A embalagem flexível é vilã ou aliada da sustentabilidade?

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A leveza que torna o material eficiente na fábrica é a mesma que o faz perder valor na cooperativa. O problema não está na embalagem, e sim na cadeia que ainda não foi desenhada para ela. Pela conta que fazemos na Yattó a partir das nossas operações com cooperativas, uma tonelada de embalagem flexível equivale, em média, a 200 mil pouches. Para chegar ao mesmo peso com garrafas de vidro, bastam alguns milhares de unidades. E cada um desses 200 mil pacotinhos passou pela mão de um catador. É nessa conta, e não na química do material, que está a resposta para a pergunta do título.Não dá para negar os ganhos da embalagem flexível: menos matéria-prima, menos espaço no caminhão, mais tempo de prateleira. Em 2025, a indústria brasileira produziu 2,321 milhões de toneladas desse tipo de embalagem e o faturamento cresceu 6,2% sobre 2024, segundo a Abief (Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis). O material nasceu nos alimentos e hoje já está no agro, no óleo lubrificante e na construção civil, com tinta vendida em pouch. Ele não vai sair do mercado.A questão é que a leveza, virtude na fábrica, vira problema na esteira.As embalagens multicamadas ou metalizadas acabam se transformando em rejeito nas cooperativas de reciclagem. Foto: Yattó Leia também: 1.Embalagem flexível é principal rejeito em cooperativas de reciclagem 2.40% dos resíduos que vão para cooperativas têm identificação errada O rejeito é uma decisão econômicaNa esteira de uma cooperativa, cada material tem um preço. A latinha paga bem e o plástico rígido também. A flexível vale centavos e exige um volume enorme para formar um fardo. Se o reciclador está longe, o frete come a margem. Se está perto, o valor pago muitas vezes ainda não compensa o trabalho. O cooperado faz o que qualquer empresa faria: separa o que remunera.Por isso, o levantamento que a Yattó fez em 42 organizações de catadores identificou a embalagem plástica flexível como rejeito em 66% das visitas, como mostrei nesta coluna em agosto. Isso não significa que o material seja irrecuperável. Ele chega às cooperativas, pode ser triado, enfardado e enviado para transformação. Desde 2022, a Yattó já encaminhou para reciclagem 2 mil toneladas de embalagens flexíveis, com mais de 100 cooperativas, 1.700 catadores e 47 territórios em cinco estados. Tecnicamente, funciona. O que falta é alguém disposto a pagar a conta.Foto: YattóReciclável não é recicladoO erro mais comum que vejo é tratar a sustentabilidade de uma embalagem como atributo só de projeto. O design for recycling importa, e é uma jornada que nunca termina. Mas uma embalagem só é sustentável quando existe, do outro lado, quem colete, trie, recicle e compre o material transformado. Sem isso, a marca acaba comprando a própria embalagem reciclada para justificar a operação. De nada adianta ser 100% reciclável e terminar como rejeito. A diferença entre reciclável e reciclado parece de uma letra, mas separa dois mundos.A regulação acelera essa discussão, mas ainda deixa uma brecha para as flexíveis. O Decreto Federal 12.688/2025 criou duas metas para quem coloca embalagem plástica no mercado: incorporar conteúdo reciclado pós-consumo, de 22% em 2026 a 40% em 2040, e comprovar a recuperação de uma parcela das embalagens, de 32% em 2026 a 50% em 2040.Nas flexíveis, a primeira meta esbarra numa limitação técnica, porque ainda é muito difícil aplicar conteúdo reciclado nessas estruturas. Por isso, elas entram no decreto sobretudo pela meta de recuperação, comprovada por meio de certificados de crédito de reciclagem. E aqui está a brecha: a compensação é feita pela massa de plástico em geral, e não pelo tipo de embalagem.Na prática, uma empresa pode colocar flexíveis no mercado e cumprir a meta com créditos gerados pela reciclagem de embalagens rígidas, mais fáceis e baratas de recuperar. A flexível em si continua sem caminho de volta.Fardo de embalagens flexíveis. Foto: Yattó Leia também: 1.Recife vai criar modelo de coleta e reciclagem de embalagens 2.O desafio (e o risco) de comprovar o plástico reciclado na embalagem A oferta de reciclado também não acompanha. Em 2024, o Brasil gerou 4,82 milhões de toneladas de resíduos plásticos pós-consumo e produziu 1,012 milhão de toneladas de resina reciclada pós-consumo, segundo o estudo anual do Movimento Plástico Transforma. Nas flexíveis, o uso de material reciclado ficou estável em 5% da produção, cerca de 106 mil toneladas, de acordo com a Abief. Mesmo esse número pede cautela.O setor é dominado pelo PEBD e pelo PEBDL, que respondem por 73% da produção, segundo a mesma entidade, e é provável que a maior parte desse reciclado esteja aí. É o plástico da sacolinha de supermercado, com reciclabilidade muito maior do que a do BOPP dos pouches e dos saquinhos de salgadinho, que é justamente o material que sobra nas cooperativas.Ter volume também não basta. É preciso qualidade e segurança. Imagine um frasco reaproveitado em casa para guardar querosene que entra na reciclagem e contamina a resina de uma futura embalagem de alimento. Por isso o papel da Anvisa é indispensável. Houve avanço: a agência autorizou o uso de plástico reciclado pós-consumo obtido por reciclagem avançada em contato direto com alimentos, o que viabilizou uma edição limitada de KitKat com embalagem de 100% plástico reciclado. Mas o polímero precisou ser importado, porque ainda não havia capacidade industrial no país, segundo a Nestlé.A reciclagem química exige muita energia e tem pouca escala. O próximo passo é chegar lá pela reciclagem mecânica, que é acessível e já é realidade no Brasil.Foto: Reprodução YouTube | Deink Brasil Leia também: 1.Tampa de papel pode substituir plástico em caixas longa-vida 2.Tecnologia brasileira pode revolucionar reciclagem de embalagem multicamada O caminho já foi percorrido antesA embalagem longa vida mostra que é possível. Quando se popularizou no país, ela misturava papel, plástico e alumínio numa peça só, e parecia um pesadelo para a reciclagem. A Tetra Pak entendeu que, para o produto se sustentar, precisaria garantir a volta. Investiu em cooperativas, recicladores e logística, e criou a Rota da Reciclagem para mapear pontos de entrega. Hoje, a taxa de reciclagem da embalagem é de 39%, segundo dados do Cempre.A tecnologia também evoluiu: da telha e da casinha de cachorro, o setor passou a separar o alumínio do plástico e devolvê-lo ao mercado com valor. Inovação e circularidade caminharam juntas. Leia também: 1.Eternit cria novos modelos de telhas fotovoltaicas 2.Caixas longa vida viram telhas para casas populares Telhas feitas com embalagens longa vida recicladas. Foto: DivulgaçãoÉ isso que a embalagem flexível ainda não teve. E é por isso que ela se tornou um teste de maturidade da economia circular brasileira. Há dois caminhos, e o ideal é seguir os dois ao mesmo tempo: ampliar os polos de reciclagem para mais perto de onde o material é gerado e criar incentivos que façam o reciclado valer o suficiente para pagar a logística e remunerar o catador com dignidade.O Brasil tem condições de sair na frente. O regulamento europeu de embalagens (PPWR) exige que todas as embalagens sejam recicláveis até 2030, enquanto aqui já coletamos e reciclamos flexíveis em escala desde 2022. Para isso virar política e não exceção, a responsabilidade compartilhada, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), precisa sair do papel.Marca, fornecedor, petroquímica, cooperativa, reciclador e poder público: ninguém resolve sozinho. Enquanto compensar for mais barato do que recuperar, o mercado vai continuar compensando. A embalagem flexível não é vilã. Vilão é um sistema que coloca a embalagem no mercado sem desenhar o caminho de volta.Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post A embalagem flexível é vilã ou aliada da sustentabilidade? appeared first on CicloVivo.