Brasil pode ter 7 mil mortes a mais do que o registrado pelos estados; entenda motivo

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O Brasil registrou em 2024 a menor taxa de homicídios dos últimos 11 anos. Mas um dado revelado pelo Atlas da Violência 2026 acendeu um alerta entre especialistas em segurança pública: o número de homicídios ocultos quase dobrou em apenas um ano.Segundo o levantamento, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o país pode ter registrado 7.083 assassinatos a mais do que mostram as estatísticas oficiais. O número representa uma alta de 88% em relação aos 3.755 homicídios ocultos estimados em 2023.O crescimento levanta dúvidas sobre a qualidade dos registros de mortes violentas e sugere que parte da redução dos homicídios observada nos indicadores oficiais pode estar relacionada a problemas na classificação das causas das mortes.Leia tambémClassificação do PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA pode durar décadasHistórico do Departamento de Estado mostra que remoção da classificação costuma levar mais de uma décadaO que são os homicídios ocultos?Os homicídios ocultos são mortes violentas que não aparecem oficialmente como homicídios porque as autoridades não conseguiram determinar sua causa básica.Tecnicamente, esses casos fazem parte das chamadas Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), categoria utilizada quando não é possível concluir se uma pessoa morreu em decorrência de um assassinato, suicídio ou acidente.Essas ocorrências são registradas no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, com base nas declarações de óbito preenchidas por médicos legistas.O problema é que, em muitos casos, apenas a análise do corpo não é suficiente para esclarecer o que aconteceu.“Quando uma pessoa morre de forma violenta, o médico legista precisa indicar a causa da morte. Mas, muitas vezes, só examinando o corpo, ele não consegue saber se aquela morte foi homicídio, suicídio ou acidente. A informação precisa ser completada com dados da polícia. Quando isso não acontece, por falta de integração ou compartilhamento, a morte pode ficar registrada como causa indeterminada”, explicou Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência.Como os pesquisadores descobrem os homicídios ocultos?Os homicídios ocultos não são identificados individualmente. Eles são estimados por meio de um modelo estatístico desenvolvido por pesquisadores do Ipea.A metodologia utiliza técnicas de aprendizado de IA e analisa características das vítimas e das circunstâncias da morte para calcular a probabilidade de determinado caso ter sido um homicídio.“Olhamos tudo: sexo, idade, se tinha baixa escolaridade, se era casado, se foi morto no meio da rua, se era preto, se foi morto por arma de fogo, facada, paulada; também qual foi o município, a hora e o dia da semana”, afirmou Cerqueira durante a apresentação do Atlas.A partir do cruzamento dessas informações, o sistema estima quantas mortes classificadas como indeterminadas provavelmente foram homicídios.O que muda nos números da violência?Os registros oficiais apontam que o Brasil teve 42.590 homicídios em 2024, com taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes.Quando os homicídios ocultos são incorporados à conta, porém, o total sobe para 49.673 assassinatos. A taxa nacional passa para 23,4 homicídios por 100 mil habitantes.A mudança reduz significativamente o impacto da queda observada nas estatísticas oficiais.“A diminuição na taxa de homicídios registrada em 2024 foi de 7,4%. No entanto, devemos observar que grande parcela dessa redução se deve à piora na qualidade dos dados da saúde, em que muitos homicídios deixaram de ser classificados como tal”, afirma o Atlas.O crescimento dos homicídios ocultos foi especialmente intenso em alguns estados.Dez unidades da federação registraram aumento superior a 200% entre 2023 e 2024: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Alagoas, Amazonas, Santa Catarina, Sergipe, Ceará, Roraima, Amapá e Tocantins.Os pesquisadores identificaram um comportamento considerado atípico principalmente no Sudeste.Segundo o Atlas, o Rio de Janeiro apresentou forte crescimento de registros classificados como agressão por meios não especificados (CID Y9), enquanto Minas Gerais e São Paulo concentraram aumentos expressivos em casos registrados como fatos ou eventos de intenção indeterminada (CID Y34).São Paulo deixa de liderar rankingA inclusão dos homicídios ocultos também altera a classificação dos estados mais seguros do país.Nos dados oficiais, São Paulo aparece com a menor taxa de homicídios do Brasil em 2024, com 6,6 mortes por 100 mil habitantes. Quando os homicídios ocultos são considerados, porém, a taxa praticamente dobra e sobe para 12,8 por 100 mil habitantes.Com isso, o estado deixa a liderança e cai para a terceira posição entre os menos violentos do país. Santa Catarina passa a ocupar o primeiro lugar, seguida pelo Distrito Federal.O que explica o aumento?Os pesquisadores trabalham com duas hipóteses principais. A primeira é o preenchimento incompleto das declarações de óbito, que pode deixar de registrar corretamente a natureza da morte. A segunda envolve erros na digitalização ou no envio das informações para o sistema nacional de mortalidade.Mas a principal explicação apontada pelo Atlas está na falta de integração entre órgãos de segurança pública, institutos médicos legais e sistemas de saúde.“Não há compartilhamento de informações entre as várias agências e secretarias. Muitas vezes a polícia termina a investigação, e não há esse compartilhamento com a Saúde”, afirmou Cerqueira.Segundo ele, existem também situações em que nem a própria investigação consegue concluir o que aconteceu.“A polícia acha um corpo, por exemplo, com uma perfuração de arma de fogo; mas o corpo já estava ali há algum tempo, a cena foi desfeita e não se conseguiu diferenciar se o cara foi morto por homicídio, acidente ou suicídio”, disse.O resultado é um volume crescente de mortes violentas que permanecem sem classificação definitiva, e que podem estar escondendo uma parcela relevante da violência letal no país.The post Brasil pode ter 7 mil mortes a mais do que o registrado pelos estados; entenda motivo appeared first on InfoMoney.