A Argentina anunciou a redução dos impostos de exportação do trigo de 7,5% para 5,5% a partir de junho, em uma tentativa de melhorar a rentabilidade do setor e estimular os embarques do cereal.Durante evento na Bolsa de Cereais de Buenos Aires, Javier Milei afirmou que as taxas de exportação da soja também poderão ser reduzidas entre 0,25 e 0,50 ponto percentual em janeiro do próximo ano, desde que a arrecadação do país permita essa redução.O presidente também sinalizou futuros cortes de impostos para as indústrias automotiva e petroquímica, destacando que os detalhes desses ajustes serão anunciados nos próximos dias. Leia Mais Moinho Globo prevê ano difícil e conservador para setor de trigo Brasil lidera embarques de soja para a China em 2026 Brasil caminha para ter a menor safra de trigo em 5 anos TrigoAnalistas avaliam que a medida ainda terá impacto limitado sobre a competitividade do trigo argentino no mercado internacional e pouco altera o cenário de abastecimento para o Brasil.Segundo o analista da Safras & Mercado, Élcio Bento, a redução de 2 pontos percentuais melhora parcialmente a margem do exportador e o preço recebido pelo produtor, mas ainda não altera de forma significativa a competitividade do trigo argentino no mercado internacional.De acordo com Bento, considerando os preços atuais, o corte representa cerca de US$ 4,5 por tonelada a serem distribuídos ao longo da cadeia entre exportadores e produtores. Ainda assim, ele ressalta que nem todo esse ganho necessariamente chega ao produtor rural.Como a Argentina é tomadora de preços no mercado internacional, o impacto tende a aparecer mais no mercado interno. A avaliação da Safras Argentina é de que a medida pode dar algum suporte aos preços locais, mas não resolve os principais entraves das exportações.Isso porque o trigo argentino já aparece caro no mercado externo, enquanto um FOB (traduzido como “Livre a Bordo”) mais baixo segue limitado pelas margens negativas.Bento lembra que, quando o governo reduziu a alíquota de 9,5% para 7,5% em dezembro, o efeito prático acabou neutralizado pela queda nos preços do trigo e pela valorização cambial.Segundo a análise da Safras & Mercado, a curva futura do trigo argentino já vinha indicando que o mercado precificava algum tipo de redução ou até mesmo a eliminação das retenciones para a nova safra.Mesmo assim, a redução anunciada ainda é considerada insuficiente para provocar mudanças relevantes na estrutura de preços ou na competitividade das exportações.Para a safra velha, válida até novembro, o impacto deve ser ainda mais limitado, já que persistem problemas como oferta restrita, qualidade irregular e retenção de produto pelos produtores, que seguem segurando vendas para preservar poder de compra.A tendência, segundo a consultoria, é de comercialização apenas conforme necessidade de caixa, compra de insumos ou pagamento de arrendamentos.Já para a nova safra, Bento avalia que o trigo argentino só voltaria a apresentar um FOB dezembro próximo de US$ 240 por tonelada caso houvesse eliminação total dos direitos de exportação.Com a redução parcial anunciada, o mercado segue caro para exportação, limitando o potencial de queda dos preços FOB.Para o Brasil, a avaliação permanece praticamente a mesma. A Argentina deve continuar como principal referência para o abastecimento brasileiro, mas o custo de reposição seguirá condicionado à qualidade do produto, à oferta disponível, aos preços internacionais e ao câmbio argentino.Caso o trigo argentino não atenda totalmente à demanda por produto de melhor padrão panificável, os moinhos brasileiros poderão recorrer a origens mais caras, como o trigo dos Estados Unidos.Com ajuste fiscal, Argentina de Milei melhora percepção externa | MORNING CALLSojaNo mercado da soja, a leitura é de que a Argentina segue com papel mais relevante na formação de preços do que na disputa direta por volumes. O analista da Royal Rural, Ronaldo Fernandes, destaca que o país deve produzir cerca de 48 milhões de toneladas, consumir 49 milhões e exportar apenas em torno de 8 milhões, o que limita sua presença no comércio global de grãos in natura.Segundo ele, embora a Argentina tenha ampliado sua participação no mercado internacional em 2025, o movimento tende a perder força em 2026, com recuo das exportações para algo próximo de 6 milhões de toneladas e retorno a um patamar mais próximo da normalidade.Ainda assim, Fernandes ressalta que o principal impacto não está no volume exportado, mas na formação de narrativa de preços.Ele explica que, mesmo sem competir diretamente em escala com o Brasil, o trigo e os derivados argentinos podem influenciar referências internacionais e balizar as cotações brasileiras.A China, segundo Fernandes, não deve comprar grandes volumes da Argentina, mas pode usar seus preços como parâmetro de referência para negociações globais.Brasil avança na cooperação internacional do agro em missão à Europa