Do coração ao metabolismo: como a cardiologia está mudando

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Há trinta anos, a cardiologia se concentrava principalmente em controlar a pressão arterial, o colesterol e as arritmias. Além disso, me lembro que o diabetes entrou mais tarde nessa discussão, quando, em 2017, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou seu primeiro parecer específico sobre o tema relacionado à doença cardiovascular em conjunto com as Sociedades de Diabetes e Endocrinologia. Com a obesidade, o movimento foi ainda mais recente: o primeiro posicionamento conjunto entre cardiologia, endocrinologia e a associação brasileira de obesidade foi divulgado apenas em 2025.Não por acaso, hoje se fala cada vez mais em síndrome cárdio-renal-metabólica, e, aos poucos, ficou evidente que coração, rins, fígado e metabolismo estão conectados. Alterações em um deles podem afetar os outros, por isso, tratar apenas um problema, sem olhar para o conjunto, muitas vezes significa controlar a consequência sem enfrentar a origem.Um estudo apresentado neste ano no Congresso Europeu de Cardiologia trouxe um dado que mudou a forma como encaro meu consultório: em uma população com idade média de 45 anos, mais da metade já apresentava sinais de aterosclerose subclínica, ou seja, alterações nas artérias que ainda não provocavam sintomas. A formação das placas de gordura nas artérias pode começar muito antes do primeiro aperto no peito, e frequentemente ela aparece acompanhada de outros sinais de alerta, como excesso de peso, gordura no fígado e alterações na função dos rins.Enxergar o risco antes dos sintomasEssa compreensão também mudou minha rotina clínica. Hoje, em alguns pacientes sem sintomas, procuro ativamente sinais de aterosclerose. Dependendo do perfil e dos fatores de risco, posso solicitar exames como o escore de cálcio coronariano e o Doppler de carótidas, que ajudam a identificar alterações nas artérias antes que elas provoquem manifestações significativas. A evidência de que a doença aterosclerótica já “nasceu” em determinado paciente motiva não apenas o médico a intensificar medidas farmacológicas de prevenção, mas o paciente a aderir a tais medidas. Seguramente ver a placa torna o risco potencial da calculadora em um risco palpável.Na cardiologia também passamos a olhar para marcadores que ajudam a entender melhor o risco cardiovascular de cada paciente além do colesterol LDL, da pressão arterial e da glicemia. A Lp(a), por exemplo, é uma partícula do colesterol cuja concentração é fortemente determinada pela genética e que pode aumentar o risco cardiovascular. Já a proteína C-reativa ultrassensível pode ajudar a identificar níveis de inflamação associados ao risco cardiovascular, e a troponina ultrassensível, quando utilizada no contexto adequado, pode detectar pequenas lesões ou sinais de estresse no músculo cardíaco que não necessariamente significam um infarto. O uso desses (não tão) novos marcadores ajudam a avaliar com mais precisão e localizar melhor o risco do paciente: sangue, vasos, músculo cardíaco…Do diagnóstico ao tratamento integradoOutra mudança relevante é que o cardiologista passou a participar mais ativamente do tratamento do excesso de peso. Em pacientes com quadros específicos, posso indicar, por exemplo, medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, não apenas com o objetivo de reduzir o peso, mas também considerando seus efeitos sobre o risco cardiovascular. No estudo SELECT, a semaglutida reduziu em cerca de 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores em pessoas com obesidade ou sobrepeso, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes.Isso não significa que o cardiologista substitua o endocrinologista, o nefrologista, o hepatologista ou o nutrólogo. Mas reforça a necessidade de uma abordagem integrada. Afinal, mais de 60% dos brasileiros estão com excesso de peso, segundo dados nacionais, e um problema dessa dimensão não pode ser enfrentado por uma única especialidade.O que estamos vivendo é, acima de tudo, uma mudança de mentalidade. A cardiologia deixou de esperar que o problema se anuncie para agir e passou a trabalhar com a possibilidade de antecipar riscos, individualizar escolhas e intervir cada vez mais cedo. Afinal, parte do trabalho do cardiologista é predição. Entretanto, mais complicada do que a missão dos antigos oráculos na Grécia, além de prever o risco, tentamos modificá-lo com expectativa de maior sobrevida e menos eventos cardíacos.A combinação entre novos medicamentos, exames mais precisos e uma compreensão maior da relação entre genética, metabolismo e doença cardiovascular abre espaço para decisões que, há poucos anos, sequer faziam parte da prática clínica. O desafio agora é transformar esse avanço científico em cuidado acessível, contínuo e capaz de chegar antes que a doença cobre seu preço.Dr. Eduardo Lima – CRM 118.406 | RQE 48050Médico cardiologista da Rede Américas e do Hospital Nove de Julho (SP)Livre-docente da Faculdade de Medicina da USP