acho que não.Ainda.E quando acaba esse “ainda”?Não faço a mínima ideia.Mas o jogo vem mudando muito rápido.Conhecimento profundo continua valendo. Arquitetura continua valendo. Experiência, repertório, criatividade e senso crítico talvez valham até mais agora.Só que apareceu uma nova camada.A IA.Ignorar isso em nome de purismo técnico me parece uma batalha perdida.Talvez o Dev Raiz não desapareça.Mas o jeito raiz de desenvolver software, sim.E talvez, daqui a alguns anos, alguém olhe para a forma como desenvolvemos software hoje com a mesma estranheza que minha filha olhou para mim quando perguntou:“Pai, como vocês faziam para chegar nos lugares antes do Google Maps?”Eu expliquei.Ela riu e disse:“Como os incas faziam.”Será que, para a próxima geração, nós, Devs Raiz, seremos os incas da engenharia de software?Talvez.E tudo bem.O post Procura-se Dev Raiz. Paga-se pouco. apareceu primeiro em Olhar Digital.