Clarence Seedorf é um dos grandes nomes da história recente do futebol europeu. Único jogador a conquistar a Liga dos Campeões com três clubes diferentes (Ajax, Real Madrid e Milan), o holandês construiu uma carreira brilhante dentro de campo. Fora dele, porém, a transição para o cargo de treinador foi bem mais complicada. As quatro experiências que teve até agora foram curtas, com resultados irregulares e avaliações geralmente modestas da imprensa. Em outubro de 2026, Seedorf voltou aos bancos ao assumir o Corinthians — e, pela primeira vez, vai trabalhar diretamente com o compatriota Memphis Depay.AC Milan (janeiro a junho de 2014)A estreia de Seedorf como técnico aconteceu no clube em que ele se tornou ídolo. Assumiu no meio da temporada 2013/14, com o Milan em 11º lugar, e ficou até o fim da temporada. Em 22 jogos, somou 11 vitórias, 2 empates e 9 derrotas (aproveitamento de 50%). Na Serie A, o time acumulou cerca de 35 pontos em 19 rodadas sob seu comando — uma das melhores campanhas da segunda metade do campeonato. Ainda assim, o Milan terminou em 8º lugar e ficou de fora das competições europeias. Foi eliminado nas oitavas da Champions pelo Atlético de Madrid e também caiu cedo na Copa da Itália.A imprensa italiana reconheceu a melhora pontual de resultados e o apoio de parte da torcida, mas criticou os métodos de treino, a gestão do elenco (especialmente a relação com jogadores como Montolivo e Pazzini) e o excesso de confiança depositada em Mario Balotelli. Houve atritos com a direção (Adriano Galliani e Silvio Berlusconi). Seedorf foi demitido no fim da temporada e substituído por Filippo Inzaghi. Ele próprio afirmou, anos depois, que se sentiu sozinho no cargo, embora defendesse os números obtidos.Shenzhen FC (julho a dezembro de 2016)Na China, Seedorf assumiu o Shenzhen, então na segunda divisão local. Em cerca de 13 ou 14 jogos, o time somou 4 vitórias, 4 empates e 6 derrotas. Não conseguiu a promoção e ficou em posição intermediária. Após cinco meses, foi substituído por Sven-Göran Eriksson. A passagem teve pouca repercussão internacional. O clube agradeceu o profissionalismo, mas apontou divergências sobre o projeto. Foi mais uma experiência breve, sem grande impacto.Deportivo La Coruña (fevereiro a junho de 2018)Seedorf chegou ao Deportivo no meio da temporada da La Liga com a missão de evitar o rebaixamento. Em 16 jogos, o time venceu apenas 2, empatou 6 e perdeu 8. Não conseguiu a permanência. O clube elogiou sua capacidade profissional, mas não renovou o contrato, preferindo buscar um técnico com mais experiência na Segunda Divisão. Seedorf lamentou o rebaixamento e destacou o esforço do grupo, mas a avaliação da imprensa espanhola e internacional foi de fracasso na missão principal.Seleção de Camarões (agosto de 2018 a julho de 2019)Com Patrick Kluivert como auxiliar, Seedorf assumiu os Camarões com o objetivo de defender o título da Copa das Nações Africanas. Em cerca de 12 ou 13 jogos, o time venceu 4, empatou 5 e perdeu 3 ou 4. No torneio de 2019, teve uma fase de grupos modesta e foi eliminado nas oitavas pela Nigéria (3-2). A federação e o ministro dos Esportes criticaram o jogo “ineficiente, monótono e previsível”, além da falta de liderança e disciplina. Seedorf e Kluivert foram demitidos logo após a eliminação. A imprensa internacional tratou o episódio como mais um exemplo de que uma grande carreira de jogador não se traduz automaticamente em sucesso no comando técnico.Balanço geral como treinadorAo longo das quatro experiências, Seedorf comandou cerca de 64 jogos, com aproximadamente 33% de vitórias. Nenhuma passagem durou um ano completo e não há títulos conquistados como técnico. A imprensa costuma destacar seu profissionalismo, inteligência e capacidade de diálogo, mas aponta a dificuldade de transformar isso em resultados consistentes e em estabilidade no cargo. As demissões ou saídas antecipadas foram o padrão.A relação com Memphis DepayNão há registros de uma amizade pessoal ou de uma parceria anterior profunda entre Seedorf e Memphis Depay. Eles são compatriotas e ambos passaram pela seleção holandesa, mas de gerações diferentes. Em 2020, quando Memphis (então no Lyon) era especulado no Barcelona sob o comando de Ronald Koeman, Seedorf o elogiou publicamente. Disse que ele era “um dos maiores talentos da Europa”, destacou a boa relação que tinha com Koeman na seleção e afirmou que qualquer grande clube que o contratasse ficaria encantado com seu talento.Agora, no Corinthians, os dois se encontram pela primeira vez na relação técnico-jogador. Memphis está no clube desde 2024 (com contrato renovado) e Seedorf assume o comando com a missão imediata de afastar o time da zona de rebaixamento. A imprensa holandesa tem destacado essa conexão como um dos pontos interessantes da contratação.O que esperar no CorinthiansSeedorf chega ao Parque São Jorge depois de sete anos afastado dos bancos e com o desafio de recuperar um elenco em má fase. A presença de Memphis Depay e de outro holandês, Zakaria Labyad, pode facilitar a comunicação e o ambiente. Resta saber se, desta vez, a experiência acumulada e o conhecimento prévio do futebol brasileiro (ele jogou no Botafogo entre 2012 e 2014) serão suficientes para transformar o histórico de passagens curtas em um trabalho mais duradouro.O que os fatos mostram até agora é que Seedorf ainda busca consolidar sua reputação como treinador. O Corinthians será o próximo capítulo dessa história.Até a próxima.