Cirurgiões usavam planta venenosa como anestesia na China

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Um estudo publicado nesta terça-feira (26) na revista Antiquity revela a evidência química mais antiga já encontrada de um anestésico usado em cirurgias. A descoberta foi feita a partir da análise de instrumentos médicos de ferro encontrados em um túmulo da antiga China, datado de cerca de 600 anos atrás.Os objetos pertenciam ao período da Dinastia Ming, que governou a China entre os séculos XIV e XVII. Entre os itens analisados estavam uma tesoura e uma pinça de ferro, descobertas décadas atrás no túmulo de Xia Quan, na cidade de Jiangyin, localizada próxima de Xangai.Pesquisadores da Universidade do Noroeste identificaram vestígios químicos de uma substância anestésica nas ferramentas. Segundo os cientistas, o composto provavelmente era produzido a partir do acônito chinês, uma planta extremamente venenosa, mas conhecida há séculos por suas propriedades analgésicas na medicina tradicional asiática.Os instrumentos amostrados e os resíduos analisados ​​em cada um. – Crédito: Ling, X., Li, J., Zhao, G., Cao, X., Weng, X., Zhang, H., Li, Z., & Zhao, C. (2026).Médicos reduziam a toxicidade da planta antes de usá-la como anestésicoDe acordo com os autores do estudo, os médicos da época conseguiam reduzir a toxicidade da planta antes de utilizá-la em pacientes. Para isso, misturavam o acônito com substâncias ácidas, como vinagre, feijão-mungo e até urina, prática registrada em textos médicos antigos da Dinastia Ming.O arqueólogo Congcang Zhao, um dos responsáveis pela pesquisa, afirmou que a descoberta mostra o alto nível de conhecimento médico existente na China há seis séculos. Segundo ele, os profissionais conseguiam equilibrar os efeitos medicinais da substância sem colocar os pacientes em risco excessivo.Para analisar os instrumentos, os cientistas utilizaram técnicas modernas que não danificam peças históricas. Primeiro, eles confirmaram que os objetos eram feitos de ferro por meio de fluorescência de raios X, método capaz de identificar elementos químicos presentes em materiais antigos.Depois, os pesquisadores examinaram pequenas partículas de ferrugem encontradas nas ferramentas. Com a ajuda de microscópios e lasers, foi possível identificar resíduos orgânicos deixados nos instrumentos durante antigos procedimentos cirúrgicos.Uma das técnicas usadas foi a espectroscopia micro-Raman, que analisa a forma como a luz se espalha ao atingir uma amostra. Esse processo permite identificar a estrutura química de moléculas microscópicas, funcionando como uma espécie de “impressão digital” dos compostos presentes.Apesar de altamente tóxico, o acônito chinês é utilizado há séculos na medicina tradicional asiática por seus efeitos analgésicos. – Crédito: Anton Shoshin – ShutterstockOs exames revelaram substâncias ligadas ao cianeto de hidrogênio e também resíduos de óleos e gorduras. Segundo os pesquisadores, a combinação desses elementos indica a presença de compostos medicinais e anestésicos, incluindo a aconitina, principal toxina encontrada no acônito.Os cientistas acreditam que os instrumentos eram usados em pequenas cirurgias na pele. Primeiro, o anestésico líquido seria aplicado na região do corpo. Em seguida, a pinça segurava a pele enquanto a tesoura removia a camada superficial durante o procedimento.Vestígios do anestésico foram encontrados justamente nas partes das ferramentas usadas durante as cirurgias. Para os pesquisadores, isso reforça a ideia de que a substância era aplicada diretamente sobre a pele antes das operações.Leia mais:Anestesia: saiba como elas funcionamObra de 12.000 anos revela espiritualidade entre humanos e animaisNa China Antiga, as mulheres mandavam. DNA prova isso; entendaChina traz primeira evidência química do uso de anestésicos em cirurgiasO estudo representa a primeira evidência química direta de anestésicos encontrados em instrumentos cirúrgicos antigos. Até então, existiam apenas registros escritos sobre o uso dessas substâncias na medicina chinesa tradicional.Segundo os autores, a descoberta ajuda a compreender como médicos da Dinastia Ming dominavam técnicas cirúrgicas e farmacológicas bastante avançadas para a época. A pesquisa também mostra como métodos científicos modernos conseguem revelar detalhes surpreendentes sobre práticas médicas utilizadas há centenas de anos.O post Cirurgiões usavam planta venenosa como anestesia na China apareceu primeiro em Olhar Digital.