A câmera instalada no elevador de um prédio residencial na Tijuca, na Zona Norte da cidade, flagrou quatro minutos de uma violência extrema. Foram 31 socos, cotoveladas e chutes, além de uma tentativa de enforcamento. O agressor, um lutador de jiu-jítsu, iniciou o espancamento obrigando a moradora, de 40 anos, a se joelhar. Ela havia saído do apartamento na madrugada de quinta-feira para ajudar a vizinha de 81 anos, que gritava por socorro. A idosa foi atacada pelo mesmo homem e sofreu traumatismo craniano. Apesar da motivação ainda estar sendo investigada, o delegado Álvaro de Oliveira Gomes afirma que há indícios de misoginia, o ódio às mulheres.Em três minutos de espancamento, lutador de jiu-jítsu dá 30 socos, chutes e cotoveladas em vizinha no elevadorEx-marido de galerista norte-americano morto no Rio é sentenciado à prisão perpétua nos Estados Unidos— Por que ele não procurou um homem, sobretudo do tamanho dele, para fazer essas agressões, mas justamente mulheres. E mulheres mais frágeis? — questiona o delegado.Antes do espancamento, Lucas Portela Fontana Gomes, de 32 anos, arrombou a porta de pelo menos um apartamento e ameaçou de morte a moradora, que conseguiu fugir pelas escadas e pedir ajuda na portaria. Quando ele esmurrava a porta, ela conseguiu telefonar para a PM. A ligação teria sido por volta da 1h. Testemunhas contaram à polícia que ele gritava que, como ninguém o ajudava, iria matar todo mundo.Chute na barrigaAo ouvir gritos, a mulher de 40 anos foi até a portaria e soube que a idosa estava em perigo. Ela entrou no elevador e, assim que a porta se abriu, deparou-se com o lutador, que, sem qualquer explicação, desferiu contra ela um chute na barriga. De acordo com o relato dela, antes mesmo de se ajoelhar, como ele mandara, começou a ser espancada, apesar de suas súplicas. Ele ainda aplicou um mata-leão, golpe de enforcamento.Lutador de jiu-jítsu é preso por tentativa de feminicídioA violência só foi interrompida quando a porta do elevador se abriu novamente. O lutador saiu cambaleando, com as mãos e os braços sujos com o sangue da vítima. Em seguida, tirou o short e ficou completamente nu no saguão, já que estava sem camisa e descalço. A vítima deixou o elevador pouco depois e ainda viu o agressor nessa condição. Ela e a idosa foram encaminhadas ao Hospital Municipal Souza Aguiar, onde permanecem sob cuidados médicos.Leia também: 'O Rio de Janeiro está tomado pela incerteza', diz dono de rede de restaurantes vítima de tentativa de assalto na LagoaA Guarda Municipal e a Polícia Militar foram acionadas logo após os crimes. Em nota, a PM informou que, ao ser abordado, Lucas “entrou em luta corporal com um dos agentes” e precisou ser contido com uma arma de choque e um tiro na perna. Ele também foi levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar.Enquanto a equipe fazia a custódia do lutador na unidade, um dos policiais registrou a ocorrência na 18ª DP, que acionou um delegado da Central de Flagrantes Digital. No entanto, de acordo com a Polícia Civil, como não havia elementos suficientes sobre o caso, como depoimentos, identificação das vítimas, boletins de atendimento médico e imagens, o crime foi registrado como lesão corporal, e Lucas, liberado.Ex-funcionária de cartório em Trajano de Moraes é presa por suspeita de desviar quase R$ 400 milDetido na casa do paiAinda na quinta-feira, agentes da delegacia, já com o delegado titular presente, iniciaram a investigação e tiveram acesso às filmagens do elevador, assim como conseguiram ouvir testemunhas e as vítimas. Uma perícia também foi realizada no prédio. Por volta das 22h40, foi feito um pedido de mandado de prisão temporária contra o lutador, concedido pela Justiça às 5h28 de ontem. Lucas foi preso por volta das 6h na casa do pai.— Ainda precisamos entender a motivação dos crimes, mas trabalhamos com a hipótese de que as agressões ocorreram por misoginia. Ele vai responder por tentativa de feminicídio, violação de domicílio, lesão corporal e crime de ameaça. Vamos prosseguir com a investigações, ouvir uma das vítimas que está hospitalizada e também vizinhos para tentarmos entender o comportamento do suspeito — explicou o delegado Álvaro Gomes, que pretende pedir a prisão preventiva do acusado.Militar da Marinha reage a assalto, mata um suspeito e outro é preso em São GonçaloSegundo ele, ao prestar depoimento aos agentes, o lutador afirmou não se lembrar dos crimes porque estava sob efeito de anabolizantes. O preso não pode responder por misoginia porque a aversão a mulheres não é tipificada como crime. Hoje, a punição é enquadrada como injúria pelo Código Penal, com pena de até um ano de detenção — ou o dobro quando há contexto de violência doméstica. No entanto, o Senado aprovou, em março, projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo e aumenta as penas para ofensas contra mulheres. Pela proposta, o ato passa a ser punido com reclusão de dois a cinco anos e multa. O texto, agora, tramita na Câmara dos Deputados.Um morador do prédio disse esperar que Lucas não volte mais a morar no condomínio:— Ouvi muito barulho de pessoas pedindo socorro, de portas sendo arrombadas. O que eu sei é que ele invadiu dois apartamentos e quebrou a cozinha de um dos imóveis, além de bater em uma moradora no elevador. Estamos muito preocupados com o que aconteceu. Se ele voltar a morar aqui, esse lugar ficará ainda mais inseguro.