O bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, de 64 anos, foi eleito a 14 de abril presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) para o triénio 2026-2029, depois de seis anos como vice-presidente de D. José Ornelas. Em entrevista à Líder, conta que recebeu a notícia menos como reconhecimento de um percurso do que como «uma responsabilidade pesada», para a qual duvidou ter «as devidas competências».Natural de São Mamede, na Batalha, ordenado padre em 1985 e bispo desde 2011, D. Virgílio situa o início do caminho aos nove anos, na catequese, quando ouviu que se podia ser «amigo de Jesus a vida toda». Passou pelo seminário de Leiria, estudou Teologia em Coimbra e especializou-se em Exegese Bíblica no Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, aos 30 anos, com estada na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, para onde diz que gostaria de voltar.Ao longo da conversa, o presidente da CEP defende que a Igreja precisa de ouvir antes de falar, recusa que o cristianismo seja aprisionado por qualquer partido ou movimento e olha a chegada de imigrantes de outras religiões como um desafio para um Ocidente que se reconhece «debilitado». Garante que o trabalho de prevenção dos abusos «vai continuar» e, sobre Gaza, admite que a Igreja não pode fazer muito «para além de rezar» e de falar. No fim, recusa a ideia de um «modo bispo»: «Sou sempre o mesmo Virgílio».Recorda-se do momento em que percebeu que queria dedicar a vida à Igreja? Foi uma certeza, uma descoberta ou uma inquietação que foi crescendo?Recordo-me, mas eram coisas de crianças, evidentemente. A primeira vez que pus a hipótese de poder ir ser padre foi quando tinha, penso que à volta dos nove anos, agora não consigo precisar. Foi por ouvir, na catequese em que eu andava, o sacerdote dizer: «Quem quiser, pode ser amigo de Jesus a vida toda».Pensei cá comigo, somente comigo: «Eu gostaria». Depois, quando cheguei à escola, que se chamava escola primária, acabei por dizer isso à minha professora, e ela disse-me assim: «Então, se tu quiseres, podes ser padre». Foi o ponto de partida. Foi uma coisa de criança, naturalmente, tão simples, tão espontânea, o que não significa que fosse uma certeza, nem que fosse um percurso acabado.Eram coisas de crianças. Depois acabei por ir, de facto, para o seminário de Leiria, que na altura, no início dos anos setenta, funcionava mais como uma residência: nós residíamos no seminário, mas tínhamos as aulas nas escolas públicas, concretamente no ciclo preparatório e depois no chamado Liceu Nacional de Leiria, onde frequentei a escolaridade. Foi assim que se iniciou este processo que veio a dar naquilo que eu agora sou, evidentemente.Estudou Teologia, especializou-se em Exegese Bíblica em Roma e passou também por Jerusalém. O que encontrou no estudo da Bíblia que não teria encontrado apenas na experiência pastoral e de que forma esse percurso intelectual transformou a sua própria fé?Fiz o curso de Teologia durante seis anos em Coimbra, onde agora me encontro. Ali, no início dos anos oitenta, havia um Instituto Superior de Estudos Teológicos. Passei seis anos num ambiente muito agradável. Tínhamos uma residência e foi um tempo muito feliz. Foi aí que fui descobrindo, a partir do estudo, a Filosofia nos primeiros dois anos, depois a Teologia. Fui conhecendo a realidade, porque uma coisa é ter sonhos infantis, ou até da adolescência, juvenis, com as crises que isso também implica do ponto de vista da vivência da fé.Não é tudo assim tão linear e tão certinho como às vezes as pessoas imaginam, mesmo nas pessoas que hoje são padres, ou que hoje são bispos, ou que hoje são católicos. Há com certeza períodos da vida em que se põem as questões de uma forma diferente, a partir da razão, do pensamento, da experiência, da experiência de vida. Foi isso tudo que veio a acontecer comigo.Agora, devo dizer que o estudo da Bíblia foi um momento muitíssimo marcante da minha vida. Fui para Roma estudar a Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico com trinta anos. Até pensava: se calhar, já devia ter começado há mais tempo. Mas é um curso tão envolvente, que tem na base fundamental o conhecimento das línguas bíblicas, o hebraico e o grego. Esse é o centro, concretamente naquela escola, mas depois é uma abertura à exigência bíblica, à interpretação, à cultura, à história, à geografia, à literatura. É um mundo imenso de outras ciências auxiliares que nos dão uma visão não só da Bíblia, mas também do panorama das ciências humanas, muitíssimo alargado.Foi uma experiência muito forte, muito marcante, que me deu uma visão da Bíblia diferente daquela que eu tinha pela cultura, pela tradição, ou pelas abordagens mais simplistas que às vezes temos da própria Bíblia.Depois, em Jerusalém, fiquei a viver na chamada Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, que é dos padres dominicanos, mas que tem um protocolo de participação e cooperação com o Departamento de Investigação Científica da França. É uma escola que nos enche, porque estamos em contacto não só com a Bíblia, mas também com a cultura local. Tem uma forte componente arqueológica, do estudo dos textos antigos. Toda aquela região envolvente são, no fundo, os inícios das nossas civilizações. Foi um percurso muitíssimo agradável, que eu não me importaria de continuar se tivesse tempo disponível. Era ali que eu gostaria de voltar.Acredita que esse percurso foi fundamental para saber encontrar Deus, ou seja, para construir a relação ou aprender a viver com esse mistério?É evidente que, de algum modo, esse mistério fez sempre parte da minha vida, embora tenha tido momentos de alguma insegurança, de questões, de perguntas, de interrogações. Será que tem sentido, será que não tem sentido, será que tem razão de ser? E até do ponto de vista pessoal: será que é por aqui o meu caminho? Mas a questão da consciência do mistério que nos envolve pode depois ter diferentes designações. Alguns poderão chamar-lhe Deus, outros poderão chamar-lhe o mistério da vida, ou o mistério da alma, ou da condição humana e do mundo, do que se vê e do que se não vê. De algum modo, mantive sempre viva essa consciência desse mistério.Agora, uma coisa é este percurso quase normal que algumas pessoas têm a possibilidade de fazer, e outra coisa é ter a possibilidade de entrar em profundidade no pensamento, na razão, no estudo, na reflexão, na teologia e, concretamente, na Bíblia, que é um documento absolutamente inesgotável. Inesgotável, quer para quem é crente, mas também para as pessoas que procuram na vida algo de diferente, que nem sequer têm a possibilidade de serem crentes, de acreditarem em Deus, de acreditarem em Jesus, de estarem na Igreja. Acaba por ser um livro que tem importância mesmo a esse nível.Em abril de 2026 foi eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa para o triénio até 2029, depois de vários anos como vice-presidente. Quando recebeu a notícia, qual foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu? Sentiu mais o reconhecimento de um percurso ou o peso de uma responsabilidade?Fui vice-presidente durante seis anos. Também tive a possibilidade de fazer parte do chamado Conselho Permanente ao longo de muito tempo, praticamente desde que sou bispo. O que pensei foi: «Olha, é uma responsabilidade». E até pensei: é uma responsabilidade pesada, para a qual não sei se tenho as devidas competências, ou a preparação mais adequada, ou até a forma de ser que este tipo de cargos e de missões exige. Porque é preciso estar em sintonia com os outros, é preciso estar aberto a ouvir os outros, é preciso criar sinergias, é preciso promover a unidade de pensamento, às vezes, no meio da diversidade, para chegarmos a conclusões.Não entendi a eleição nem como um prémio nem como reconhecimento. Entendi-a mais como um serviço, talvez por já ter exercido a missão de vice-presidente nos últimos anos. Houve uma perspetiva de alguma continuidade que as pessoas acharam. Participei na votação, que é secreta, o que é o mais livre de todos, e as pessoas acharam que devia ser eu. Assumi com alguma apreensão, mas também com a disponibilidade que deve caracterizar sempre o homem que está numa missão como aquela em que eu estou.A liderança de uma Igreja será muito diferente da liderança de uma empresa ou de uma instituição política. É possível medir o sucesso de uma liderança espiritual?A liderança espiritual é muito difícil de medir. Nós nunca percebemos exatamente qual é o alcance ou o efeito que tem, na vida das pessoas, no interior das pessoas, nos sentimentos e no coração das pessoas, aquilo que é a dimensão espiritual da sua existência. Há alguns sinais exteriores, que podem ser mais evidentes ou menos evidentes. Mas nunca se pode preencher uma tabela com um conjunto de requisitos, porquehá uma dimensão absolutamente insondável, na qual não se pode penetrar. E a dimensão espiritual participa muito desta dimensão, vamos dizer, quase oculta, daquilo que se passa no íntimo de cada pessoa.No entanto, neste caso, é uma liderança que tem a ver com uma Igreja que, sendo espiritual, também tem esta dimensão organizativa. Tem algo de comum com aquilo que se passa com muitas outras entidades ou instituições, sejam elas de que tipo forem. Aqui é necessária alguma capacidade e alguma disponibilidade para pôr as pessoas em diálogo, para as mobilizar em causas que são comuns, e na definição dessas mesmas causas comuns, daquilo em que devemos apostar e desenvolver esforços. Essa é a missão mais complexa de todo este processo.O problema da Igreja em Portugal passa por ter alguma dificuldade em falar às pessoas ou em ouvi-las?Temos as duas dificuldades e as duas possibilidades. Hoje falamos mais na necessidade de ouvir as pessoas. Porque quando uma instituição, uma entidade, ou um conjunto de pessoas que a dirigem estão demasiado convencidos de que não precisam de ouvir ninguém, que têm conhecimento de tudo e capacidade de responder a tudo, as instituições começam a entrar em dificuldade. Por isso, hoje apelamos muito, na Igreja, à capacidade de ouvir o que as pessoas têm a dizer e de olhar para aquilo que as pessoas vivem.O Concílio Vaticano II usou uma expressão que está muito marcante hoje na vida da Igreja, que é ler os sinais dos tempos. O que é que a realidade diz? Não é para que nos submetamos à realidade, mas para que, tendo um conhecimento da realidade, possa haver uma linguagem mais adequada, possa haver atitudes mais condizentes. E para que não estejamos, como dizemos, a falar no meio de um deserto, ou a usar uma linguagem que as pessoas nem sequer têm disponibilidade para ouvir, ou que nem têm, porventura, dado o seu estilo de formação, possibilidade de ouvir e de compreender.Portanto, escutar. Mas depois, é evidente que esta questão da linguagem é essencial, e a maior parte das vezes fracassamos nas nossas relações e até criamos abismos entre nós, sejam instituições, sejam pessoas, porque parece que não falamos a mesma linguagem, ou não nos conhecemos, ou não nos ouvimos, ou não temos a linguagem adequada. Essa é uma das dificuldades que também sentimos muito: procurar uma nova forma e uma capacidade de reconhecer as pessoas, a nova forma como procuram Deus, até.Houve um sínodo na Igreja sobre a família, chamado «A Alegria do Amor». Foi talvez, nos últimos tempos, o momento mais marcante de uma certa mudança de perspetiva. Temos a tendência de fazer generalizações e idealizações. Falamos na família, no ideal de família que temos, e temos efetivamente um conjunto de princípios. Mas foi o Papa Francisco que nos chamou à razão.É preciso não só ter um ideal de família, um conjunto de ideias assentadas acerca da família, mas conhecer a realidade das famílias.A realidade, como aliás ficou dito, é muitas vezes superior à própria ideia. Precisamos de ter uma ideia, evidentemente, mas temos de ter uma capacidade muito forte de conhecer a realidade concreta, porque ela também diz alguma coisa sobre o modo como há de ser conduzido o processo, mesmo dentro da própria Igreja.Se um jovem lhe disser hoje que não precisa da Igreja para ser boa pessoa, que não precisa da religião para ter princípios e que encontra mais humanidade fora das instituições, o que lhe responderia?Já ouvi isso muitas vezes. Os jovens com quem contacto são, a maior parte das vezes, os que estão dentro do círculo da Igreja, mas às vezes contacto também com outros. Mesmo os que estão dentro do círculo eclesial têm dúvidas acerca da importância, da relevância que possa ter a fé cristã ou a Igreja na sua vida. E às vezes fazem inclusivamente afirmações para provocar, que nascem sempre dentro deles mesmos e são absolutamente legítimas.É o que eu digo: uma pessoa pode ser boa pessoa mesmo sem estar nas fileiras, por assim dizer, da Igreja. Pode ser boa pessoa porque nós, quase naturalmente, e eu acredito que pelo facto de sermos criados por um Deus que é bom, já temos a possibilidade de ser boas pessoas. Isto, concretamente o amor, que é uma realidade dominante e fundamental na vida de qualquer pessoa e de qualquer sociedade. O amor não é um exclusivo de algumas pessoas. É uma visão cristã, sempre a minha, como percebe. Pelo facto de ser criada por Deus, eu pressinto que qualquer pessoa tem essa possibilidade, essa capacidade e esse dinamismo interior de perceber o que é o amor e de o viver.Portanto, eu deixo esses jovens tranquilos. O que pretendo é talvez ajudar ou facilitar que ele seja capaz de dar o passo seguinte. Porque o passo da fé supõe este reconhecimento, mas é um passo seguinte. E o passo da fé é uma realidade muito misteriosa. Conheço pessoas que me dizem assim: «Eu gostaria muito de acreditar em Deus como vocês e não consigo acreditar». E conheço pessoas que acreditam quase de uma forma natural. E também conheço alguns que fazem um esforço tremendo, do ponto de vista do uso da razão, para encontrarem razões para crer ou para não crer. Para se afirmar: «Eu quero afirmar-me como ateu», mas têm algumas dificuldades em encontrar a argumentação, porque isto não é só uma questão de argumentação. Tem a ver com aquilo que nós somos, com os nossos sentimentos, com o nosso íntimo, e uma parte da realidade é também da ordem do mistério, que eu não sou capaz de explicar.Porque é que, dentro de uma casa, há dois irmãos, e um é católico, crente e cristão, e ao lado está outro que diz que não é? Tiveram os mesmos pais e o mesmo percurso. Há uma parte da realidade que eu não consigo explicar, evidentemente.Vivemos numa sociedade hiperconectada, mas profundamente marcada pela solidão. A Igreja continua a saber estar ao lado de quem sofre ou também precisa de reaprender a proximidade?Esse é um dos grandes problemas das sociedades modernas, a par, com certeza, de muitos outros. É praticamente impossível para uma pessoa inserida na sociedade, na cultura e no mundo de hoje não estar conectada pelas vias em que todos estamos efetivamente conectados. Corremos esse perigo e é uma realidade muito presente. As gerações mais novas estão a senti-lo de uma forma mais premente, até porque têm uma forma de estar ligadas umas às outras muito mais marcada pelas tecnologias, pelas redes. O problema da solidão sempre existiu, porque a solidão tem a ver com as condições exteriores da vida de uma pessoa, com os condicionalismos em que se encontra, com a possibilidade de ter ou não ter relações de proximidade, de encontro, de família, de familiaridade, de amor e de amizade.Mas depois acaba por ser uma realidade muito do foro interior. Há pessoas que estão rodeadas de tudo e de todos e sentem-se as mais solitárias de todas. E há pessoas que às vezes parecem ser capazes de assimilar o tempo do silêncio e o afastamento, naturalmente moderado, porque se uma pessoa se afasta sempre das outras, alguma coisa evidentemente poderá estar mal.Agora, essa atenção ao acompanhamento, à proximidade, ao diálogo, à inclusão das pessoas e à criação de laços é uma preocupação e tem de ser cada vez mais uma preocupação da Igreja. Nos pequenos meios há um tipo de solidão: as pessoas estão afastadas umas das outras porque as casas são distantes, porque são idosas. Nos grandes meios é por outros motivos. Mas há um problema de solidão que se vive e que hoje alastrou. É transversal às diferentes sociedades e às diferentes regiões onde as pessoas podem residir ou trabalhar. É uma atenção que tem de ser cada vez maior, porque o que conta é a pessoa, e as relações entre as pessoas são essenciais para que ela se sinta bem, para que se sinta integrada e, portanto, para que não sinta o peso da solidão.Portugal está a mudar rapidamente na sua composição cultural e religiosa. A imigração trouxe novas comunidades, uma população muçulmana cada vez mais visível. Como é que a Igreja Católica olha para esta transformação? Pode a convivência entre cristãos e muçulmanos tornar-se uma oportunidade de aproximação e de enriquecimento mútuo?As mudanças foram sempre complexas e são sempre portadoras de algumas dificuldades e de alguns problemas, precisamente de relação.No nosso caso, também já provocámos este tipo de efeitos noutros países do mundo. Concretamente, a nossa migração, bastante relevante, para França, para o Luxemburgo, para os Estados Unidos, embora seja uma sociedade maior, e para o Canadá, mas particularmente aqui na Europa, o exemplo de França, da região de Paris. Fomos um elemento a provocar mudanças. Chegámos ali pobres, a viver em condições, de facto, impróprias, e fomos esse desafio. Felizmente, a nossa comunidade de portugueses tem vindo a integrar-se progressivamente e hoje podemos dizer que está até muitíssimo bem integrada nos lugares, mas criou alguma apreensão.Estamos agora a viver deste lado esse mesmo tipo de fenómeno. É evidente que há apreensões, há algumas dificuldades e há alguns medos que têm de ser ultrapassados. Têm de ser ultrapassados porque uma pessoa nunca pode ser, nem deve ser, uma ameaça para outra pessoa. Ou um povo, uma comunidade, nunca pode, nem deve ser, uma ameaça para outro povo ou para outra comunidade, desde que sejamos capazes de viver e de conviver naquela harmonia, com aquele espírito de integração e de acolhimento, que depende de todas as partes. Não depende só da parte que acolhe, nem depende só da parte que chega. Depende de todas as partes.No nosso caso, na atualidade, recebemos de modo especial povos que têm outra identidade religiosa que não a nossa, quer os que vêm do Oriente, quer mesmo muitos dos que vêm do Brasil, porque no Brasil há hoje uma diversidade muitíssimo grande de confissões e de igrejas cristãs. Felizmente, o Concílio Vaticano II trouxe-nos um documento muito importante acerca não só da liberdade religiosa, mas também da necessidade de vivermos as relações inter-religiosas e também ecuménicas com o espírito aberto. Não temos de impor. Podemos propor, e devemos propor, aquilo que é a nossa civilização, a nossa cultura, os elementos fundamentais, mas não tem de ser uma imposição. O respeito mútuo é que há de ser o elemento fundamental a liderar as nossas relações.E depois, quanto mais estivermos fortalecidos, interiormente e exteriormente, naquilo que é a nossa condição, a nossa tradição, neste caso judaico-cristã, mais condições temos para fazer perceber e até para acolher aqueles que chegam com outra visão diferente.O problema maior é quando estamos debilitados, nós próprios, no Ocidente. Concretamente em Portugal, já estamos muitíssimo debilitados do ponto de vista civilizacional, cultural e religioso. Já não há, por assim dizer, uma linha fundamental a orientar-nos e a defender-nos, e sentimos que o que vem, vem à conquista, porque nós próprios já estamos hesitantes, estamos fragmentados. Numa debilidade que já não nos permite afirmar com convicção e com alguma segurança aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de continuar a ser.Portanto, a via é sempre a do diálogo, do encontro, da aproximação, do conhecimento. Quando desconhecemos, desconfiamos. Não temos outro caminho, nem em Portugal, nem na Europa, nem no mundo.O que sente quando vê o cristianismo, também em Portugal, ser utilizado como bandeira de movimentos que parecem contrariar os próprios princípios do Evangelho? Deve a Igreja assumir uma posição mais frontal perante esta instrumentalização?Felizmente, o cristianismo teve e continua a ter capacidade para se implantar em todas as culturas, em todos os lugares. Agora, não pode, de facto, deixar-se aprisionar por um movimento, por um grupo, por um partido, fosse por quem fosse. Quando isso aconteceu, foi sempre negativo, não só para a humanidade, para as sociedades, mas também para a própria Igreja. Temos de procurar ser livres no meio da sociedade muitíssimo polarizada em que estamos a viver, inclusivamente do ponto de vista político.Portanto, não nos podemos deixar aprisionar. Também não vamos andar a fazer guerra contra este partido, contra aquele partido, contra esta ideologia. Temos é de apresentar com mais força e com mais convicção aquilo que é o nosso modo de ver e de pensar, sem nos deixarmos aprisionar por ninguém.Ninguém tem o direito de usar o nome da fé cristã ou da Igreja Católica para outras finalidades que não a da dimensão espiritual da nossa existência, que tem consequências, evidentemente, ao nível ético, ao nível económico, ao nível político, mas que não são passíveis de nenhum aprisionamento por parte de ninguém. Também para evitar crises reputacionais: a Igreja passou, há uns anos, em Portugal, pela questão da reparação relativamente aos abusos sexuais. Como é que recuperou essa confiança, como é que se vai recuperando? É um trabalho que se vai fazendo devagar, também em articulação com outras instituições?Esse é um trabalho de longo fôlego. Tem os seus momentos fortes e muito marcantes, decisões que têm de ser tomadas em cada período e ações que têm de ser realizadas em cada momento. Mas tem de fazer parte do nosso modo de estar no mundo dar continuidade a um processo de prevenção, de escuta, de conhecimento da realidade, de acompanhamento das pessoas e, sobretudo, um processo de formação das pessoas que estão no âmbito eclesial, que é o meio em que nos movemos, sabendo que é necessário que se alargue a toda a sociedade.Ocupamo-nos com esta dimensão própria da Igreja para que realidades como essas, que estão totalmente desconfiguradas daquilo que é a mensagem, tanto do Evangelho como a que a Igreja propõe, nunca mais voltem a acontecer. A formação é fundamental, para todas as pessoas que se movem dentro da Igreja.Queremos que os espaços da Igreja sejam, a todos os títulos, seguros, sob todos os pontos de vista, mas de uma forma muito especial no que diz respeito à segurança das crianças e das pessoas em situação de maior vulnerabilidade, evidentemente.Isso é um trabalho que está em curso e vai continuar na Igreja em Portugal, não há nenhuma dúvida sobre isso.Perante a situação em Gaza, o sofrimento da população civil e as crises humanitárias, como a catástrofe no Sudão e noutros lugares, que responsabilidade pode a Igreja Católica ter, além da oração e dos apelos à paz, que os papas têm feito com alguma regularidade? Considera que a comunidade internacional, incluindo a Europa, tem sido suficientemente firme na defesa da dignidade humana e do povo palestiniano?É evidente que, enquanto Igreja, temos a nossa cota-parte de responsabilidade. Não podemos fazer muito para além de rezar, como disse, e de falar, de manifestar que a dignidade humana deve ser respeitada em todo e qualquer lugar e que não pode haver nada que se sobreponha a ela.Quanto aos Estados, podem de facto fazer muito e fazer mais. Às vezes também é difícil saber o como. Percebemos que há Estados que apoiaram concretamente a política dos dois Estados para aquele território, alguns mantiveram-se… A situação é tão complexa que o que gostaríamos era que a dignidade humana, a segurança das pessoas, o bem-estar e o respeito por todos, sejam eles judeus, sejam árabes, sejam de outra etnia qualquer, fossem respeitados, e também os seus bens.A comunidade internacional também tem feito alguma coisa. A voz das Nações Unidas levantou-se, mas encontra, às vezes, muralhas demasiado fortes e poderosas, que não permitem que a voz seja ouvida ou que se mude de rumo e de estratégia.Vivo muito preocupado com aquilo que se passa nessa região, até porque para mim toda aquela região tem um significado grande, pelo facto de lá ter passado. Por ali ter ido muitas vezes em visita, tanto ao Líbano, à Jordânia, a Israel, ao Egito. É uma região que me interessou sempre muito do ponto de vista dos estudos bíblicos, da arqueologia, da geografia e da história. Tenho aquela região no coração e custa-me muito ver qualquer povo, mas de uma forma especial aquele povo tão pobre, a viver no meio do nada. Quando ouço os testemunhos daquilo que por ali se passa, particularmente nos encontros que temos ao nível da Igreja Católica, ficamos muitíssimo preocupados.Fora o problema da própria liberdade, e da liberdade religiosa, que não é uma questão de menor importância. Quando se põe em causa a liberdade das pessoas, incluída a liberdade religiosa e o bem-estar das pessoas, e elas não são tratadas com a dignidade que merecem, a comunidade internacional, o mundo está mal. O mundo, de facto, está efetivamente com problemas muito graves.Depois de tantos anos a ouvir pessoas, a aconselhar, a mediar conflitos e a lidar com as inquietações dos outros, ainda consegue chegar a casa e desligar o modo bispo? O que faz para descontrair e ser simplesmente o Virgílio?Não sei. Procuro viver as coisas com intensidade, mas acho que nunca, talvez seja um defeito meu, me vesti muito do modo bispo, do ponto de vista de uma carapaça que dá para aguentar tudo, que serve para tudo. Sempre fui uma pessoa com as debilidades próprias, também com os sentimentos. É evidente que, ao estar ainda nalgumas funções… mas acho que nunca me senti assim um super-bispo e, portanto, também não tenho de despir essa carapaça para estar com as pessoas.Sinto-me sempre bem no convívio, no encontro. Dialogamos, conversamos, seja nas celebrações litúrgicas, seja nos outros momentos. Nem sinto complexo, sinto-me à vontade e sinto sempre um acolhimento muito bom da parte de todos. Agora, são precisos alguns momentos de descanso, evidentemente. Todos precisamos de alguns momentos de descanso, de algum passeio e de leitura. Gosto muito da leitura.Mas não diria que é modo bispo ou modo não bispo. Acho que estou sempre em modo bispo e modo não bispo. Sou sempre o mesmo Virgílio e sinto-me sempre a mesma pessoa.O conteúdo D. Virgílio Antunes, presidente da Conferência Episcopal: «Já estamos muitíssimo debilitados do ponto de vista civilizacional, cultural e religioso» aparece primeiro em Revista Líder.