Ontem mesmo, eu conversei com uma amiga sobre a dificuldade de trabalhar com temas climáticos.Em certo momento, ela disse: “Não dá para tirar férias desse assunto.”Entendo perfeitamente o que ela quer dizer.O cotidiano vira conexões reais e corporais entre as notícias, a mulher do tempo na TV, o ar que estou respirando, cada escolha de consumo, as contas que aumentam, e até meu cafézinho tão prazeroso todo dia que acordo.O café tem se tornado um fruto com mais presença na minha vida, para além da bebida, virou um ponto, ou vários pontinhos verdes e vermelhos, de observação para a agricultura e as mudanças do clima.Por isso, aceitei o convite da Yara Brasil para acompanhar, em Porto Seguro (BA), a primeira colheita de um projeto de café conilon (é a espécie diferente do arábica) com menor pegada de carbono desenvolvido em parceria com a JDE Peet’s e a ofi.Vamos lembrar que o café é a segunda bebida mais consumida, só perde pra água, então a alteração de preços pesa bastante no bolso.Em janeiro de 2020, um quilo de café torrado e moído custava R$ 16,78. Em janeiro de 2026, chegou a R$ 65,29, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).Uma alta de quase 300% em apenas cinco anos.Claro que inflação, câmbio e mercado internacional fazem parte dessa conta. Mas o clima também.O café maduro pode ter diferentes colorações, como a vermelha e a amarela. Foto: Natasha OlsenNos últimos anos, geadas fora de época, secas prolongadas e ondas de calor passaram a fazer parte da rotina dos cafeicultores (e de todos os produtores, e dos animais, e das plantas… vocês entenderam)Segundo a Climate Central, o Brasil registra atualmente cerca de 70 dias a mais por ano com temperaturas acima do limite considerado adequado para o desenvolvimento da produção do café. E o cenário futuro não é exatamente animador. Desculpa, meu objetivo não é desanimar, continua comigo até o final.Um estudo publicado pela Universidade de Zurique na revista científica Plos One estima que mais de 50% das áreas atualmente aptas para a produção de café no mundo podem se tornar inadequadas para cultivo até o final do século.Talvez o café seja um dos primeiros produtos a mostrar, de forma tão concreta, que a crise climática já entrou na economia real. Leia também: 1.Café e regeneração: cultivo em tempos de crise climática 2.Abelhas em cafezais aumentam produtividade em 16,5% Quando o clima vira assunto de negócioDurante muito tempo, sustentabilidade foi tratada como uma agenda paralela aos negócios. Algo importante, mas secundário.O que vi na Bahia sugere que essa lógica está mudando.Equipe da Yara Brasil e produtores de café no Sul da Bahia. Foto: Diego FelettiBruno Ribeiro, gerente de Fornecimento Responsável da JDE Peet’s (multinacional holandesa considerada a maior empresa de café e chá do mundo), falou: “Nosso negócio é torrar café. Se não tiver produtor, não tem negócio.”Pode parecer óbvio. Mas essa frase revela uma mudança importante.Empresas que dependem de commodities agrícolas estão percebendo que as mudanças climáticas não representam apenas um risco ambiental. Elas ameaçam diretamente a matéria-prima que sustenta seus negócios.Segundo Manoela Duenas, gerente de Sustentabilidade Café Verde da ofi Brasil, as secas registradas nos últimos anos evidenciam o quanto as cadeias globais de suprimento estão expostas às mudanças climáticas.Os números ajudam a explicar nessa hora: dados da ABIC mostram que, entre janeiro de 2021 e janeiro de 2026, o preço da matéria prima acumulou alta de 201% para o café conilon e 212% para o arábica.A restauração florestal é fundamental para reverter a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas. | Foto: Katya Ross | UnsplashNão é só para o consumidor que o preço aumenta.O clima deixou de ser apenas uma pauta ambiental.Passou a ser uma variável econômica. Leia também: 1.Folhas de café podem auxiliar no tratamento de Parkinson 2.Reflorestamento em cafezais é viável economicamente, diz estudo O que uma manhã na lavoura me fez lembrarChegamos à Fazenda Vitória logo cedo. O café já estava passado.E havia um orgulho visível em quem nos recebia com o produto cultivado ali mesmo.Era uma manhã nublada.Mas poucas horas depois todos estavam com calor.Enquanto caminhava pela plantação, me dei conta de que fazia tempo que eu não sentia esse calor na plantação.Nos últimos anos, passei boa parte do tempo visitando propriedades agroflorestais.Lugares onde as árvores compartilham espaço com a produção agrícola e ajudam a criar temperaturas mais amenas, com sombra!O café é uma ótima cultura para sistemas agroflorestais. Foto: Fernando Sant’Ana | IHSPode parecer um detalhe.Mas foi impossível não reparar.Por outro lado, também vi os pés de café carregados, com galhos até curvados pelo peso dos frutos.Era uma lavoura produtiva.Bonita de ver.Mas, enquanto caminhava entre as fileiras, outra pergunta surgiu.Toda aquela produção depende de irrigação. E se hoje a água está disponível, o que acontece daqui a vinte ou trinta anos?Foto: PixabayEm um cenário de aumento das temperaturas e eventos climáticos extremos, haverá água suficiente para sustentar sistemas produtivos como esse?Não tenho essa resposta.Mas talvez ela seja uma das perguntas mais importantes da agricultura brasileira.E é aí que a descarbonização faz sentido.Durante muito tempo, a descarbonização da agricultura parecia uma conversa restrita a pesquisadores, universidades ou nichos específicos do setor.O que vi ali foi uma grande cadeia produtiva começando a tratar o tema como parte da estratégia do negócio. Leia também: 1.Agrofloresta vira aliada da Amazônia na luta climática 2.Sistemas agroflorestais aumentam em 30% estoque de carbono no solo O que está sendo testadoA parceria entre Yara, JDE Peet’s e ofi envolve mais de 20 propriedades rurais na Bahia e no Espírito Santo.O objetivo é testar um modelo de produção de café conilon com menor pegada de carbono.Segundo Francielle Bertotto, gerente de Sustentabilidade e Cadeia do Alimento da Yara Brasil, os fertilizantes respondem por cerca de dois terços das emissões de gases de efeito estufa associadas à fase agrícola do café.Por isso, a empresa passou a investir em fertilizantes produzidos com fontes renováveis de energia, como biometano e eletrólise.A expectativa é reduzir em até 40% a pegada de carbono do grão verde, segundo cálculos realizados com base na metodologia do IPCC e na ferramenta Cool Farm Tool.Isso é uma boa notícia.Foto: PixabayO que o produtor realmente quer saberRafael Sol cultiva 105 hectares de café irrigado no sul da Bahia. Engenheiro agrônomo, mantém um laboratório próprio de insumos biológicos e não utiliza inseticidas químicos há mais de um ano e meio. Quando perguntei sobre as mudanças implementadas na propriedade, a resposta foi:“Uso porque funciona. Porque é melhor para as pessoas que trabalham aqui. E porque muitas vezes é mais barato. Se fosse só porque é sustentável, talvez não usasse.”Sincero. E expõe uma realidade frequentemente ignorada nos debates sobre transição agrícola.Mudanças em larga escala dependem de resultado econômico.Na Fazenda Vitória, duas áreas experimentais estão sendo comparadas lado a lado. Uma segue o manejo de costume do produtor. A outra utiliza os fertilizantes do projeto.Segundo Rafael, uma das avaliações apontou 31 frutos por roseta na área do projeto contra 29 na área convencional.Os resultados ainda estão sendo consolidados, mas a questao que não quer calar, é:“Eu ainda não sei como vou vender esse café com pegada de carbono menor. A não ser que alguém venha e fale: compra esse adubo mais caro, você vai ter um custo maior, mas eu vou te pagar essa diferença.”Existe um desafio econômico envolvido, ainda. Leia também: 1.O que a COP30 serviu? E o que isso diz sobre a nossa comida e agricultura 2.Agricultura urbana pode ser resposta à emergência climática O que o café está tentando nos contarO que mais me chamou atenção na Bahia não foi a tecnologia.Foi perceber que uma cadeia historicamente associada à agricultura convencional está começando a discutir temas que, há poucos anos, apareciam principalmente nos círculos da agroecologia, da regeneração e da conservação.Durante anos, o debate climático foi construído principalmente em torno da redução de impactos.Agora estamos entrando em outra fase, até porque está mais urgente.A fase da adaptação. E a adaptação custa dinheiro.Foto: iStockA pergunta é quem assume o risco dessa transformação. O produtor? A indústria? O consumidor? Os governos? Ou todos ao mesmo tempo?Talvez seja por isso que aquela conversa sobre não conseguir tirar férias dos temas climáticos tenha voltado à minha cabeça durante a viagem.Porque, gostemos ou não, eles já fazem parte da rotina, inclusive da xícara de café que nos salva todo dia de manhã.Da água que abastece uma lavoura. Das decisões de uma empresa. Do preço dos alimentos.As mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro.E estão se tornando uma das principais variáveis econômicas do presente.Viviane Noda esteve na Fazenda Vitória, em Porto Seguro (BA), em maio de 2026, a convite da Yara Brasil. É estrategista de comunicação, colunista do CicloVivo e estudante de MBA em Soluções Baseadas na Natureza pela Universidade do Carbono.Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post Café 300% mais caro: estamos prontos para a conta do clima? appeared first on CicloVivo.