O governo federal reagiu com forte tom político à conclusão preliminar da investigação da Seção 301 conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Após reunião realizada nesta segunda-feira (1º), o vice-presidente Geraldo Alckmin e integrantes da equipe econômica classificaram como “injusta” e “descabida” a recomendação que pode resultar na imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros.Durante coletiva de imprensa, Alckmin afirmou que o governo recebeu a decisão com indignação e rebateu um a um os argumentos apresentados pelos norte-americanos. O vice-presidente destacou que o PIX, citado na investigação, é um patrimônio nacional e não prejudica empresas estrangeiras. Segundo ele, empresas americanas e brasileiras recebem tratamento igual no país.O sistema de pagamentos instantâneos se tornou o principal símbolo da reação do governo. O secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o PIX não está e não estará na mesa de negociação. Já o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, classificou o sistema como o maior símbolo da soberania financeira brasileira e garantiu que será protegido pelo governo.Os representantes também contestaram outros pontos da investigação, como os acordos comerciais do Mercosul, a política ambiental, o combate à corrupção, a proteção à propriedade intelectual e as tarifas aplicadas ao etanol. Segundo o governo, os Estados Unidos são os principais beneficiários do sistema brasileiro de patentes, respondendo por cerca de 30% dos registros analisados pelo INPI.Alckmin ainda argumentou que a balança comercial favorece amplamente os Estados Unidos. De acordo com dados apresentados pelo governo, os norte-americanos registraram superávit superior a US$ 40 bilhões em bens e serviços na relação comercial com o Brasil apenas no último ano. Além disso, 76% das importações vindas dos Estados Unidos entram no mercado brasileiro sem pagamento de imposto de importação.A coletiva também foi marcada por críticas à oposição. Alckmin afirmou que “falsos patriotas” estariam sabotando os interesses nacionais ao atuar politicamente junto ao governo americano. Márcio Elias Rosa citou nominalmente o senador Flávio Bolsonaro e afirmou que iniciativas da oposição têm dificultado o avanço das negociações bilaterais.Em nota divulgada após a reunião, o governo foi além e afirmou que a investigação da Seção 301 teve início em julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro. O texto acusa integrantes da oposição de conspirarem contra os interesses nacionais e de sabotarem o diálogo construído entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.Segundo o governo, as negociações entre Brasil e Estados Unidos continuam em andamento e devem prosseguir até o encerramento da investigação, previsto para 15 de julho. A estratégia é intensificar o diálogo com autoridades americanas e mobilizar também o setor privado dos dois países para evitar que as recomendações preliminares se transformem em tarifas efetivas.Caso isso ocorra, o governo estima que cerca de 21% das exportações brasileiras para os Estados Unidos possam ser atingidas, especialmente nos setores de máquinas e equipamentos, plásticos, madeira, papel, calçados, ferro fundido e pescados.Apesar das críticas, o Palácio do Planalto afirmou que continuará apostando na negociação diplomática, mas ressaltou que poderá utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica para responder a eventuais medidas consideradas injustas contra o Brasil.