Foto: Criada via Chat GPTO ano caminhava para o fim. Era 1965 e as provas finais haviam terminado. Vivíamos a euforia da formatura. No pátio do colégio, os grupinhos de alunos se reuniam e tudo era motivo de alegria. Relembrávamos histórias e passagens dos anos em que estivemos juntos na sala de aula.Junto dos amigos e colegas Chalita, Antoneli, Drubi, Raul e Siqueira, eu contava piadas e mexia com os demais colegas. Agora, éramos professores. Quando pensava nisso, sentia um calafrio na barriga. Ia enfrentar uma luta ainda maior do que a de ser aluno.Aproximou-se do grupo uma garota de pouco mais de treze anos, trazendo um caderno com anotações de amigos e colegas. Era Regina Mustafa.Um pouco sem jeito, ela disse: Bispo, você pode escrever uma recordação de amizade para mim neste caderno?Naqueles tempos, era comum pedir a amigos, colegas ou conhecidos que deixassem mensagens nos chamados cadernos de recordações. Bastante surpreso, concordei de imediato, embora já estivesse pensando no que escreveria. Eu era péssimo em redação e não queria fazer feio escrevendo algo sem sentido ou sem conteúdo.Naquele dia iniciava-se uma amizade pura e recíproca, que duraria 57 anos. Tivemos poucos contatos ao longo da vida, mas, todas as vezes em que nos encontrávamos, a admiração e o respeito que sentíamos um pelo outro permaneciam intactos. Quando nos reuníamos para decidir sobre o Encontro da Santa Ceia, as decisões eram analisadas e as opiniões respeitadas.Regina, presidente de entidades, diretora de escola, mulher de personalidade forte e decisões firmes, prefeita de Mirandópolis, nunca impôs sua vontade. Sempre perguntava: Bispo, qual é a sua opinião?Conquistou todos que conviveram com ela. Conquistou também aqueles que vieram a conhecê-la, justamente por não diferenciar credo, cor ou raça. Repito: sentia — e continuo sentindo — muita admiração por você, Regina. Por você e pela sua família. Pelo Nivaldo e seus filhos. O dia acabou. O sol se foi. Ficamos no escuro. Você partiu para brilhar do outro lado do nosso mundo.Regina, o mais belo presente dado ao homem, depois da sabedoria, é a amizade. Foi por isso que me senti feliz em ter sido escolhido para deixar aqui uma recordação. Mas a verdadeira amizade não se expressa apenas em palavras, e sim em ações. Portanto, deixo-lhe apenas um pensamento do Padre Antônio Vieira: Toda vida humana, por mais religiosa que seja, se não trouxer sempre diante dos olhos o fim para que nasceu, é navio sem norte, é cego sem guia, é dia sem sol, é noite sem estrelas, é república sem lei, é labirinto sem fio, é armada sem farol, é exército sem bandeira; enfim, é vontade às escuras, sem luz de entendimento que lhe mostre o mal e o bem, e que lhe dite o que querer ou fugir” (Ademar Bispo da Silva – Mirandópolis, 15 de novembro de 1965, no caderno de recordações).O post Artigo: Amizade, dor e saudade apareceu primeiro em AGORA NA REGIÃO.