Em apenas um ano, o Brasil registrou três milhões de vítimas infantis de violência sexual online, segundo relatório da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos diz ter sofrido abuso sexual ou exploração com o uso da tecnologia, com a maioria das vítimas conhecendo o agressor pela primeira vez online.De acordo com a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono, chefe do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital) da Polícia Civil de São Paulo, esses crimes costumam ocorrer em aplicativos de conversa, redes sociais e em chats de jogos online, onde pedófilos e estelionatários entram em contato com menores de idade. Leia Mais Especialista: Agência com diretoria indicada por Lula regulará digital Marco Civil da Internet: o que muda com as novas regras para big techs 13% dos jovens já acessaram conteúdo adulto no Brasil, diz pesquisa “Depois do primeiro aliciamento no chat de um jogo, eles migram para um aplicativo de conversa. E eles iniciam um webnamoro, uma webamizade e, ali, sem conhecer o autor ou agressor, sem passar pela cabecinha da vítima que ele pode um dia fazer algo contra ela. E ela começa, de forma espontânea, a entregar dados pessoais, dados sensíveis e, dessa maneira, até um certo tempo, ela manda a primeira foto íntima, o primeiro vídeo íntimo, e a vida dela acabou”, afirma.A prática de aproximação e aliciamento de menores de idade na internet é conhecida como grooming. O processo é definido como a manipulação por parte de um adulto em relação a uma criança ou adolescente, com o objetivo de obter material de abuso ou forçar um encontro.No entanto, os crimes podem ir além da exploração sexual. Na internet, em redes sociais e em jogos online, menores estão expostas a desafios perigosos, cyberbullying, misoginia e discurso de ódio. Segundo especialistas, crianças neurodivergentes são as mais vulneráveis para esse tipo de crime.“Em crianças com autismo, a dificuldade relacional é parte da neurodivergência. Já é ali, posto que é difícil. Se para um adolescente normativo já é complexo e ele enfrenta todos os desafios, para uma criança neurodivergente, isso tem um potencial muito maior”, afirma Fabiana Vasconcelos, psicóloga do Instituto Dimicuida.Segundo a especialista, isso acontece porque, na neurodivergência, a dificuldade de interação social é maior, assim como a literalidade, ou seja, a tendência de compreender e processar a linguagem de maneira extremamente concreta.Helena* é psicóloga e atende um paciente com autismo que se envolveu com um culto na internet chamado “spawnismo”, dentro de um jogo disponível na plataforma Roblox. Segundo seu relato, os participantes do culto eram induzidos a acreditar que poderiam voltar à vida após um sacrifício. Seu paciente foi uma das vítimas, embora tenha sobrevivido. Procurado pela CNN Brasil, o Roblox não irá se posicionar sobre o assunto.“Quando a gente fala sobre o autismo, a gente tem essa questão muito literal”, afirma. “Se você tem uma ideia muito literal, é mais fácil que você faça isso, que cometa algum ato contra a sua própria vida”.De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o suicídio é uma das principais causas de morte entre jovens em todo o mundo. E o uso excessivo de telas está causando um impacto cada vez maior na saúde mental de crianças e adolescentes.“A saúde digital passou a ser uma fatia importante da vida dos adolescentes”, afirma Benito Lourenço, chefe da Unidade de Adolescentes do ICr (Instituto da Criança e do Adolescente) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.“O que era restrito às questões de sexualidade, crescimento físico, alimentação e esporte, hoje eu tenho que acrescentar à variação de algumas áreas sensíveis da vida do adolescente. E talvez a maior delas sejam os riscos digitais, riscos envolvidos nas atividades digitais”, completa.*À pedido da fonte, estamos usando um nome fictício para preservar sua identidade.Após processo por exploração, Roblox cria medidas de proteção infantil