A resposta do Brasil à crise energética global está em seus rios

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O mundo atravessa um período de forte instabilidade energética. Conflitos geopolíticos, tensões comerciais e a disputa por combustíveis fósseis expuseram a vulnerabilidade de países dependentes de petróleo e gás importados. A volatilidade de preços e a competição por recursos estratégicos recolocaram a segurança energética no centro das decisões de Estado.Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição rara entre as grandes economias: possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com forte presença hidráulica e independência de combustíveis fósseis para geração de energia. Essa condição, construída ao longo de décadas, deveria ser tratada como ativo estratégico nacional.O potencial hídrico subutilizadoApesar dessa vantagem, o País ainda utiliza apenas parte do seu potencial hidrelétrico. Há muitos projetos inventariados, de diferentes portes, que poderiam ampliar a oferta de energia firme, reforçar a confiabilidade do sistema e reduzir a necessidade de acionamento de térmicas fósseis.As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) fazem parte desse potencial, fazem parte da solução. São empreendimentos distribuídos pelo território, próximos às cargas, com baixa pegada de carbono e capacidade de fornecer atributos essenciais ao Sistema Interligado Nacional (SIN), como modulação de geração, flexibilidade operativa e serviços ancilares.O hidrobombeamento como soluçãoA expansão acelerada de fontes intermitentes — eólica e solar — trouxe ganhos relevantes, mas também desafios. A queda abrupta da geração solar no fim da tarde exige fontes capazes de responder rapidamente à demanda. A solução mais urgente então se traduz em uma palavra: armazenamento. Armazenamento que se traduz em duas opções: A primeira, bateria química de atuação em menor volume (BESS), com potencial de poucas horas, de curta vida útil, sem plano de descarte na natureza para os milhares de módulos que vem aí.A segunda, bateria natural, a melhor que temos, verdadeiro amortecedor do Sistema: Usinas hidrelétricas reversíveis. Lagos de menor tamanho que podem ser rapidamente criados e adaptados a empreendimentos hidrelétricos existentes e novos de todos os portes, podendo dobrar a capacidade de armazenamento do país, sedimentando a segurança energética a longo prazo e gerando da forma mais eficiente possível a energia no horário de maior consumo. Basta haver vontade governamental para isso porque expertise para implantar, temos de sobra. É a vocação do Brasil!A retomada de hidrelétricas de todos os portes, com reservatórios compatíveis, é fundamental para devolver equilíbrio ao sistema. Permite a regularização de vazões, controle de frequência e suporte à operação em momentos críticos.Flexibilidade e confiabilidade: atributos cada vez mais necessáriosO SIN tem apresentado necessidade crescente de flexibilidade e confiabilidade. A integração de grandes volumes de fontes intermitentes exige capacidade de resposta rápida, estabilidade e previsibilidade de geração. Hidrelétricas — incluindo também as de pequeno porte — oferecem esses atributos de forma contínua.As pequenas hidrelétricas, parte desta solução, podem ajudar muito por estarem próximas aos centros de consumo. As PCHs e CGHs reduzem perdas elétricas e diminuem a necessidade de investimentos em transmissão. Em regiões com infraestrutura de rede limitada, esses empreendimentos contribuem para aliviar gargalos e reforçar a segurança de suprimento.Impactos econômicos e regulatóriosA discussão sobre o papel das hidrelétricas envolve também regulação e racionalidade econômica. Estudos recentes mostram que, quando considerados atributos sistêmicos, vida útil, custos de transmissão e externalidades, as hidrelétricas apresentam competitividade superior àquela refletida nos preços de leilões tradicionais.A modernização regulatória em curso, incluindo a implementação da Lei nº 15.269/2025, abre espaço para corrigir distorções e valorizar adequadamente os atributos das hidrelétricas. A correta interpretação de temas como confiabilidade, indisponibilidade externa e ressarcimento por cortes de geração será determinante para a expansão sustentável do segmento.Desenvolvimento regional e benefícios socioambientaisAs hidrelétricas de pequeno porte têm baixo impacto ambiental e impacto positivo direto no desenvolvimento regional. São empreendimentos que geram empregos locais, aumentam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios e estimulam atividades como turismo e piscicultura. Seus reservatórios contribuem para regularização de vazões, preservação de nascentes e melhoria da qualidade ambiental dos rios.Estudos ambientais mostram que muitos empreendimentos promovem três vezes mais recomposição florestal comparando a área originalmente suprimida, reforçando o caráter de baixo impacto e a contribuição socioambiental dessas usinas.Uma oportunidade estratégica para o BrasilA conjuntura internacional evidencia que países dependentes de combustíveis fósseis enfrentam riscos elevados. O petróleo é um ativo financeiro sensível ao câmbio, enquanto a hidrelétrica é um ativo de infraestrutura que não depende disso. O Brasil, ao fortalecer sua base hidráulica e valorizar seu potencial hídrico, consolida uma posição de segurança energética rara no mundo. Trata-se de uma oportunidade estratégica para reforçar a competitividade econômica, reduzir custos sistêmicos e avançar na transição energética com estabilidade.A resposta do Brasil à crise energética global está, de fato, em seus rios. Reconhecer e aproveitar esse potencial é essencial para garantir energia firme, confiabilidade e soberania energética nas próximas décadas.* Alessandra Torres é presidente Executiva da Abrapch, entidade representativa do setor de pequenas centrais hidrelétricas e centrais geradoras hidrelétricas Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.