Bancos digitais ampliam crédito e inclusão, mas enfrentam alta da inadimplência

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Os bancos digitais abriram as portas do sistema bancário para cerca de 61 milhões de brasileiros, revolucionando a concessão de crédito no Brasil. Esses neobanks passaram a atender com exclusividade 47,1% dos brasileiros com cartão de crédito e 51,8% com empréstimo pessoal. Essa inclusão financeira sem precedentes, no entanto, trouxe na bagagem um grande desafio: a inadimplência, que vem aumentando em ritmo acelerado, chegando a uma taxa de 20,3% em cartão e 13,93% no empréstimo pessoal.É o que mostra o estudo “Neobanks: a nova fonte de crédito 2026”, elaborado pela empresa de dados Equifax BoaVista, a partir da análise de mais de 165 milhões de CPFs entre 2021 e 2025, e divulgado durante um debate promovido pela Equifax BoaVista, nesta terça-feira (02) em São Paulo.O crescimento acelerado de 360% no saldo ativo dos neobanks foi impulsionado principalmente pela concessão de crédito a consumidores sem histórico bancário. Em 2025, 41,4% dos cartões emitidos por bancos digitais representavam o primeiro cartão de crédito de seus usuários. Nos bancos tradicionais, esse percentual foi de apenas 4,9%.“Até o tempo para abertura de conta foi reduzido para minutos num celular, permitindo conseguir o cartão na hora”, disse o vice-presidente comercial de Key Accounts da Equifax, Silvio Santana, acrescentando que essa redução de barreiras ajudou a acelerar ainda mais a expansão durante a pandemia.Segundo Marcos Coque, diretor de Analytics da Equifax BoaVista, foi justamente esse avanço que obrigou os bancos tradicionais a também acelerar seus processos de inovação para não perder espaço. “Os neobanks vieram com o foco nessas pessoas que estavam foram do sistema, derrubando as barreiras. E para quem precisa de dinheiro não importa se vem de um grande banco ou de um banco digital”, explica.O economista Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), acrescenta que essa concessão de crédito deixou de ser um produto acessível apenas para uma parcela da população e passou a alcançar grupos historicamente excluídos do sistema financeiro. “E isso foi extremamente positivo porque passamos anos por crises sem crédito, e não há desenvolvimento econômico sem crédito”, disse.   Mudança de perfil E os dados mostram que os bancos digitais cresceram justamente onde os tradicionais encontravam maiores dificuldades para avançar. Além dos consumidores sem histórico de crédito, os neobanks ampliaram sua presença entre pessoas de menor renda e faixas etárias mais elevadas, desconstruindo a percepção de que os bancos digitais seriam um fenômeno restrito aos mais jovens.Entre 2021 e 2025, a participação de consumidores com renda de até um salário-mínimo entre os usuários de cartão de crédito saltou de cerca de 6% para mais de 20%. No empréstimo pessoal, esse grupo passou de aproximadamente 5% para mais de 14%.Ao mesmo tempo, houve crescimento relevante da participação de clientes entre 36 e 50 anos e também entre 51 e 70 anos, indicando o amadurecimento da base de usuários dos bancos digitais.Segundo os executivos presentes ao debate, a combinação entre tecnologia, abertura simplificada de contas e atendimento integral pelo celular foi determinante para acelerar esse processo.Leia Mais: Conhecimento sobre bancos digitais dobra, com adoção destacada entre os mais jovensCusto do crescimento aceleradoO mesmo movimento que ampliou o acesso ao crédito também elevou o risco das carteiras. Segundo a Equifax BoaVista, o percentual de inadimplentes em cartões de crédito nos bancos digitais saltou de 7,71% em 2021 para 20,31% em 2025. No mesmo período, a base de clientes cresceu 14,95%, enquanto o número de inadimplentes avançou 163,33%.Em outras palavras, o crescimento dos atrasos ocorreu em velocidade muito superior à expansão do mercado. No empréstimo pessoal, o cenário é semelhante. A taxa de inadimplência entre clientes dos neobanks passou de 6,55% para 13,93% entre 2021 e 2025. Apenas entre 2024 e 2025, o número de inadimplentes aumentou 42%, enquanto a base de clientes cresceu 32,7%.Durante o debate, especialistas ressaltaram que esse avanço não significa necessariamente falha dos bancos digitais, mas reflete o perfil dos consumidores atendidos e a necessidade de educação financeira para ajuda-los a lidar com as finanças.“Os neobanks assumiram um risco que os bancos tradicionais historicamente evitavam. Eles passaram a conceder crédito para pessoas sem histórico bancário, de menor renda e com pouca experiência no uso de produtos financeiros”, observou Gamboa.Mas, segundo Marcos Coque, a inadimplência alta só é crítica para quem não espera. “Muitos dessas empresas aceitaram o risco e já estavam preparadas para isso, utilizando os dados disponíveis em seus sistemas para acompanhar o comportamento do cliente e ir ajudando a lidar com as dificuldades ao longo da jornada”, explica.Para o diretor de Analytics da Equifax BoaVista, a informação mais importante é que de cinco clientes só um está inadimplente (20%). “Outros quatro estão pagando as contas, ou seja, a maioria das pessoas que foram incluídas no sistema bancário está em dia”.Inclusão financeiraA pesquisa aponta que o desafio dos próximos anos será equilibrar ampliação do crédito e sustentabilidade das carteiras. Para Ana Paula Fontana, diretora comercial da Equifax BoaVista, a inclusão financeira precisa ser acompanhada por educação financeira e ferramentas que ajudem os consumidores a utilizar o crédito de forma saudável.Essa preocupação aparece de forma clara entre os consumidores de baixa renda. No cartão de crédito, a taxa de inadimplência desse grupo saltou de aproximadamente 9,5% para 33% entre 2021 e 2025. No empréstimo pessoal, o índice passou de pouco mais de 8% para 25%.Segundo os especialistas, parte desse movimento decorre da própria curva de aprendizado de um público que passou a ter acesso ao crédito pela primeira vez.“A inserção econômica é positiva e necessária, mas ela exige mecanismos de acompanhamento. No entanto, o impacto social é muito relevante”, afirmou Ana Paula.Confiança segue com os tradicionaisApesar da expansão dos bancos digitais, a pesquisa mostra que os consumidores continuam associando os bancos tradicionais à segurança e à estabilidade. Segundo levantamento, 66,9% dos brasileiros acreditam que os bancos tradicionais estão mais preparados para enfrentar crises econômicas. Além disso, 61,15% consideram uma instituição tradicional como seu principal banco, enquanto 71,5% afirmam que não trocariam completamente um banco tradicional por um digital.Para os especialistas, isso mostra que o mercado caminha para um modelo híbrido. Os consumidores utilizam bancos digitais para crédito, conveniência e serviços do dia a dia, mas continuam recorrendo aos bancos tradicionais para investimentos, aplicações de longo prazo e produtos que exigem maior percepção de segurança.Qualidade do créditoA avaliação predominante entre os especialistas presentes ao debate é que a fase de expansão acelerada dos bancos digitais foi bem-sucedida, mas o próximo desafio será aprimorar a qualidade da concessão de crédito. Os modelos de análise precisarão incorporar um volume cada vez maior de informações para avaliar adequadamente consumidores com perfis mais complexos.“O futuro exigirá sistemas capazes de integrar dados financeiros e não financeiros, permitindo avaliações mais precisas e concessões mais responsáveis”, afirmou Coque.A conclusão do estudo é que os bancos digitais devem continuar ganhando espaço no mercado brasileiro de crédito. A diferença é que, daqui para frente, o sucesso não será medido apenas pela quantidade de clientes conquistados, mas pela capacidade de transformar inclusão financeira em relacionamento sustentável de longo prazo.“O crédito é fundamental para o desenvolvimento econômico e social, porque ele se torna um colchão que amortece os impactos da oscilação de renda, especialmente entre a população de mais baixa renda”, resume o economista da Associação Comercial.Neobanks em números– 47,1% dos usuários de cartão ativo são atendidos exclusivamente por bancos digitais– 51,8% dos clientes com empréstimo pessoal ativo estão nos neobanks– 41,4% dos cartões emitidos pelos bancos digitais foram o primeiro cartão do consumidor– Participação dos neobanks no crédito saltou de 11,8% para 31,8% entre 2021 e 2025– Inadimplência no cartão de crédito subiu de 7,71% para 20,31%– Entre consumidores de até um salário-mínimo, a inadimplência no cartão chegou a 33%– Base do estudo: mais de 165 milhões de CPFs analisados entre 2021 e 2025The post Bancos digitais ampliam crédito e inclusão, mas enfrentam alta da inadimplência appeared first on InfoMoney.