A inteligência artificial e a digitalização prometem simplificar processos, aumentar a produtividade e libertar tempo para tarefas de maior valor acrescentado. Mas, para André Pombinho, a tecnologia não é uma solução mágica para problemas organizacionais mal resolvidos.Durante a sua talk na Leading People, no dia 21 de maio, o responsável da Factorial recorreu a uma analogia inesperada para explicar os desafios da transformação digital nas empresas: a terapia de casal.«A tecnologia é o terapeuta de casal», afirmou, defendendo que muitas organizações procuram ferramentas para resolver problemas que, na verdade, exigem primeiro uma reflexão interna.Assista à talk completa:André Pombinho – A Tecnologia É Uma Força Ou Uma Limitação?A transformação digital começa antes da tecnologiaSegundo André Pombinho, um dos erros mais comuns das empresas acontece quando estas avançam para a digitalização sem analisarem previamente a maturidade dos seus processos. Na sua perspetiva, muitas organizações procuram soluções tecnológicas antes de compreenderem verdadeiramente aquilo que precisam de mudar.«Tudo começa quando saímos para o mercado à procura de uma solução para digitalizar os nossos processos empresariais, sem termos feito uma análise da necessidade, da importância e da maturidade desses processos que queremos digitalizar», explicou.Para o especialista, a adoção de tecnologia deve ser acompanhada por uma mudança de mentalidade, pela preparação das equipas e pela capacidade de identificar tarefas repetitivas que impedem os colaboradores de se focarem naquilo que realmente cria valor.O perigo do caos digitalizadoAo longo da intervenção, André Pombinho recorreu a um exemplo concreto para ilustrar o problema. Durante mais de um ano, a Factorial acompanhou uma multinacional que procurava implementar uma solução capaz de centralizar a gestão dos seus processos de recursos humanos. Apesar de várias reuniões e tentativas de adaptação, existia uma limitação relacionada com uma política interna específica de gestão do banco de horas.A empresa continua, segundo explicou, à espera de uma solução tecnológica capaz de resolver uma questão que depende, antes de mais, de uma decisão organizacional. É precisamente por isso que deixa um aviso às empresas: «É indiferente se a tecnologia estudou em Harvard, porque a única coisa que vamos fazer é digitalizar caos. E caos digitalizado continua a ser caos.» O problema nem sempre está na ferramentaPara André Pombinho, esta situação não é excecional. Pelo contrário, representa um padrão recorrente no mercado. O responsável da Factorial comparou o fenómeno à utilização de múltiplas aplicações para resolver a mesma necessidade ou até aos robôs aspiradores que prometem limpar a casa autonomamente.«Antes de utilizar o robô, o espaço que ele vai limpar tem que estar arrumado», recordou, explicando que a tecnologia só funciona quando existe preparação prévia. A metáfora serviu para reforçar uma ideia central: as organizações precisam de arrumar processos, eliminar burocracias desnecessárias e rever práticas obsoletas antes de avançarem para qualquer transformação digital.O verdadeiro bloqueio está dentro das organizaçõesNa visão de André Pombinho, a principal barreira à inovação não é tecnológica. «A única limitação que existe está na nossa incapacidade de revisitar processos obsoletos», afirmou.Segundo explicou, muitas empresas continuam presas a modelos de trabalho assentes em folhas de Excel complexas, trocas intermináveis de emails e grupos de WhatsApp que acabam por dificultar a colaboração e a eficiência.Sem uma revisão prévia dos processos, o risco é procurar no mercado uma ferramenta que resolva problemas que são, na sua essência, organizacionais e não tecnológicos. Encontrar a «alma gémea tecnológica»Para o responsável da Factorial, as empresas que conseguem rever processos, eliminar redundâncias e preparar as equipas estão mais bem posicionadas para beneficiar verdadeiramente da tecnologia.«Eventualmente vamos ter memória livre suficiente para encontrar a nossa alma gémea tecnológica», afirmou, numa das imagens mais marcantes da sua apresentação. A mensagem final foi clara: a tecnologia pode ser uma força poderosa de transformação, mas apenas quando existe trabalho prévio dentro da organização.«Se a tecnologia é uma força ou uma limitação, é uma decisão vossa. E vocês decidem antes de comprar, não depois.» Tenha acesso à galeria de imagens aqui.Tudo o que aconteceu na Leading People está disponível na Líder TV e no canal 560 da NOS.Além disso, à chegada, todos receberam a mais recente edição da revista Líder. Dentro do tema de capa – Condição Humana – encontram-se reflexões, entrevistas e artigos que aprofundam o debate deste dia.O conteúdo «Caos digitalizado continua a ser caos», alerta André Pombinho aparece primeiro em Revista Líder.