Conforme noticiado pelo Olhar Digital, o belga naturalizado estadunidense Francis Halzen recebeu o Prêmio Nobel de Física de 2026 por seu papel na criação do IceCube, observatório instalado nas profundezas do gelo do Polo Sul, na Antártida, capaz de detectar neutrinos de alta energia e revelar novas pistas sobre os ambientes mais extremos do Universo. Halzen apresentou a ideia de transformar o gelo da Antártida em um enorme detector de partículas em 1988. Após anos de construção, o IceCube foi concluído em 2010, quando milhares de sensores passaram a ocupar cerca de um quilômetro cúbico de gelo.O trabalho de Francis Halzen ajudou a inaugurar uma nova forma de observar o Universo: a astronomia de neutrinos. – Crédito: Divulgação/Nobel PrizeComo funciona a detecção de neutrinos no IceCube Os neutrinos são partículas subatômicas sem carga elétrica e com massa extremamente pequena. Eles são produzidos em diferentes processos físicos e atravessam a matéria com enorme facilidade. Estima-se que cerca de 100 trilhões deles passem pelo corpo humano a cada segundo. Na maioria das vezes, no entanto, nenhum interage com os átomos do organismo.Em participação no programa Olhar Digital News, Roberto Pena Spinelli, físico pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Machine Learning e colunista do Olhar Digital, explicou que o neutrino é extremamente difícil de ser detectado, “pois ele atravessa a Terra – como os neutrinos vindos do Sol ou de diversos outros pontos do Universo – sem interagir com nada e vai embora”. Quando um neutrino finalmente colide com um átomo no gelo, pode produzir partículas eletricamente carregadas. Elas geram um pequeno pulso de luz azul, chamado radiação Cherenkov. O IceCube conta com 5.160 módulos ópticos distribuídos em 86 cabos verticais, entre cerca de 1,45 e 2,45 quilômetros de profundidade.Cinco mil sensores distribuídos por um quilômetro cúbico perto do polo Sul são encarregados de investigar os neutrinos, também chamados de partículas fantasmas. – Crédito: IceCube/NSFAo registrar o instante e a intensidade desses sinais, os pesquisadores conseguem reconstruir a trajetória e estimar a energia do neutrino que provocou o evento. Isso transforma o IceCube em uma espécie de telescópio diferente dos convencionais: em vez de observar luz, ele procura partículas capazes de atravessar enormes distâncias carregando informações sobre seus locais de origem.Essa característica é especialmente importante para estudar os chamados aceleradores cósmicos, regiões capazes de produzir partículas com energias muito superiores às obtidas em aceleradores terrestres. Como os neutrinos não possuem carga elétrica, campos magnéticos não alteram sua trajetória. Assim, a direção de chegada pode ajudar a apontar para a região do Universo onde essas partículas foram produzidas.Nobel de Física consagra nova era da astronomiaCompreender e capturar esses sinais representa um avanço profundo no modo como a humanidade estuda o espaço. “Assim como aprendemos a ler o espectro de luz além da luz visível, permitindo-nos ver ondas de rádio e, consequentemente, enxergar diversos fenômenos do Universo que emitem essas ondas , quando conseguimos detectar neutrinos, abre-se uma nova janela para o Universo”, disse Pena. “Trata-se de uma nova lente, uma nova possibilidade de enxergar fenômenos que acontecem o tempo todo: explosões de supernovas, colisões de estrelas, nebulosas irradiando calor extremo e diversos outros processos cósmicos que emitem neutrinos”.Roberto ‘Pena’ Spinelli, físico graduado pela Universidade de São Paulo (USP), analisa o reconhecimento de Francis Halzen com o Prêmio Nobel de Física 2026. – Crédito: Reprodução/Redes SociaisOs resultados do IceCube deram origem à astronomia de neutrinos, uma área que complementa observações feitas com telescópios de luz, ondas gravitacionais e outras formas de radiação. O observatório continua operando e também recebe melhorias para aumentar sua capacidade de detecção. O objetivo é identificar mais fontes desses neutrinos e entender melhor os fenômenos extremos que os produzem.A decisão de premiar apenas Halzen destaca o papel fundamental da liderança científica em grandes colaborações internacionais. Para Pena, a honraria faz justiça a quem ousou conceber essa iniciativa. “De fato, é um empreendimento gigantesco: são cerca de cinco mil sensores instalados a dois quilômetros de profundidade no gelo. No entanto, o Francis Halzen foi o grande idealizador, a pessoa que concebeu a possibilidade de criar esse laboratório e liderou todo o projeto”.Este ano, o Prêmio Nobel de Física celebra a visão de um cientista que ensinou a humanidade a usar o gelo antártico para investigar os fenômenos mais distantes e violentos do espaço.O post Nobel de Física celebra cientista que abriu uma nova janela para o Universo no gelo antártico apareceu primeiro em Olhar Digital.