Acredito que essa é a resposta menos interessante. Em 2056, o escritório não será uma versão mais sofisticada do que temos hoje. Terá deixado de ser o lugar onde se vai trabalhar para passar a ser uma infraestrutura de pessoas, relações, criatividade e cultura. Os sinais dessa mudança já estão à vista, e confirmamo-los nos projetos que nos chegam. Os grandes inquéritos internacionais a ocupantes de escritórios mostram que a secretária atribuída deixou de ser a norma na maioria das organizações europeias, e que funcionam, em média, a menos de metade da capacidade para que foram desenhados.Do lado de quem os usa, os estudos de experiência de trabalho apontam no mesmo sentido: a maior parte dos trabalhadores corrige por iniciativa própria condições de acústica, privacidade ou ergonomia que o espaço não lhe dá. São sinais que dizem menos sobre o trabalho híbrido e mais sobre um desenho que deixou de corresponder à forma como as pessoas trabalham. Leia também: Quer trazer os trabalhadores de volta ao escritório? Estas são as tendências que estão a transformar os espaços Da secretária à experiência Durante um século, o espaço de trabalho organizou-se a partir de uma sequência simples: pessoa, secretária, computador. Multiplicava-se essa célula pelo número de colaboradores e obtinha-se uma planta. A secretária era a unidade básica; o resto era circulação. A sequência que vejo a substituí-la é outra: pessoa, experiência, espaço adequado à tarefa. O dia deixa de acontecer num sítio e passa a acontecer em vários. Uma manhã de concentração numa silent room. Uma leitura longa numa biblioteca. Uma sessão de trabalho numa sala de projeto. Uma conversa difícil num jardim. Um fim de tarde num espaço social. Tudo isto dentro do mesmo edifício, escolhido pela pessoa em função do que tem para fazer e não do lugar que lhe foi atribuído em planta. Esta lógica já está a alterar os programas com que trabalhamos: o open space convencional encolhe, e no lugar que liberta surgem áreas colaborativas e pequenos espaços de concentração. Hospitality, workplace e cultura A estética corporate, essa, provavelmente desaparece. O escritório de 2056 parecer-se-á menos com um escritório e mais com o lobby de um bom hotel: lounges e áreas de café, bibliotecas, jardins interiores e terraços, espaços de silêncio, ateliers, zonas de aprendizagem, wellness. Não como amenidades acrescentadas no fim do projeto, mas como a própria estrutura do programa. Hospitality, workplace e cultura deixam de ser categorias separadas. Isto muda o que se pede a um projeto. Deixa de bastar otimizar metros quadrados por posto: é preciso desenhar uma sequência de experiências ao longo do dia, com a variedade de ambientes, de luz e de escala que ela exige. Na Openbook, é já assim que abordamos os projetos de workplace: menos como a distribuição eficiente de lugares e mais como a construção de um percurso que faça sentido para quem o vive todos os dias. Porque é que as pessoas se deslocam Se o trabalho já não depende de um lugar, a pergunta que interessa é esta: que razões levarão alguém a sair de casa em 2056? A resposta não será a secretária, nem o computador, nem a ligação à rede. Será tudo aquilo que não se consegue replicar à distância. Pertencer a alguma coisa. Aprender por proximidade, observando quem sabe mais. Ter a conversa que não estava agendada e que resolve o problema. Trabalhar num ambiente melhor do que o de casa e poder mudar de lugar quando a tarefa muda. Estas são condições de projeto, não benefícios de recursos humanos. A inteligência artificial e a automação vão acelerar este movimento em vez de o contrariar. À medida que a máquina absorve a parte repetitiva do trabalho, o que sobra para o espaço físico é o que mais depende de presença: criatividade, decisão partilhada, confiança, transmissão de cultura. Quanto mais eficiente for o digital, mais exigente se torna o argumento a favor do lugar.Há aqui uma consequência que a arquitetura não pode ignorar. Um edifício desenhado hoje terá de acomodar formas de trabalhar que ainda não conhecemos, o que obriga a estruturas generosas, pés-direitos que permitam mudar de uso e plantas que aceitem ser reorganizadas sem demolição. A sustentabilidade, em 2056, medir-se-á pela capacidade de um edifício se transformar sem ser deitado abaixo. O que fica Não caminhamos para o fim do escritório, mas para o fim de um certo escritório, aquele que se organizava à volta da secretária e que só fazia sentido quando não havia alternativa. O que o substitui é mais difícil de desenhar e mais interessante de habitar. O futuro do escritório não está em ter mais tecnologia. Está em criar lugares onde valha a pena estar. Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.O conteúdo O escritório do futuro terá menos secretárias. Afinal, onde vamos trabalhar? aparece primeiro em Revista Líder.