Adolfo Mesquita Nunes: «O maior risco da IA é convencermo-nos de que ela sabe mais do que nós»

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O impacto da IA nos Recursos Humanos já se faz sentir, mas os perigos e vieses que surgem devem levantar questões sobre a sua utilização generalizada. Porque usar «a justificação ‘foi o algoritmo’ não é uma resposta aceitável.» Quem o diz é Adolfo Mesquita Nunes, que trouxe ao palco da Leading People – International HR Conference 2026, no dia 21 de maio, uma perspetiva focada nos riscos da inteligência artificial.O Sócio e Country co-Chair da Pérez-Llorca apontou a opacidade dos sistemas de inteligência artificial como uma das principais preocupações. Segundo explicou, muitas organizações já utilizam algoritmos em processos de despedimento, recrutamento ou promoção sem conseguirem explicar concretamente os critérios utilizados pelas máquinas.«Empresas que utilizam sistemas de inteligência artificial para escolher quais as pessoas que despedem viram despedimentos anulados em tribunal porque não foram capazes de explicar qual foi o critério utilizado», afirmou.Para Adolfo Mesquita Nunes, o problema agrava-se porque os sistemas de inteligência artificial tendem a ser desenhados para maximizar eficiência, algo que, segundo o advogado, nunca pode ser o único critério nas decisões humanas.As nossas decisões em recursos humanos nunca são exclusivamente eficientes. E é bom que não sejam. Na nossa vida tomamos decisões por eficiência, claro, mas por amor, por caridade, por solidariedade, por justiça, por equidade, por proporcionalidade.O risco do erro e da confiança excessiva nas máquinasAo longo da intervenção, Adolfo Mesquita Nunes insistiu numa ideia central: o maior problema da inteligência artificial não é apenas a possibilidade de errar, mas a tendência crescente para os seres humanos acreditarem que a máquina está automaticamente certa.«Todos os dias nos dizem que a inteligência artificial é espetacular e muito melhor e muito mais eficiente do que nós. A tendência para acharmos que a máquina está certa e nós estamos errados existe e é grande», afirmou.Segundo o advogado, esse risco torna-se particularmente grave na área dos recursos humanos, onde decisões automatizadas podem afetar diretamente a vida das pessoas. «Nós podemos estar a despedir uma pessoa que não devíamos ou a não recrutar uma pessoa que devíamos», alertou.Para o responsável, o problema não está na utilização da IA em si, mas na ausência de supervisão humana qualificada. E aqui identifica uma contradição crescente nas empresas: investe-se fortemente em sistemas de inteligência artificial, mas muito pouco na formação das pessoas que terão de os supervisionar.«Vamos pedir a pessoas que supervisionem coisas que não sabem nem percebem e, portanto, vão supervisionar de uma forma muito deficiente», afirmou.Como os algoritmos podem discriminar mulheresUm dos momentos fulcrais da intervenção surgiu quando Adolfo Mesquita Nunes falou sobre enviesamento algorítmico e discriminação.O advogado contou um exercício que costuma fazer em formações de executivos e diretores de recursos humanos: pede aos participantes, na maioria mulheres, que criem um algoritmo simples para decidir promoções internas dentro de uma empresa.No final, submete ao sistema currículos praticamente iguais entre homens e mulheres, com apenas uma diferença: as mulheres tiveram filhos e interrupções na carreira. O resultado, explicou, repete-se quase sempre. «Nenhuma das mulheres é promovida pelo algoritmo que as mulheres criaram», contou.Segundo explicou, critérios aparentemente neutros, como disponibilidade para fazer horas extra, carreiras sem interrupções ou ausência de faltas imprevistas, acabam por reproduzir discriminações estruturais sem que quem constrói o algoritmo se aperceba disso.«Basta nós termos cuidado com os algoritmos que estamos a criar», afirmou, defendendo maior literacia tecnológica e espírito crítico dentro das empresas.«Foi o algoritmo» não é uma explicação aceitávelOutro dos riscos apontados foi a opacidade dos sistemas de inteligência artificial. Segundo explicou, muitas organizações já utilizam algoritmos em processos de despedimento, recrutamento ou promoção sem conseguirem explicar concretamente os critérios utilizados pelas máquinas.«Empresas que utilizam sistemas de inteligência artificial para escolher quais as pessoas que despedem viram despedimentos anulados em tribunal porque não foram capazes de explicar qual foi o critério utilizado», afirmou.Para Adolfo Mesquita Nunes, o problema agrava-se porque os sistemas de inteligência artificial tendem a ser desenhados para maximizar eficiência, algo que, segundo o advogado, nunca pode ser o único critério nas decisões humanas.As nossas decisões em recursos humanos nunca são exclusivamente eficientes. E é bom que não sejam. Na nossa vida tomamos decisões por eficiência, claro, mas por amor, por caridade, por solidariedade, por justiça, por equidade, por proporcionalidade.Empresas vão gerir pessoas e agentesA intervenção abordou também aquilo que considera ser a próxima grande transformação das organizações: a entrada dos chamados agentes autónomos – sistemas de IA capazes não apenas de recomendar decisões, mas de as executar. Segundo explicou, as empresas caminham rapidamente para modelos híbridos onde trabalhadores humanos coexistirão com agentes digitais.«As áreas dos recursos humanos vão ter de começar a olhar para uma realidade híbrida. Vão ter pessoas e agentes e vão ter que definir regras», afirmou.Entre os desafios futuros, destacou questões relacionadas com produtividade, avaliação de desempenho e mérito. Afinal, questionou, até que ponto um trabalhador é mais eficiente por talento próprio ou apenas porque utiliza um agente mais avançado do que outro colega?Ao mesmo tempo, alertou para o crescimento exponencial dos riscos cibernéticos. «Quanto mais IA nós tivermos nos nossos processos de tomada de decisão, mais superfícies de entrada há para riscos cibernéticos», afirmou.«O ser humano não se realiza na sua vida diletante»Já perto do final da intervenção, o debate deixou o campo jurídico e aproximou-se de uma reflexão mais filosófica sobre trabalho, propósito e realização humana. Adolfo Mesquita Nunes rejeitou a ideia de um futuro em que o ser humano deixa simplesmente de trabalhar enquanto a inteligência artificial executa todas as tarefas. «O ser humano não se realiza na sua vida diletante», afirmou.Para o advogado, as empresas precisam de estar atentas aos sinais de perda de propósito dentro das equipas, sobretudo em funções excessivamente dependentes da automatização. «Temos nas nossas empresas, nas nossas equipas, de perceber quando é que as pessoas estão a começar a deixar de ter um propósito naquilo que fazem», alertou.Apesar dos vários alertas, recusou assumir-se como um cético da inteligência artificial. Pelo contrário, explicou que utiliza IA diariamente no seu trabalho. «Eu utilizo a inteligência artificial todos os dias», afirmou, referindo que recorre à tecnologia para trabalho jurídico, emails e tarefas do quotidiano.Mas deixou uma última advertência ao auditório. «A única coisa que eu sinto que tenho sempre de garantir é não me deixar convencer pela ideia de que aquilo sabe mais do que eu. Aquilo não sabe absolutamente nada. Aquilo é um bom sistema para me auxiliar.»Tenha acesso à galeria de imagens aqui.Tudo o que aconteceu na Leading People estará disponível a partir de 15 de março na Líder TV e no canal 560 da NOS.Além disso, à chegada, todos receberam a mais recente edição da revista Líder. Dentro do tema de capa – Condição Humana – encontram-se reflexões, entrevistas e artigos que aprofundam o debate deste dia.O conteúdo Adolfo Mesquita Nunes: «O maior risco da IA é convencermo-nos de que ela sabe mais do que nós» aparece primeiro em Revista Líder.