Poder de compra aumentou, mas pobreza continua a afetar 1,66 milhões de portugueses

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A taxa de risco de pobreza em Portugal voltou a descer em 2025, atingindo 15,4% da população,  o equivalente a 1,66 milhões de pessoas. Trata-se do segundo ano consecutivo de redução, mas os dados mostram que a pobreza e a exclusão social continuam a afetar de forma desproporcional grupos mais vulneráveis, como desempregados, famílias monoparentais, crianças e idosos. As conclusões são do relatório Portugal, Balanço Social 2025, lançado pela Fundação “la Caixa”, pelo BPI e pela Nova SBE.A 6ª edição do estudo destaca também um aumento significativo do rendimento disponível e do poder de compra na última década, ao mesmo tempo que evidencia desigualdades persistentes nos rendimentos, nas pensões e nas condições de vida. O relatório é da autoria de Bruno P. Carvalho, Francisco Tavares, João Fanha, Miguel Fonseca e Susana Peralta, que integram o Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center.Pobreza continua mais elevada entre desempregados e famílias monoparentaisSegundo o relatório, o limiar de pobreza em Portugal situava-se em 2025 nos 8.679 euros anuais, ou seja, cerca de 723 euros por mês. A taxa de risco de pobreza desceu 1,2 pontos percentuais face a 2024, mantendo a trajetória de descida iniciada em 2023.Apesar da melhoria global, alguns grupos continuam particularmente expostos:42,6% dos desempregados encontravam-se em situação de pobreza;Entre as famílias monoparentais, a taxa atingia os 35,1%;Nos indivíduos com menor escolaridade, a incidência era de 21,3%.O relatório revela ainda que as mulheres continuam mais vulneráveis à pobreza do que os homens, com taxas de 16,3% e 14,5%, respetivamente. Entre os agregados familiares, as assimetrias continuam marcadas. Nas famílias numerosas, a taxa de pobreza atingia 26,7%, enquanto nos casais com duas crianças a taxa subiu de 12% para 14,2%.Poder de compra aumentou 25% em dez anosEntre 2014 e 2024, o rendimento disponível médio das famílias portuguesas aumentou de 9.856 euros para 14.951 euros, traduzindo-se num crescimento do poder de compra de 25,2%.No entanto, os ganhos não foram distribuídos de forma homogénea. O crescimento do poder de compra foi superior a 30% nos cinco decis de rendimento mais baixos, enquanto nos escalões superiores ficou abaixo dos 25%.Ainda assim, as desigualdades permanecem elevadas. Em 2025, os 10% mais ricos detinham quase oito vezes mais rendimento disponível do que os 10% mais pobres. Além disso, os 25% mais ricos concentravam 46,5% do rendimento do país, enquanto os 25% mais pobres detinham apenas 10,5%.Mulheres continuam a receber salários e pensões mais baixosO relatório evidencia também disparidades significativas entre homens e mulheres, sobretudo ao nível salarial e das pensões.Em 2024, por cada euro ganho por um homem com ensino superior, uma mulher com o mesmo nível de educação recebia apenas 72 cêntimos. Já no ensino secundário, o valor descia para 62 cêntimos. Entre pessoas com ensino básico, as mulheres recebiam apenas 57 cêntimos por cada euro ganho pelos homens.A desigualdade prolonga-se na reforma. Mais de 60% das mulheres que receberam pensão de velhice em 2025 receberam menos de 500 euros, enquanto apenas 28,5% dos homens estavam abaixo desse valor.Crianças e idosos continuam entre os grupos mais vulneráveisAs crianças e os idosos continuam a ser os grupos mais expostos ao risco de pobreza e exclusão social em Portugal. Em 2024, havia 301 mil crianças pobres e 541 mil pessoas com mais de 65 anos em situação de pobreza.O relatório identifica várias formas de privação infantil:Quase metade das crianças pobres não participava regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer;35,4% viviam em habitações sobrelotadas;15% dos agregados com crianças pobres não conseguiam assegurar uma alimentação saudável e nutritiva.Além disso, a taxa de privação material e social era quase quatro vezes superior entre crianças pobres (29,6%) face às não pobres (7,6%).Nos idosos, os principais problemas prendem-se com dificuldades em manter a casa aquecida, pagar férias fora de casa ou suportar despesas inesperadas.Habitação, saúde e privação continuam a marcar a pobrezaA taxa de privação material e social desceu em 2025 para 10,2%, enquanto 4,3% da população vivia em situação de privação material e social severa. Ainda assim, a privação continua a ser quase seis vezes mais comum entre pessoas pobres do que entre a população não pobre.As dificuldades refletem-se sobretudo no acesso à saúde, na habitação e nos custos energéticos.Note-se que, entre os agregados pobres:33,4% tinham encargos com habitação superiores a 40% do rendimento;30,9% não conseguiam manter a casa adequadamente aquecida;39,2% não conseguiam manter a habitação confortável no verão.O estudo mostra ainda que 40,4% das famílias pobres viviam em casas com problemas estruturais, como infiltrações ou degradação.Açores e Alentejo registam maiores níveis de pobrezaAs disparidades regionais continuam significativas. O Alentejo registou a maior taxa de pobreza do país (17,9%), seguido dos Açores (17,3%). Em sentido inverso, a Grande Lisboa apresentou a menor prevalência de pobreza, com 12,2%.Já a privação material e social foi particularmente elevada nas regiões autónomas:17,4% nos Açores;15,1% na Madeira.No entanto, o Alentejo foi ainda a região com menor privação material e social (7,6%).A inflação continua também entre as maiores preocupações dos portugueses, sobretudo entre quem enfrenta dificuldades financeiras. Saúde e habitação surgem logo a seguir entre os temas considerados prioritários.Portugueses confiam mais no exército e menos nos partidos políticosO relatório inclui ainda uma análise sobre confiança institucional e perceções sociais. Em 2024, o exército e a polícia eram as instituições que geravam maior confiança junto dos residentes em Portugal. Já os partidos políticos surgiam como a instituição em que os portugueses menos confiam.Entre as pessoas com dificuldades em pagar contas, mais de 90% manifestavam desconfiança nos partidos políticos e cerca de 60% mostravam-se insatisfeitas com o funcionamento da democracia.O conteúdo Poder de compra aumentou, mas pobreza continua a afetar 1,66 milhões de portugueses aparece primeiro em Revista Líder.