Você já xingou a empresa responsável por aquele jogo que você ama só porque ela nunca faz o port do PC para o seu console favorito? Já se perguntou por que o seu título preferido demora tanto para mudar de plataforma? Se a resposta é sim, saiba que existem motivos complexos para isso – que vão muito além de uma suposta “preguiça” ou corpo mole da desenvolvedora. Neste artigo, vou listar alguns desses fatores para ajudar você a entender melhor os bastidores dessa indústria.Mas, antes de mais nada, prazer! Eu sou Rodrigo “Chips” Scharnberg e estou no mercado de tecnologia desde 2002. Comecei como programador e construí minha carreira até me tornar consultor para empresas de games. Ao longo dessa jornada, já trabalhei com estúdios do mundo todo – incluindo EUA, Holanda, Filipinas e Alemanha – e com os mais diversos formatos: desde os antigos web browsers e celulares Symbian, passando por iPhone e Android, até títulos para PC e consoles como Switch, PlayStation e Xbox.Questões técnicasMuitas vezes, uma empresa se depara com dois problemas principais. O primeiro deles, e menos óbvio para o público, é que é necessário um hardware específico para criar essa nova versão do jogo. Tanto a Nintendo (Switch) quanto a Microsoft (Xbox) e a Sony (PlayStation) exigem um ambiente controlado para que se possa desenvolver em suas plataformas.Isso envolve restrições que vão desde o acesso físico ao local onde ficam esses aparelhos especiais – chamados de Dev Kits (Kits de Desenvolvimento) – até burocracias complexas para conseguir adquiri-los.Mas o que é um Dev Kit!?O Dev Kit é um console de videogame modificado, construído pela própria fabricante do sistema. Ele serve para que o desenvolvedor possa criar e testar minuciosamente cada característica do jogo diretamente no hardware final, permitindo monitorar o desempenho, corrigir problemas de compatibilidade e otimizar recursos específicos daquele console.Dev Kit da Sony. Imagem: X/TwitterAtualmente, por exemplo, não está fácil para nenhum estúdio adquirir um Dev Kit do Switch 2 ou do Xbox Series X/S. Então, mesmo que a empresa tenha total interesse em levar o seu jogo de sucesso do PlayStation para as plataformas da Nintendo ou da Microsoft, a logística se torna inviável se as fabricantes simplesmente não liberarem o aparelho. E, nesses momentos de alta demanda, não há dinheiro ou influência que mude o cenário.Além disso, para nós que estamos no Brasil, o processo é duplamente burocrático. Eu senti isso na pele quando liderei o porting de Starlit Adventures para o Nintendo Switch. Enfrentei desde respostas duras como “Nós não trabalhamos com o Brasil” até, finalmente, conseguir aprovar a compra e ter que buscar o Dev Kit pessoalmente nos EUA, um ano depois. Ou seja: foi um ano inteiro perdido apenas com burocracia, antes mesmo de começar a produção.Dev Kit da Nintendo. Imagem: Reddit Os testes de conformidade (Q.A.)Outro fator crucial para a demora no lançamento entre diferentes plataformas é o sistema de testes de conformidade, o famoso Q.A. (Quality Assurance) de cada fabricante. O grande problema é que o critério muda muito entre as empresas: enquanto uma testa o jogo todo e devolve uma lista completa com todos os erros encontrados, outra pode simplesmente parar o teste no primeiro erro que encontrar.Esse modelo de avaliação cria um ciclo perigoso:O erro bobo: se o seu jogo tiver uma falha simples de interface logo na tela inicial, ele é reprovado imediatamente. Você receberá um relatório apontando apenas 1 erro, mas o resto do jogo sequer foi avaliado.A fila global: você corrige a falha e reenvia o projeto. Só que agora você entra em uma fila global de aprovação, que pode demorar até 15 dias para ser processada.O ciclo se repete: se na segunda tentativa eles encontrarem outro erro na segunda fase, o jogo é rejeitado de novo e volta para o fim da fila de 15 dias.A menos que você desenvolva um jogo 100% à prova de falhas técnicas – que vão desde o visual dos botões na tela seguindo o manual exato da marca até a comunicação perfeita com os servidores da Sony, Xbox ou Nintendo –, o lançamento vai atrasar.Uma observação importante: não confunda problemas técnicos de conformidade (como um ícone de botão fora do padrão exigido pela fabricante) com bugs de gameplay (como o seu personagem atravessar uma parede). O Q.A. das donas dos consoles só reprova o que quebra as regras técnicas e de marca delas, não os bugs internos do jogo.Custos elevados e a ilusão do retorno financeiroPor fim, temos o fator financeiro. Um jogo que estourou em uma plataforma pode demorar para ganhar um port simplesmente porque a matemática dos games não é exata: sucesso em uma plataforma não garante o mesmo desempenho em outra.Além disso, o faturamento bruto é ilusório. O desenvolvedor nunca recebe 100% do valor da venda. Veja um exemplo prático de como o dinheiro é dividido:Preço do jogo na loja: R$ 10,00Após taxas da plataforma e impostos: sobram cerca de R$ 5,00 para o estúdio.Após a parte da Publicadora (Publisher): se houver um contrato de publicação, a fatia do desenvolvedor cai para algo entre R$ 1,50 e R$ 2,50.Ou seja, um jogo que faturou um milhão de reais na loja pode render apenas R$ 150 mil limpos para o bolso do desenvolvedor. Esse valor precisa pagar toda a equipe e ainda financiar o porting – que é caro, dá trabalho e exige reescrever muita coisa para que o jogo rode perfeitamente em uma máquina com arquitetura totalmente diferente da original.ConclusãoSendo assim, da próxima vez que você se perguntar por que seu jogo favorito ainda não chegou ao seu console de preferência, agora você tem as ferramentas para entender os bastidores. Muitas vezes, o problema não é a “preguiça” da desenvolvedora, mas sim as barreiras logísticas, burocráticas e financeiras impostas pela própria dona da plataforma.O post Por que seu jogo favorito demora tanto para chegar aos consoles? apareceu primeiro em Olhar Digital.