No Brasil, finalizamos a semana com o Ibovespa orbitando a região dos 175 mil pontos, ainda pressionado por um ambiente internacional mais desafiador e por um cenário doméstico marcado pela deterioração das expectativas fiscais em meio a um quadro eleitoral cada vez mais complexo.Na agenda econômica, o principal destaque ficou por conta da divulgação do IBC-Br de março, indicador frequentemente utilizado como uma prévia do PIB, que registrou retração de 0,7% na comparação mensal, em linha com as expectativas do mercado. Embora o dado mais fraco sugira alguma moderação da atividade econômica, isso ainda parece insuficiente para aliviar de maneira relevante a pressão sobre o Banco Central. A leitura predominante continua sendo a de que a autoridade monetária busca preservar espaço para dar continuidade ao ciclo de cortes de juros, mas a combinação entre inflação ainda persistente, cenário externo adverso e deterioração das expectativas fiscais aumenta a probabilidade de uma pausa no processo de flexibilização monetária ao longo dos próximos meses. Paralelamente, após uma valorização expressiva acumulada ao longo do ano, o real passou a refletir de forma mais evidente o aumento do ruído político doméstico e a piora do ambiente global de risco. Com a aproximação das eleições, o câmbio tende a se tornar ainda mais sensível às mudanças de percepção sobre o cenário político e fiscal brasileiro, especialmente em um mercado que ainda mantém posicionamento relevante na moeda local. Além disso, uma postura mais conservadora por parte dos bancos centrais das economias desenvolvidas, em especial do Federal Reserve, pode ampliar a pressão sobre o real. Esse movimento tende a prejudicar tanto os ativos domésticos quanto as perspectivas para a inflação, já que uma moeda mais depreciada encarece importações e dificulta o processo de desinflação da economia brasileira. Vale destacar que o Brasil já vinha atravessando um movimento de correção de ativos desde a segunda metade de abril, afetando principalmente o Ibovespa, enquanto o real permanecia relativamente resiliente. A moeda brasileira vinha sendo vista como uma das beneficiadas em um ambiente de dólar global mais fraco, petróleo elevado e diferencial de juros ainda bastante favorável em relação às economias desenvolvidas. Esse quadro, porém, começou a mudar ao longo da última semana, quando o cenário político doméstico se deteriorou justamente no momento em que o Dollar Index (DXY), índice que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, voltou a ganhar tração após dados de inflação nos Estados Unidos acima do esperado reduzirem as apostas na retomada do ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve. No campo político, investidores também acompanham com atenção a divulgação de novas pesquisas eleitorais, que devem começar a capturar de maneira mais clara os impactos recentes envolvendo o principal nome da oposição. O principal gatilho desse movimento foi a reportagem publicada pelo Intercept associando o pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, do Banco Master. Como Flávio é atualmente percebido por uma parcela relevante do mercado como o nome mais competitivo da oposição para 2026, qualquer potencial desgaste político tende a influenciar a leitura dos investidores sobre uma eventual mudança de direção da política econômica brasileira no próximo ciclo eleitoral. Sobre o tema, participei de uma live na noite de quarta-feira no Market Makers, ao lado de Thiago Salomão, Walter Maciel, Felipe Moura Brasil e Renan Santos, para debater os possíveis impactos do episódio sobre os ativos brasileiros. Para quem ainda não acompanhou, fica aqui o convite para conferir. Também abordamos o tema no último episódio do Empiricus Podcast. Clique aqui para assistir. O ambiente político e eleitoral segue no radar dos investidores e continua exercendo influência relevante sobre o sentimento de mercado, especialmente diante do aumento das incertezas em torno do próximo ciclo político e da trajetória fiscal brasileira. Ainda parece prematuro afirmar se os episódios recentes terão impacto estrutural sobre o processo eleitoral, que permanece relativamente distante. Mesmo assim, a reação dos ativos deixa claro que a questão fiscal continua sendo um dos principais vetores de precificação no mercado local. Mais do que os eventos políticos em si, o foco dos investidores está em entender como cada movimentação pode alterar a percepção sobre a condução futura da política econômica e o grau de comprometimento com a sustentabilidade das contas públicas ao longo dos próximos anos. Leituras preliminares de pesquisas eleitorais já começaram a indicar uma ampliação da vantagem do governo em relação aos levantamentos anteriores. Ainda assim, uma avaliação mais consistente sobre os impactos políticos e eleitorais desses acontecimentos provavelmente só deverá emergir nas próximas semanas, à medida que novos dados forem divulgados e o mercado consiga separar, com maior clareza, os ruídos de curto prazo das tendências mais estruturais do cenário eleitoral. O movimento também foi agravado pelo anúncio do governo Lula de novos subsídios para gasolina e diesel, medida que aprofundou a deterioração dos ativos domésticos ao ampliar as preocupações fiscais. A percepção predominante entre investidores é a de que a iniciativa aumenta uma conta que inevitavelmente precisará ser enfrentada mais adiante por meio de algum tipo de ajuste fiscal, especialmente considerando que o custo potencial do programa pode alcançar bilhões de reais em poucos meses caso os subsídios sejam utilizados integralmente. Esse ambiente ajuda a explicar a abertura recente da curva de juros e a piora adicional do humor local observadas nos últimos dias. Ainda assim, sigo entendendo que existe espaço para um eventual rali eleitoral nos ativos brasileiros ao longo do ciclo, embora esse movimento provavelmente dependa de uma reorganização mais clara das forças de oposição e da consolidação de uma agenda econômica percebida pelo mercado como mais comprometida com a sustentabilidade fiscal de longo prazo.