Durante décadas, a transformação tecnológica foi vista principalmente como um desafio para funções operacionais e atividades repetitivas.Agora, a inteligência artificial provoca uma mudança mais profunda: executivos e gestores de alto escalão passaram a perceber que a automação também pode alcançar atividades tradicionalmente associadas à liderança, à análise e à tomada de decisões.Essa é uma das principais conclusões do estudo “Diretrizes para Adoção Ética e Estratégica de IA no Trabalho Corporativo“, desenvolvido pela consultoria Inesplorato em parceria com empresas especializadas em comportamento, cultura e tecnologia.Segundo a Inesplorato, a expansão da inteligência artificial está levando líderes e executivos a reavaliar o próprio papel dentro das organizações.Atividades antes associadas à gestão, à análise e à tomada de decisão passaram a ser parcialmente apoiadas por sistemas inteligentes, ampliando o alcance da transformação tecnológica também sobre os cargos de liderança.A mudança representa uma inflexão importante no debate sobre automação. Se, no passado, as preocupações estavam concentradas em tarefas operacionais, agora a discussão passa a incluir funções ligadas à estratégia, à coordenação de equipes e à produção de conhecimento — áreas historicamente vistas como menos suscetíveis à substituição tecnológica.Leia também:Empresas ainda promovem profissionais errados para liderar, indica estudo globalA automação chegou ao trabalho intelectualO estudo destaca que 74% dos brasileiros afirmam que a inteligência artificial ampliou sua capacidade de trabalho. Ao mesmo tempo, a tecnologia começa a automatizar atividades que antes eram consideradas exclusivas de profissionais altamente qualificados, como análises, elaboração de estratégias, interpretação de dados e apoio à tomada de decisões.Segundo a pesquisa, esse movimento faz com que executivos passem a perceber que também estão inseridos nas transformações provocadas pela automação e pelas novas exigências de produtividade que vêm remodelando o mercado de trabalho.A discussão ganha ainda mais relevância quando observada em conjunto com outro levantamento recente da Afferolab e da Tera.O estudo, realizado com 4,3 mil profissionais, revelou que 25% dos diretores e executivos C-Level brasileiros deixaram de delegar tarefas nos últimos 30 dias porque acreditavam que conseguiriam executá-las mais rapidamente utilizando IA.Para especialistas, esse comportamento sugere que muitos líderes ainda utilizam a tecnologia para aumentar a produtividade individual, em vez de redesenhar processos e transformar a forma de trabalho das equipes.Leia também:Quais as habilidades mais exigidas no mercado de trabalho? Técnica já não basta; vejaO que passa a diferenciar os humanosA análise da Inesplorato argumenta que competências tradicionalmente valorizadas no ambiente corporativo — como organização extrema, precisão técnica e capacidade analítica — estão se tornando mais facilmente reproduzíveis por algoritmos.Nesse cenário, habilidades ligadas ao julgamento ético, sensibilidade social, criatividade e pensamento crítico ganham relevância.A consultoria sustenta que a eficiência futura não dependerá de transformar pessoas em máquinas mais produtivas, mas de usar a tecnologia para libertar profissionais das tarefas mecânicas e ampliar sua capacidade de reflexão e criação.A tese dialoga com outros estudos recentes sobre mercado de trabalho. A Michael Page identificou que as habilidades mais difíceis de encontrar hoje são comunicação (49%), adaptabilidade (48%) e habilidades interpessoais (45%).Ou seja: justamente os atributos mais humanos.Leia também:CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativoUma mudança que chega ao topoO debate representa uma inflexão importante na forma como a inteligência artificial costuma ser abordada.Durante anos, a pergunta predominante foi quais empregos seriam substituídos pela tecnologia.Agora surge uma questão diferente: como será o papel da liderança quando parte significativa do trabalho intelectual puder ser executada por sistemas inteligentes?A resposta ainda está em construção. Mas uma conclusão parece ganhar força.Pela primeira vez, muitos executivos começam a perceber que a inteligência artificial não está apenas transformando o trabalho das equipes. Ela também está redefinindo o significado de liderar.Leia também:O paradoxo da IA: tecnologia avança, mas empresas buscam mais humanidadeThe post A IA virou o jogo: agora são os executivos que precisam provar produtividade appeared first on InfoMoney.