A Fundação Ellen MacArthur analisou 31 instrumentos de políticas públicas relacionadas à economia circular e aos biomateriais – como papel, fibras naturais, bioquímicos, couro, borracha e madeira – em 12 países e reuniu os resultados em um relatório que traz boas notícias e pontos de atenção. Apesar da economia circular estar avançando globalmente, os materiais de base biológica ainda são tratados de forma fragmentada, limitando seu potencial dentro da economia circular.Embora mais de 100 países já tenham implementado estratégias de economia circular, o avanço das políticas ainda se concentra principalmente em medidas voltadas aos materiais finitos, como plásticos e metais. Porém, quando os princípios da economia circular são aplicados aos biomateriais, é possível obter benefícios como resiliência da cadeia de suprimentos, novas fontes de receita e geração de emprego nas diversas etapas da cadeia, como no reparo, remanufatura e reciclagem.Os dados fazem parte do relatório Circular por Natureza: Uma Agenda de Políticas para Biomateriais em uma Economia Circular.Ecoponto para receber resíduos têsteis no Braz, bairro de São Paulo famoso por ser um pólo de moda. Foto: Renato Pinheiro (SECOM)Enquanto as estratégias de economia circular consideram os biomateriais majoritariamente como substitutos diretos de insumos não renováveis, as políticas públicas voltadas aos biomateriais reforçam a lógica linear de extração, produção e descarte. Com isso, perdem-se importantes oportunidades socioeconômicas e ambientais. Leia também: 1.O que é reciclagem têxtil? 2.Campanha pede leis mais rígidas para indústria têxtil na Europa Para a diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, Luisa Santiago, aplicar os princípios da economia circular às cadeias de biomateriais são um caminho para um melhor desenvolvimento com base nos recursos naturais e biológicos abundantes na região.“Existe uma oportunidade ainda pouco aproveitada de impulsionar o desenvolvimento de países abundantes em natureza com a economia circular. A produção regenerativa de biomateriais é uma forma não só de gerar benefícios ao clima e à biodiversidade, como também de gerar resiliência à produção agrícola, salvaguardando seus ricos ativos naturais no longo prazo”, explica Luisa.Fonte: Circular por Natureza: Uma Agenda de Políticas para Biomateriais em uma Economia CircularManter materiais de base biológica em uso por mais tempo, é possível reduzir a pressão sobre a terra, diminuir a demanda por extração de recursos virgens e mitigar fatores que impulsionam a degradação dos ecossistemas e as emissões de gases de efeito estufa. Leia também: 1.Resíduos da produção de cerveja viram couro 100% vegetal 2.Empresa brasileira recebe certificado de embalagem comestível Além disso, priorizar o fornecimento a partir da produção regenerativa e de sistemas agrícolas diversificados contribui ativamente para restaurar a saúde do solo, a retenção de água e a biodiversidade, enquanto a compostagem e a digestão anaeróbica devolvem nutrientes de forma segura ao solo. Esses princípios impulsionam a criação de maior valor a partir da circulação dos biomateriais, beneficiando os atores da cadeia.“Além disso, na economia circular, é possível agregar muito mais valor aos biomateriais, que são projetados para múltiplos usos, o que, além de gerar mais empregos, é também uma forma de evitar a conversão de mais terras à produção de matérias-primas. É um ciclo virtuoso que, atualmente, as políticas e estratégias em economia circular ainda não captaram, mas que será a nova fronteira para a evolução da economia circular,” completa Santiago.Fonte: Circular por Natureza: Uma Agenda de Políticas para Biomateriais em uma Economia CircularDe acordo com Juan Bello, Representante e Diretor para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), este novo relatório aponta um caminho para articular duas áreas fundamentais da agenda de desenvolvimento sustentável dos países da região: a biodiversidade e a economia circular.“América Latina e o Caribe contam com uma biodiversidade única, que representa um potencial estratégico para avançar em direção a modelos de desenvolvimento mais sustentáveis. Por isso, desde que a Coalizão desenvolveu sua visão sobre a economia circular para a região, destacou-se a importância de construir um modelo que promova a resiliência dos ecossistemas e permita que a biodiversidade e as comunidades prosperem. Este novo relatório oferece um guia para que os países da região possam alinhar suas políticas a essa visão e avançar rumo a uma economia de baixo carbono, inclusiva e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, diz Bello.Foto: Fundação Ellen MacArthur Leia também: 1.Relatório aponta caminhos para o papel substituir o plástico 2.Tampa de papel pode substituir plástico em caixas longa-vida Soluções para biomateriaisO relatório apresenta soluções para enfrentar essa desconexão entre as políticas para economia circular e para biomateriais. São cinco pilares de recomendações de políticas públicas, que geram impactos mais significativos quando aplicados de forma integrada:desenvolver produtos para a circularidade com foco na regeneração; viabilizar a circulação segura e eficiente de materiais de base biológica; promover incentivos financeiros e fiscais adequados; investir em inovação, capacitação e infraestrutura; e fortalecer a colaboração entre instituições, setores e países.O intuito das recomendações é que elas levem as cadeias de biomateriais a obterem mais benefícios econômicos e ambientais a partir da incorporação dos princípios da economia circular. Seis estratégias fundamentais mostram como isso é contemplado.Foto: Robin GreenField | Sierra Ford FotografiaSegundo o modelo, os biomateriais, seus produtos e componentes devem ser: Obtidos de forma regenerativa e a partir de matérias-primas secundárias;Desenvolvidos sem substâncias potencialmente perigosas;Desenvolvidos para durabilidade e retenção de valor;Desenvolvidos para reutilização do material em aplicações secundárias;Desenvolvidos para recuperação de materiais e nutrientes;Sustentadas por cadeias de valor justas e inclusivas. Leia também: 1.Biotecido é alternativa mais limpa para indústria da moda 2.Garrafas PET retiradas dos oceanos viram tecidos para colchões Setor privado mostram potencial do modeloEmpresas já consolidadas no mercado global vêm priorizando estratégias de uso dos biomateriais mais alinhadas com os princípios da economia circular, desde a escolha dos materiais e suas origens até o design, a produção e as estratégias para manter produtos e materiais em uso por mais tempo.A Gucci, por exemplo, uma das marcas mais reconhecidas do segmento de luxo, tem investido em produção regenerativa, como foco em melhorar a saúde do solo, biodiversidade e sequestro de carbono, além de aprimorar a resiliência da sua cadeia de suprimento e garantir que as suas coleções sejam feitas de materiais de alta qualidade e totalmente rastreáveis. A empresa também mantém centros de reparo, para garantir a longevidade e o uso contínuo das peças.Foto: Ksenia Chernaya | Unsplash Leia também: 1.Renner usa poliéster reciclado nos bojos produzidos no Brasil 2.Renner lança campanha por descarte correto de roupas usadas No Brasil, a Lojas Renner segue uma estratégia semelhante ao apostar em circularidade e agricultura regenerativa em sua cadeia de valor. Em parceria com a startup FarFarm, a varejista realizou o projeto Florestas de Algodão para incentivar o cultivo agroflorestal de algodão no Cerrado e apoiar agricultores familiares. A companhia também criou um Guia de Design Circular para orientar o desenvolvimento de produtos com base em princípios da economia circular, como o uso de tinturas naturais e o desenvolvimento de peças com fácil separação dos componentes ou confeccionadas com um único tipo de material, para facilitar a reciclagem ao fim da vida útil.Mas essa tendência não está restrita ao setor têxtil. No segmento de papel e embalagens, a brasileira Klabin aposta em um sistema de cultivo em modelo de mosaico, que intercala espécies nativas com florestas de espécies comerciais, o que aumenta a produtividade ao mesmo tempo em que contribui para a biodiversidade local. Além disso, a empresa aproveita sua infraestrutura de reciclagem de papelão para reduzir a dependência sobre fibras virgens, ao mesmo tempo em que explora oportunidades de reaproveitar os subprodutos do papel, como a lignina.Imagem: Fundação Elle MacArthurThe post Economia circular avança no mundo e biomateriais seguem lógica linear appeared first on CicloVivo.