A decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de considerar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) organizações terroristas, além das implicações políticas, injetou um ‘grau’ de incerteza no mercado doméstico: o Ibovespa (IBOV) chegou a cair mais de 1% ao longo do pregão desta sexta-feira (29), com forte pressão do setor de bancos. Isso porque a medida, anunciada na noite anterior, traz riscos econômicos imediatos para empresas e instituições financeiras do Brasil, segundo a analista da Julia Thomson, da Eurasia Group. “Qualquer instituição financeira que tenha alguma relação direta ou indieta com atores de um desses grupos [CV ou PCC], mesmo sem saber, está vulnerável a sanções pelos Estados Unidos”, disse Thomson, em entrevista ao Money Times. Contudo, a analista considera que é “improvável” alguma grande medida ou sanção contra alguma instituição financeira brasileira — pelo menos, por ora.“A designação como FTO [sigla para Organizações Terroristas Estrangeiras] obriga a existência de programas de conformidade, o que já existe nas empresas, como medidas anticorrupção e de compliance. Então, o principal impacto, provavelmente, é um custo a mais para as empresas [em relação aos programas]. Mas, obviamente, existe o risco de sanção”, destaca a analista.Por outro lado, ela disse que “se, por exemplo, um banco norte-americano que atua como correspondente passar a ter qualquer dúvida sobre uma instituição financeira — seja em relação a possíveis vínculos ou conexões com grupos organizados —, ele pode decidir encerrar essa relação como forma de se resguardar internamente nos Estados Unidos.”A especialista da Eurasia também avaliou que, assim como a Lei Magnitsky – que afetou membros do Supremo Tribunal Federal brasileiro no fim do ano passado –, a aplicação da designação sobre os grupos criminosos vai “depender muito da aplicação pelos EUA”.“A exemplo do que tem acontecido no México, a gente tem visto algumas aplicações mais claras dessa medida. Mas os EUA têm uma limitação quanto ao monitoramento dos grupos organizados e à aplicação de sanção contra alguma instituição financeira ou país”, afirmou. A designação das organizações criminosas CV e PCC como ‘terroristas’ pelos EUA entra em vigor, oficialmente, em 5 de junho, após publicação no Federal Register.Estados Unidos classificam PCC e CV como organizações terroristas; medida entra em vigor em junhoPix ameaçado?No início da tarde desta sexta-feira (29), o governo brasileiro divulgou uma nota “dura” sobre a decisão dos EUA e citou o Pix como uma das “inovações que incomodam os interesses estrangeiros”.Para a analista da Eurasia, a menção ao Pix está mais relacionada ao “apelo” popular do sistema de pagamentos do que, necessariamente, alguma relação com a ação dos EUA sobre as facções criminosas.Ela lembra que o sistema está incluído na investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), a pedido do presidente Donald Trump, utilizando a chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, na questão tarifária. “O Pix está incluído na questão tarifária, o que não tem a ver com essa decisão do EUA”, disse Julia Thomson, em entrevista ao Money Times.Segundo a analista, as medidas são diferentes: a ação sobre FTOs tem um intuito político mais amplo em combate ao narcotráfico na América Latina, enquanto a investigação que inclui o sistema de pagamentos é “uma busca de motivos para aplicação de tarifas, assim como o governo Trump tem feito com todos os parceiros comerciais”.