Do benefício ao risco: trabalho híbrido entra na era da regulação

Wait 5 sec.

O trabalho híbrido nasceu como símbolo da modernização corporativa. Durante a pandemia, virou necessidade. Depois, transformou-se em benefício competitivo. Agora, começa a entrar numa nova fase: a do risco regulatório.Um relatório global divulgado pelo Global Employment Institute, da International Bar Association (IBA), mostra que empresas e governos ainda correm atrás das consequências jurídicas criadas pela rápida transformação do trabalho. O estudo ouviu especialistas de 48 países e aponta que inteligência artificial, monitoramento digital de funcionários, direito à desconexão, saúde mental e modelos híbridos já estão entre os principais focos de preocupação trabalhista no mundo.O diagnóstico é direto: os marcos regulatórios não acompanharam a velocidade da mudança.Segundo o relatório, a adoção acelerada da IA no ambiente corporativo está ampliando discussões sobre privacidade, transparência, proteção de dados e tomada de decisão algorítmica no trabalho. Ferramentas de monitoramento de produtividade, recrutamento automatizado e automação de fluxos passam a exigir novas regras — muitas delas ainda inexistentes em mercados relevantes.“Essa rápida adoção da IA está levando empregadores e reguladores a considerarem suas consequências legais e práticas, à medida que a tecnologia se torna uma parte cada vez mais normal da vida profissional”, diz Björn Otto, membro do conselho do IBA GEI.O Reino Unido, por exemplo, ainda não possui legislação específica para uso de IA em relações de trabalho. Já países como Japão, Suíça e Luxemburgo começam a estruturar normas mais rígidas sobre decisões algorítmicas e coleta de dados de funcionários. A União Europeia, por sua vez, já incorporou dispositivos específicos no AI Act voltados à proteção de trabalhadores.Mas talvez o dado mais revelador do estudo seja outro: a transformação digital deixou de ser apenas tecnológica. Ela passou a ser humana.Leia também:A IA virou o jogo: agora são os executivos que precisam provar produtividadeHíbrido mudou os conflitos do trabalhoDurante anos, o debate corporativo sobre trabalho remoto girou em torno de produtividade. As empresas queriam saber se funcionários trabalhavam mais ou menos em casa. Agora, a discussão mudou de lugar.Segundo o relatório da IBA, cresce globalmente a pressão sobre empresas relacionada a direito à desconexão; excesso de jornada; riscos psicossociais; burnout; obrigações de saúde mental; controle de produtividade; e segurança ocupacional em home office.“Questões relacionadas à saúde mental estão cada vez mais entrando no cerne da regulação no ambiente de trabalho”, afirmou Todd Solomon, integrante do Global Employment Institute da IBA.Na prática, o híbrido criou uma espécie de “zona cinzenta” do trabalho moderno. A fronteira entre vida pessoal e expediente ficou difusa. O escritório deixou de ser o único local de trabalho — mas as responsabilidades legais das empresas continuaram existindo.O estudo afirma que governos vêm criando estruturas legais para formalizar pedidos de trabalho flexível e remoto, enquanto empresas enfrentam crescente escrutínio sobre cumprimento de regras trabalhistas em modelos híbridos.O próprio relatório afirma que “garantir suporte à saúde mental para funcionários remotos tem sido uma responsabilidade cada vez mais importante para os empregadores há algum tempo”.Ao mesmo tempo, cresce também o movimento de retorno ao escritório. Segundo o levantamento, muitas organizações nos EUA já exigem presença física entre três e cinco dias por semana.O paradoxo é curioso: o mercado corporativo tenta trazer funcionários de volta justamente no momento em que os estudos mostram um esgotamento crescente da força de trabalho.Leia também:A nova ambição do trabalhador é ter tempo — não apenas dinheiroSaúde mental deixou de ser pauta “soft”Essa mudança aparece de forma explícita em outro levantamento divulgado nesta semana.Pesquisa do Wellhub obtida pelo Valor Econômico mostra que 89% dos líderes brasileiros afirmam que problemas de saúde mental elevam os custos das empresas.O estudo ouviu 150 executivos brasileiros e 1.515 líderes globais. E mostra que o tema deixou de ser tratado apenas como benefício corporativo ou iniciativa de bem-estar.Agora, aparece associado a produtividade; afastamentos; retenção; custo operacional; e desempenho organizacional.“Somos acostumados a remediar a doença em vez de financiar a prevenção”, afirmou Ricardo Guerra, CEO do Wellhub no Brasil.O dado conversa diretamente com uma tendência que já vinha aparecendo em pesquisas da Gallup, Deloitte e Gartner: o aumento da exaustão emocional em ambientes híbridos e digitalizados.Relatórios recentes da Deloitte Human Capital Trends já apontavam que líderes enfrentam dificuldade crescente para manter engajamento, confiança e senso de pertencimento em equipes distribuídas. Já a Gallup vinha mostrando deterioração consistente dos índices globais de bem-estar no trabalho.Agora, os novos estudos começam a ligar definitivamente os pontos:o trabalho híbrido não gerou apenas flexibilidade. Também ampliou fadiga, hiperconectividade e pressão contínua.,Leia também:Por que salário alto já não basta para manter os melhores talentosA próxima onda pode ser de disputas trabalhistasO relatório da IBA aponta ainda que disputas envolvendo demissões, indenizações e desligamentos seguem entre os temas mais litigados globalmente — e que reestruturações impulsionadas por IA tendem a ampliar esse cenário.Segundo o estudo, termos contratuais pouco claros, aplicação inconsistente de leis locais e justificativas para desligamentos já aparecem como gatilhos frequentes de judicialização.Ao mesmo tempo, cresce a pressão sobre empresas para demonstrar que algoritmos utilizados em recrutamento, avaliação ou gestão de desempenho não produzem discriminação ou vieses.No fundo, o que começa a emergir é uma mudança estrutural no próprio conceito de gestão corporativa.Durante décadas, empresas administraram presença física, jornada e produtividade dentro de escritórios relativamente previsíveis. Agora, precisam administrar saúde mental, privacidade digital, IA, trabalho remoto, flexibilidade e pertencimento ao mesmo tempo.O escritório voltou parcialmente. Mas o trabalho moderno continua tentando descobrir quais serão suas novas regras.Leia também:CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativoThe post Do benefício ao risco: trabalho híbrido entra na era da regulação appeared first on InfoMoney.