A Arte nasce da necessidade mais primária do Homem de expor a sua vivência para que o Outro seja capaz de admirar e comprovar a sua existência. Foi assim que começou a Arte Rupestre e assim continuará em 2056. Além disto, o Homem é um ser evolutivo e curioso. Não chega o que descobriu ontem porque amanhã já existirá um outro patamar de evolução a ser alcançado. A evolução e transformação tecnológica é contínua. A palavra tecnologia, originária na Grécia antiga, referia-se ao estudo de um ofício manual ou de uma Arte. Assim, a conexão inata e íntima entre Arte e Tecnologia sempre existiu. Hoje, neste século, são conceitos de gémeos separados à nascença. Os Dados como matéria-prima artística Refik Anadol, artista turco, considera-se um data sculptor: as suas pinceladas são algoritmos e machine learning que se tornam colaboradores da consciência humana em coletivo. É um pioneiro: como os irmãos Lumière no Cinema ou Monet com o Impressionismo. Em 2023, apresentou no MoMa, em Nova Iorque, uma peça denominada Unsupervised que resulta de uma «alucinação» de algoritmos que analisam, sob diferentes orientações, as milhares de peças da coleção do Museu. Curioso que a Máquina necessita de conhecer o passado para apresentar um conceito abstrato do que é o coletivo humano. «Opening the narrative can only happen if the artist is in charge of data; otherwise it’s just another tool that doesn’t have this special perspective of an artist», refere o artista. E realmente, os Dados sempre foram, e serão, objeto de pensamento e de base de criação. A reflexão do artista é ativa, mas consciente e comprometida com a intenção de suscitar alguma reação de quem é interpelado pela sua obra. Pesquisas, registos, leituras, notas, entrevistas: tudo são equivalentes a pixéis nas pinturas produzidas por máquinas. De salientar que os Dados não significam só tecnologia emergente. Os Dados referem-se a um, ou vários coletivos e, num momento em que a sociedade atual se encontra presa ao individualismo, é curioso como esta forma de descrição de uma sociedade revela que fazemos parte de um Todo. O artista é que tem o poder de atribuir o que é mais precioso para validação da sua existência: significado. Essa é a visão da corrente cientifico-artística Dataism. Os dados são matéria-prima artística, pois são eles que caracterizam pessoas e comportamentos; são base de criação artística tal como o domínio da técnica do óleo ou do barro. Durante a Pandemia, o mercado de Arte apresentou forças bipolares: NFT’S tiveram uma procura e uma valorização sem precedentes e os leilões de Arte tradicionais atingiram valores de licitações inimagináveis. Esta realidade foi antecipada pois em 2018, quando a primeira peça produzida por IA foi leiloada na Christie’s por 430 mil dólares. Estes acontecimentos revelam o nascimento de públicos amplamente opostos que se reveem mutuamente na motivação do status, consequência do autor que estão a adquirir. O posicionamento da valorização da autoria é determinada por um sistema de múltiplos agentes culturais que têm uma influência volátil consoante as tendências e momentos do mercado de Arte. Este é o grande dilema que se prende com a criação de peças produzidas com mecanismos artificiais, mesmo que ensinados por humanos. Enquanto se valorizar Arte através do olhar da perspetiva do «Génio Criador», o sistema à volta do reconhecimento e valorização da arte será sempre à volta de uma figura humanizada concreta. E aqui ainda se acrescenta a escassez para a valorização. A democratização das ferramentas digitais implica maior oferta de peças desta natureza. Contudo, o domínio da tecnologia para criar uma data sculpture ou um pixel painting» exige estudo e intersecção de vários conhecimentos multidisciplinares. Museus e instituições culturais vão repensar as suas coleções e os seus espaços para integrar objetos e peças da coleção que só existem no universo digital. Mas terão de existir mais agentes que admitam a utilização de Inteligência Artificial, prompts e algoritmos no seu desenvolvimento artístico. Hoje, a Arte caminha por dois caminhos paralelos: o feito à mão e palpável e o feito por pixéis e invisível. O primeiro caminho tem sido limpo e renovado pela proteção às técnicas manuais e artesãos, através das marcas de excelência e luxo conquistando mais visibilidade. Tudo isto porque o segundo caminho começou a impregnar-se na sociedade em velocidade máxima e confundindo conceitos de criação e desenvolvimento com facilitismo e oportunidade ilimitada. Os dois caminhos podem e devem coexistir porque não são mais que provas da evolução do Ser Humano que, como tudo, podem ser destruidoras ou evolutivas. Tudo se centra no objetivo do pensamento em entregar significado ao que se produz. A Arte hoje, e em 2056, tem/ terá capacidade de gerar conexões e relações, ignorando estereótipo, culturas e religiões, e que através do conhecimento e do pensamento divergente entrega alternativas nas »formas de fazer, e não em algo que se faz» (Acaso, 2018). Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo Em 2056, ainda haverá lugar para o artista? aparece primeiro em Revista Líder.