Antes de se tornar o falso santo de Asa Branca, o protagonista de Roque Santeiro (1985) era um militar cuja suposta morte sustentava uma cidade inteira. Essa é a origem de O Berço do Herói (1963), peça escrita por Dias Gomes (1922-1999) e censurada em 1965, na época da Ditadura Militar (1964-1985). O autor adaptou a história para a televisão, trocou o soldado por um artesão e tentou contornar a censura. A ligação entre as obras, porém, esteve no centro do veto à primeira versão da novela, em 1975.Reprise da Edição Especial da Globo, Roque Santeiro preserva o conflito principal do texto teatral de Gomes. Um homem considerado morto volta para casa e ameaça os interesses de quem transformou sua memória em negócio. A peça teatral criticava o militarismo. Na novela, a história ganhou a exploração da fé como elemento central.O Berço do Herói acompanha um combatente brasileiro dado como morto na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sua cidade natal passa a explorar a imagem do herói, com homenagens, comércio e turismo. Quando ele reaparece, revela que havia fugido do combate e permanecido na Itália.As pessoas que se beneficiariam de sua “morte”, no entanto, não recebem bem a notícia do retorno. O protagonista acaba assassinado, vítima do falso moralismo, para que sua história heroica fique intacta. O corpo é apresentado à população como se tivesse sido recuperado na Itália.Já na adaptação televisiva, Dias Gomes retirou a ligação do personagem com os militares. Roque passou a ser um fabricante de santos de barro que teria morrido defendendo Asa Branca do bandido Navalhada. Os moradores lhe atribuem milagres, e a cidade recebe romeiros. Seu retorno ameaça comerciantes e lideranças que dependem da crença no falso mártir.Crítica ao militarismoO autor explicou sua estratégia em um artigo publicado na Folha de S.Paulo em 1996. Além de mudar o título e os nomes dos personagens, acrescentou histórias paralelas para disfarçar a adaptação. “O protagonista deixava de ser um ex-pracinha para ser um santeiro”, escreveu. A mudança afastava a referência direta às Forças Armadas, mas mantinha a disputa entre a verdade e os interesses construídos sobre uma mentira.Segundo o relato de Dias Gomes, uma conversa telefônica com o historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999) foi interceptada pelo Serviço Nacional de Informações –órgão de espionagem e repressão da Ditadura no Brasil. Nela, o dramaturgo comentou que Roque Santeiro era uma adaptação disfarçada da peça proibida. O grampo foi responsável pela censura à novela de 1975.A Globo já havia gravado 30 capítulos quando a produção foi barrada. Francisco Cuoco interpretava Roque, Betty Faria era Porcina, e Lima Duarte vivia Sinhozinho Malta. Para preencher o horário, a emissora recorreu a uma reprise compacta de Selva de Pedra (1972) e depois lançou Pecado Capital (1975), de Janete Clair (1925-1983).Roque Santeiro finalmente estreou em junho de 1985, com José Wilker (1944-2014) e Regina Duarte nos papéis centrais e Lima Duarte mantido como Sinhozinho. A trama principal permaneceu praticamente igual à de 1975. A produção foi refeita, mas o conflito que havia incomodado a Censura dez anos antes continuou na história.O fim do regime militar, contudo, não encerrou imediatamente as intervenções. A versão de 1985 ainda sofreu cortes em cenas de adultério, referências à homossexualidade e expressões consideradas inadequadas. A novela chegou ao público dez anos depois do veto, mas continuou enfrentando a censura interna da emissora durante sua exibição.O post Autor de Roque Santeiro trocou militar por santo para tentar driblar censura de 1965 apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.