Aos 14 anos, Felipe Sousa-Lazaballet deixou a casa da família, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e embarcou sozinho para Miami, nos Estados Unidos. Não falava inglês, não tinha documentação migratória e levava consigo a promessa de estudar, conseguir um emprego e ajudar a mãe, Francisca Neide Sousa, que criou os três filhos sozinha trabalhando como diarista. Quase 25 anos depois, a trajetória iniciada ainda na adolescência o levou à Câmara dos Representantes da Flórida. Eleito nas eleições de meio de mandato americanas, as chamadas midterms, Felipe se tornou o primeiro brasileiro a conquistar uma cadeira no Legislativo estadual do país.Polícia pede prisão de PM suspeito de morte de turista paulista assassinado durante viagem ao RioPolícia procura traficante da Penha que organizou invasão em comunidades de Volta Redonda, no Sul FluminenseEm entrevista ao GLOBO, o democrata atribuiu parte de sua atuação política às dificuldades enfrentadas pela família e à experiência de crescer em uma realidade em que, apesar do esforço, nem sempre era possível ter acesso a condições básicas de vida.— As dificuldades que a minha família sofreu me influenciam muito, mas também me fazem entender o quão difícil é viver como uma pessoa que trabalha muito, mas não consegue conquistar o mínimo para viver uma vida digna — disse Lazaballet.Felipe Sousa-Lazaballet, eleito deputado estadual pela FlóridaFelipe for FloridaA disposição para cobrar mudanças, segundo a mãe, já aparecia na infância. Ainda menino, inconformado com a falta de água e luz na região onde morava, Felipe passou três dias escrevendo uma carta ao prefeito de Duque de Caxias. Quando soube que o político visitaria sua escola, a Municipal Rotary, em Santa Cruz da Serra, colocou o documento no bolso dele e pediu que o lesse depois.A carta não foi um episódio isolado. Antes de se mudar para a Baixada, a família viveu em Botafogo, na Zona Sul do Rio, onde Felipe era chamado de “presidente” pelos moradores do prédio. Mesmo antes de aprender a ler e escrever, já demonstrava vontade de liderar.— Ele não sabia ler nem escrever, mas já tinha vontades. Eu falava assim: "O que você quer ser quando crescer?" Ele dizia: "Presidente". Todo lugar que ele chegava, queria ser líder — conta Francisca, hoje com 74 anos.Cearense, Francisca chegou ao Rio ainda jovem e criou os três filhos sozinha. Quando Felipe tinha cerca de oito anos, os dois se mudaram para Santa Cruz da Serra. A casa que encontraram tinha aproximadamente metade do tamanho atual, ainda não tinha piso e não contava com abastecimento de água ou energia elétrica. A família dependia de um poço.— A gente pisava no chão, era barro. A gente chegou, e ele ajudou a fazer a casa junto com os pedreiros, fazia massa corrida. Eu trabalhava e ele ficava em casa tomando conta da obra — lembra.— A gente pisava no chão, era barro. A gente chegou, e ele ajudou a fazer a casa junto com os pedreiros, fazia massa corrida. Eu trabalhava e ele ficava em casa tomando conta da obra — lembra.Com o dinheiro da mãe comprometido com as despesas domésticas, o menino também encontrou uma maneira de conseguir o próprio material escolar. Pediu que Francisca o ensinasse a fazer bolo, aprendeu a receita e começou a vender os doces na escola.— O que eu dava para ele era muito pouco. Eu tinha que pagar o pedreiro, comprar comida e dar conta da vida. Então ele dizia: "Mãe, me ensina a fazer um bolo". Eu ensinei, e Felipe faz um bolo muito gostoso. Ele vendia no colégio e comprava tudo de que precisava — conta.Francisca Neide Sousa recebeu O GLOBO em casa, em Duque de CaxiasMarina CalderonNa Escola Municipal Rotary, onde estudou até o quinto ano, também chamava atenção pela curiosidade. Aos 11 anos, recebeu uma tarefa sobre a origem do samba e foi orientado pela professora a procurar informações na Biblioteca Nacional, no Centro do Rio. Como Francisca precisava trabalhar e não tinha dinheiro para pagar o deslocamento dos dois, explicou ao filho como chegar sozinho ao local.Felipe pegou o ônibus 121 na Central e seguiu até a biblioteca. Nunca havia feito um trajeto daquele tamanho sem a mãe. Voltou para casa animado, contando que tinha sido recebido por dois homens de terno, que lhe deram luvas e um livro enorme para consultar.— Ele chegou tão feliz e disse: "Mãe, eu fui tão bem tratado". Contou que colocaram umas luvas na mão dele, entregaram um livro gigante e o ajudaram a pesquisar. Ele foi procurando até descobrir — recorda Francisca.Mudança para os EUAA mudança para os Estados Unidos foi proposta pela irmã mais velha, que já havia emigrado para o país e queria levar Felipe para morar com ela. Francisca resistiu inicialmente. O filho tinha apenas 14 anos, mas insistia que queria estudar, trabalhar e ajudar a mãe.— Eu chorava muito. Ele era uma criança. Tinha 14 anos. Mas ele dizia: "Mãe, se eu for, vou estudar, arrumar emprego e ajudar a senhora" — lembra.A promessa começou a ser cumprida logo no primeiro pagamento. No primeiro emprego em Miami, Felipe recebia US$ 300 por semana e enviou US$ 100 para a mãe. Segundo Francisca, continuou ajudando financeiramente a família todos os meses.A adaptação, no entanto, foi difícil. Sem conhecer o idioma, precisou retomar os estudos em uma escola americana. A irmã, Franci, de 54 anos, lembra que, no início, ele dizia ter a impressão de que os americanos falavam um “português estranho”: não conseguia entender o que diziam.Para avançar da oitava série ao ensino médio, recebeu um livro de História Americana e teve seis meses para estudar e fazer uma prova. Traduziu o conteúdo palavra por palavra, tirou a maior nota e recebeu o diploma de melhor aluno da disciplina.O desempenho escolar não eliminou as barreiras impostas pela falta de documentação. Ao se preparar para entrar na universidade, Felipe descobriu que não tinha número de Social Security, documento necessário para acessar oportunidades destinadas a estudantes com situação migratória regular. Também não podia obter carteira de motorista nem concorrer às mesmas bolsas estaduais e auxílios governamentais.Depois de concluir o ensino médio, em 2005, trabalhou durante um ano em um armazém, carregando caixas. Mais tarde, ingressou no Miami Dade College. Por não ter documentação regular, pagava três vezes mais pela mensalidade do que os colegas em situação migratória regular. Para custear os estudos, trabalhava à noite em um restaurante e enfrentava cerca de duas horas de transporte público entre a casa e a faculdade. Mesmo com a rotina apertada, chegou à presidência do grêmio estudantil da instituição.Atuação pelos imigrantesA experiência pessoal também ajudou a aproximá-lo da mobilização política. Em 2007, depois de assistir a uma reportagem sobre a detenção de um jovem colombiano por autoridades migratórias, Felipe procurou um movimento estudantil que defendia os direitos de jovens imigrantes.No ano seguinte, durante a campanha presidencial de Barack Obama, ajudou a mobilizar eleitores e a organizar ações que contribuíram para a formação de uma rede nacional de jovens imigrantes, que se tornou a United We Dream.Em 2010, participou da Trail of Dreams (Trilha dos Sonhos), caminhada de aproximadamente 2,4 mil quilômetros entre Miami e Washington. Ao lado de outros três jovens imigrantes, do Equador, da Venezuela e da Colômbia, percorreu o trajeto a pé para pressionar pela aprovação do DREAM Act, projeto que previa um caminho para a regularização migratória de pessoas que haviam chegado aos Estados Unidos ainda crianças.Felipe passou quase 15 anos sem conseguir voltar ao Brasil. A primeira viagem de retorno ocorreu em março de 2015. A família organizou uma espécie de comitiva para recebê-lo no aeroporto, mas a chegada foi acompanhada de apreensão: todos temiam que algum documento não fosse validado e que ele enfrentasse problemas para entrar no país. Na imigração, uma funcionária examinou seus documentos e o recebeu com uma frase que o emocionou: “Bem-vindo à sua casa”.A regularização nos Estados Unidos ocorreu em etapas. Aos 26 anos, foi contemplado pelo DACA, sigla em inglês para Ação Diferida para Chegadas na Infância, programa criado durante o governo Obama que oferece proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram ao país ainda crianças.Em 2020, quando se casou com Luis Sousa-Lazaballet, já tinha o green card, obtido por meio de uma petição familiar. No ano seguinte, conquistou a cidadania americana.Antes de disputar uma vaga no Legislativo estadual, Felipe trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer. Também atuou em organizações de defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQ+.Após derrotar a republicana Bonnie Jackson nas eleições, o brasileiro afirmou que chegou aos Estados Unidos sem documentação e sem nada em seu nome e que agora teria a oportunidade de representar os vizinhos e lutar por eles. Apesar da trajetória iniciada no Brasil, descartou voltar ao país para fazer política. Disse que está comprometido com a comunidade da Flórida e pretende continuar atuando como legislador.— Eu sempre serei um menino que cresceu lá em Santa Cruz da Serra e vou continuar sendo aquela pessoa que busca as mudanças contra as injustiças sociais que acontecem no nosso mundo — afirmou.Sobre o novo desafio, disse que pretende honrar os votos recebidos e trabalhar para melhorar a vida da população que representa.— Hoje meu lar é aqui nos Estados Unidos. Fiz um compromisso com 200 mil pessoas e agora vou procurar fazer com que elas se orgulhem do voto que me deram. Mais importante, quero que a vida delas melhore de verdade — afirmou.