O que falta às empresas portuguesas para usarem a inteligência artificial não é tecnologia, é «coragem de gestão» para questionar processos com 20 anos. A tese foi defendida por Pedro Gomes, CEO da TP em Portugal, no debate «O Desafio da IA nas Organizações», na Leadership Summit Portugal, que partilhou com Pedro Lopes Sousa, head of Partnerships & Business Development da Amazon. A conversa, às 10h10, foi moderada por Rita Rugeroni Saldanha, diretora de Conteúdos da Revista Líder.A IA já entrou nas organizações. A questão deixou de ser se deve entrar e passou a ser onde, como e com que limites será utilizada. O que pode ser automatizado? Que tarefas devem continuar dependentes de julgamento humano? E, sobretudo, o que pode a IA representar para além de um exercício tecnológico?Assista à conversa completa aqui:O Desafio da IA nas OrganizaçõesReimaginar a forma de trabalharFoi essa a pergunta colocada por Rita Rugeroni Saldanha. Para Pedro Gomes, a resposta começa pela capacidade de romper com modelos de trabalho já cristalizados.«Penso que se trata da nossa capacidade de nos abstrairmos da forma como sempre trabalhamos, da forma como sempre gerimos as nossas organizações, da forma como sempre orquestramos os nossos processos, abstrairmo-nos de tudo isso e termos a capacidade de reimaginar novas formas de fazer, novas formas de liderar e gerir à luz do que é hoje um conjunto de ferramentas que está à nossa disposição para fazer muito mais e de forma muito melhor.»Pedro Lopes Sousa enquadrou a transformação em três eixos: produtividade, inovação e reconfiguração dos mercados. Na Amazon, explicou, «cerca de 41% das empresas portuguesas já estão a utilizar a inteligência artificial no seu dia a dia», com impactos que vão da redução de esforço e custos à criação de novos produtos e serviços e à transferência de quotas de mercado entre empresas estabelecidas e novos atores.A questão deixa assim de estar confinada à eficiência e passa a tocar a própria arquitetura dos mercados. O exemplo das empresas de software torna a mudança mais concreta: à medida que criar produtos com recurso a código se torna mais rápido, aumenta a pressão sobre a inovação e a qualidade, enquanto outros setores começam a ser reconfigurados pela forma como produtos e serviços são entregues.Recrutamento: mais de 80% escolhem a IANa TP, a IA já foi integrada num território particularmente sensível, o recrutamento. Pedro Gomes revelou que mais de 80% dos candidatos escolhem ser entrevistados por IA quando lhes é dada essa possibilidade.Pedro Gomes «Nós decidimos utilizar a inteligência artificial para nos ajudar no processo de seleção e com impactos muito grandes. Uma coisa que nos surpreendeu foi que, quando colocámos à disposição dos candidatos serem entrevistados num processo tradicional ou com inteligência artificial, mais de 80% dos candidatos escolheram utilizar inteligência artificial.»A explicação encontrada pela empresa está na natureza da interação. «As pessoas sentem-se mais à vontade para serem honestas», explicou Pedro Gomes, referindo-se ao contacto com um agente virtual conversacional que conduz a entrevista com suporte de IA.Da ferramenta ao parceiro de trabalhoPara Pedro Lopes Sousa, a mudança estende-se às várias relações dentro das organizações. A IA pode libertar pessoas de tarefas automáticas e deslocar o trabalho para aquilo que exige relação, empatia e julgamento humano.«Quando nós verificamos até nos outros eixos, nomeadamente entre colega e colega, entre trabalhador e máquina e entre líder e equipa, verificamos mais ou menos as mesmas situações.»Um estudo da BCG citado pelo responsável aponta, segundo explicou, para ganhos de produtividade mais expressivos entre trabalhadores menos experientes, enquanto a relação com a própria máquina começa a ser transformada. «A máquina passa a ser, de uma ferramenta que nós utilizamos, algo com que nós trabalhamos. E, portanto, aí há uma mudança de paradigma naquilo que é a relação com a máquina.»A mudança chega também à liderança. O líder deixa de ser apenas supervisor de tarefas para assumir uma função de contexto, orientação e julgamento.«O líder passa a ser, de supervisor de tarefas, uma pessoa que dá contexto e julgamento humano ao trabalho. E, como a relação humana passa a ser o recurso mais escasso e mais valioso, é também mais central para aquilo que são as organizações», explicou.Coragem de gestãoQuestionado sobre o ingrediente que ainda falta às empresas portuguesas, Pedro Gomes apontou uma dimensão menos tecnológica.«Eu acho que falta sobretudo coragem de gestão para sermos capazes de colocar em causa processos que existem há 20 anos, que até agora serviram bem as organizações, mas não é garantido que vão continuar a fazê-lo no futuro.»Para o CEO da TP em Portugal, a dificuldade está em questionar processos já estabilizados, que sustentam o funcionamento das organizações, a relação com as pessoas e o próprio negócio. «É preciso coragem de gestão para colocar tudo isso em causa e reimaginar algo que pode ser disruptor, mas com capacidade de imaginar a positividade que também há na IA.»Entre a capacidade de imaginar e a necessidade de agir, deixou uma ideia simples: «A execução bate sempre um desenho perfeito, mas que nunca saiu do papel.» O obstáculo pode estar, afinal, na frase tantas vezes repetida dentro das organizações: «Sempre fizemos assim, sempre foi feito assim, porque é que agora temos de mudar?»Competências humanasA preparação das pessoas foi retomada por Pedro Lopes Sousa, que trouxe um dado interno da Amazon. Ao analisar a principal barreira à adoção da IA, apurou que «42% das empresas portuguesas diziam que faltavam competências». Mas essas competências não eram necessariamente tecnológicas.Pedro Lopes Sousa«E, curiosamente, não eram competências necessariamente tecnológicas, mas competências de liderança, de decisão, de julgamento, que são aquelas que são necessárias em qualquer contexto. A inteligência artificial não vem mudar isso.»A tecnologia pode, assim, acelerar processos e ampliar capacidades, mas a decisão sobre como utilizá-la continua a depender de competências profundamente humanas: liderança, discernimento, julgamento e capacidade de agir.Foi nesta deslocação, da máquina como ferramenta para a máquina como parceira de trabalho, que o debate chegou a uma das suas conclusões mais fortes: quanto mais tarefas puderem ser entregues à tecnologia, maior será o peso daquilo que continua a depender das pessoas.Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo Pedro Gomes e Pedro Lopes Sousa debatem a coragem necessária para transformar a IA em valor aparece primeiro em Revista Líder.