Análise: Decisão dos EUA sobre facções terá impacto eleitoral e geopolítico

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A decisão dos Estados Unidos de classificar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como terroristas tem impactos em pelo menos três esferas.A primeira é eleitoral. A decisão ocorre poucos dias após a visita do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), à Casa Branca.Como a classificação era pauta da conversa, algo já antecipado, Flávio estabelece a narrativa de que foi bem sucedido na missão de buscar o auxílio dos Estados Unidos no combate de um dos principais problemas do país: a segurança pública. Leia Mais Sarrubbo: Itamaraty deve dialogar para reverter ato de Trump sobre PCC e CV PCC e Comando Vermelho aparecem em lista de grupos sancionados pelos EUA Senado discute efeitos da classificação do PCC e CV como terroristas O fato é, no entanto, que a decisão já vinha sendo antecipada por Darren Beattie, assessor de Trump, e por outros membros do governo americano.No dia 6 de maio, o presidente americano assinou um documento de 16 páginas que reorganiza o aparato federal de contraterrorismo. Além disso, também elegeu o narcoterrorismo transnacional como categoria de ameaça ao país.Esse texto afirma que, para proteger os EUA desses grupos, seria necessário designa-los como FTOs (Organizações Terroristas Estrangeiras, em tradução livre). Isso disponibilizaria autoridades de inteligência adicionais e interromperia o fluxo das facções ao território americano.A decisão sobre o PCC e o Comando Vermelho se enquadra nisso. Mas Flávio foi bem sucedido em implementar sua narrativa, justamente em um tema que o atual governo tem enfrentado com certa dificuldade.Por outro lado, o movimento do senador abre espaço para o Planalto retomar a bandeira da soberania nacional. Lula e aliados já se aproveitaram desse tópico durante o tarifaço de Trump no ano passado e viram resultados positivos, com uma recuperação do presidente nos levantamentos.O segundo ponto importante dessa medida é geopolítico.A situação representa um passo para trás na construção da relação pessoal entre Trump e Lula e representa um retorno a um posicionamento mais ideológico entre os países.Essa aproximação anterior entre os líderes tinha agradado uma vertente do Departamento de Estado que visa barrar a influência chinesa da região. Trump chegou a descrever o brasileiro como um “presidente dinâmico” da América Latina.Para Brasília, a designação de PCC e CV como terroristas aumenta o risco de operações em solo brasileiro. Também cresce a chance de uma atuação mais incisiva do serviço de inteligência americano no Brasil.Por fim, a decisão da Casa Branca inaugura a possibilidade de maior escrutínio internacional do sistema financeiro brasileiro. O tema tem ganhado força internamente, com operações da PF (Polícia Federal), do MP (Ministério Público) e da Receita Federal mirando combater crimes em empresas e fundos de investimento brasileiros, inclusive com possíveis ligações a políticos de relevância.* Michael Lopez Stewart é sócio-diretor da Arko Advice. É formado em ciência política pela Universidade da Pennsylvania, também é advogado. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.