A eleição presidencial da Colômbia deixou de ser apenas uma disputa doméstica e passou a ser observada com atenção também no Brasil. Em meio ao avanço da violência urbana, fortalecimento de grupos armados e crescimento de candidaturas conservadoras com discurso de endurecimento contra o crime, o cenário colombiano começa a se parecer cada vez mais com um debate que já domina a política brasileira, calcado, principalmente, na segurança pública.Durante participação no programa Mapa de Risco Internacional, do InfoMoney, o cientista político e sócio da Real Time Big Data, Bruno Soller, afirmou que a deterioração da segurança reorganizou o debate político colombiano e fortaleceu candidaturas de direita às vésperas da eleição presidencial. Para ele, o fenômeno não é isolado.“Se a gente for olhar do México para baixo, praticamente não tem um país que se salva em relação à segurança pública”, afirmou.A Colômbia vai às urnas em 31 de maio em meio a uma escalada de atentados políticos, ameaças contra candidatos e críticas crescentes à política de “paz total” implementada pelo presidente Gustavo Petro. A estratégia buscava negociar simultaneamente com grupos armados e dissidências das Farc, mas passou a ser alvo de críticas após o aumento recente da violência.Segundo Soller, o tema acabou reorganizando a oposição conservadora e abriu espaço para candidaturas mais alinhadas ao discurso de enfrentamento duro ao crime, nos moldes defendidos por líderes como Nayib Bukele, em El Salvador, e Donald Trump, nos Estados Unidos.“Enquanto ficar se prometendo discussão só e não resolução, o tema segurança pública vai estar em alta nessa eleição”, disse.Segurança vira eixo central da disputaO cientista político avalia que a preocupação com violência urbana passou a funcionar como principal combustível político para candidaturas conservadoras na América Latina. Segundo ele, a sensação de insegurança ultrapassa discussões ideológicas e se conecta diretamente ao cotidiano da população.“O brasileiro não é que está torcendo para matar todo mundo. Mas se tiver que matar para ele se sentir seguro, ele torce para que aconteça”, afirmou.Na avaliação dele, a Colômbia hoje antecipa uma tendência que deve ganhar ainda mais força na eleição presidencial brasileira de 2026. O tema já aparece no discurso de potenciais candidatos da direita, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ambos defensores de endurecimento penal e redução da maioridade criminal.Soller lembra que a segurança pública também se tornou um ponto vulnerável para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente por não ser uma pauta historicamente associada à esquerda brasileira.“Esse é um problema do governo Lula, que não é identificado com essa pauta”, afirmou.Colômbia revive debateA discussão sobre segurança pública ganhou ainda mais força na Colômbia após o crescimento de dissidências das Farc e o avanço do narcotráfico em regiões urbanas e de fronteira. O tema se tornou central na campanha presidencial e fortaleceu candidatos que defendem repressão mais dura contra grupos armados.Soller afirma que parte da população colombiana passou a enxergar a política de negociação de Petro como permissiva diante da reorganização de facções criminosas e guerrilhas dissidentes.“Essa violência urbana vira de novo uma chaga na Colômbia”, disse.Segundo ele, a deterioração da segurança pública também foi impulsionada pela crise migratória vinda da Venezuela e pela retomada de rotas do narcotráfico na região.Debate regional chega ao BrasilPara o cientista político, o avanço desse tipo de discurso conservador na América Latina pode influenciar diretamente a eleição brasileira. A avaliação é que o eleitorado da região passou a buscar respostas mais imediatas para a violência, mesmo diante de soluções controversas do ponto de vista democrático.A ascensão de Bukele em El Salvador, por exemplo, virou referência frequente entre políticos conservadores latino-americanos. O presidente salvadorenho ganhou popularidade após promover prisões em massa e ampliar o endurecimento contra facções criminosas.No Brasil, o tema também já aparece com força crescente nas pesquisas qualitativas e quantitativas, segundo Soller.“As pessoas querem alguma resposta à questão da segurança pública”, afirmou.Para ele, a eleição colombiana funciona hoje como uma espécie de laboratório político regional. Se a direita conseguir transformar o combate ao crime no principal eixo eleitoral do país, o movimento pode antecipar parte do debate que o Brasil verá em 2026.The post Mapa de Risco: como o discurso anti-crime da direita da Colômbia ecoa no Brasil appeared first on InfoMoney.