Renda fixa americana pagando mais: é hora de trocar o Tesouro Direto pelos EUA?

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Os rendimentos dos títulos de dívida do governo dos Estados Unidos estão nas alturas. Na última terça-feira (19), os rendimentos dos Treasuries de 10 anos renovaram máximas perto de 4,70%, e os de 30 anos encostaram em 5,2%, patamar que não era visto desde 2007. O movimento, que desde então passou por alívio, reduziu a distância para a remuneração da renda fixa brasileira.“Alguns meses atrás, nós tínhamos um Treasury abaixo de 4%. O diferencial era de 11 pontos percentuais frente à nossa taxa base. Essa alta recente nos yields americanos acabou comprimindo esse spread”, explica Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.A compressão do spread, na prática, significa que os títulos brasileiros passaram a pagar proporcionalmente menos. Mas o movimento pode ser considerado suficiente para avaliar trocar o Tesouro Direto pelos Treasuries? Segundo especialistas, a decisão vai muito além de uma simples troca de CEP (ou ZIP Code) nos investimentos.Evolução do spread entre títulos brasileiros e americanos de 10 anos nos últimos três meses: Fonte: World Government BondsLeia também: 3 fatores que podem reacender interesse nas ações do Brasil“Ilusão de ótica” nos spreadsOlhar apenas para a diferença entre os 14% do Brasil e os 4,7% dos EUA é o que Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, classifica como “o erro número um da educação financeira”. Essas são as taxas prefixadas, mas ele destaca que a diferença nos papéis de inflação (Tesouro IPCA+ aqui, TIPS lá fora) roda perto de 2% e continua “brutal”. Mas Isabella Hass, analista de mercado internacional da W1 Capital, pondera sobre o que chama de “ilusão de ótica” das altas taxas brasileiras. “Historicamente, a inflação estrutural do Brasil consome boa parte desses 14%, enquanto o rendimento em dólar compra um ativo que tende a se valorizar frente às moedas emergentes”, afirma. Isso reforça a ideia de que as taxas atuais nos EUA estão atrativas. Segundo ela, ganhar na casa de 5% em moeda forte frequentemente supera o ganho real brasileiro quando se a depreciação cambial crônica é considerada na conta.A economia americana vive uma deterioração fiscal contínua, com rebaixamento recente de rating e dívida superando o PIB anual do país, mas a natureza da crise é diferente da brasileira, que é mais imediata, lembra Novais. Enquanto o cenário americano “está redesenhando o que significa ‘ativo livre de risco’ na próxima década”, o brasileiro é “agudo e reativo”, explica o especialista. Guilherme Almeida concorda e lembra que a dívida brasileira ainda tem um alto custo de rolagem. “A diferença principal é que o risco americano é de uma degradação gradual, e o risco brasileiro é de uma perda quase que abrupta de confiança”, resume o head da Suno.A faca de dois gumes do câmbioEmprestar dinheiro para o Tio Sam não isenta o brasileiro de riscos. Fernando Siqueira, head de Research da Eleven Financial, lembra que a parcela da carteira em Treasuries sofre variação cambial constante. “Para a gente (brasileiros), não é um ativo tão livre de risco assim”, alerta.Marcos Praça, da Zero Markets Brasil, define o investimento em Treasuries como duas operações simultâneas, uma renda fixa e uma dolarizada. O ativo pode funcionar como proteção em momentos de estresse, explica, mas também pode frustrar no curto prazo, se houver valorização do real. Nos últimos 12 meses, o real se valorizou mais de 11%, o que na prática zerou o retorno nominal em dólar quando convertido para o investidor brasileiro, lembra Almeida.Contudo, para quem pensa no longo prazo, a volatilidade compensa. “O câmbio tende a jogar a favor de quem está dolarizado, porque o real é uma moeda estruturalmente mais fraca e cíclica”, defende Isabella Hass. “Você aceita a volatilidade porque sabe que, no caso de uma crise severa, o dólar explode e protege o patrimônio.”Compra direta ou via ETF?Com o avanço do mercado, acessar títulos americanos ficou mais fácil para o investidor pessoa física. Para Siqueira e Praça, os ETFs são o caminho mais eficiente, barato e líquido para o brasileiro acessar uma cesta diversificada de títulos via corretoras ou a B3.No entanto, Marcus Novais traz um alerta técnico: “ETF de renda fixa não vence. Ele rola posições permanentemente, então você fica exposto à marcação a mercado para sempre. Em ciclo de juros subindo, isso machuca”.Leia também: Maioria do Fed vê elevação nos juros nos EUA se inflação seguir alta, diz ataPor outro lado, a compra direta de títulos é ideal para quem quer previsibilidade absoluta, já que o investidor conhece o cupom, a data de vencimento e o principal que receberá, fazendo com que a marcação a mercado vire ruído caso o papel seja levado até o vencimento, como ensina Novais.Como uma terceira opção, Isabella Hass adiciona os mutual funds – que têm operações parecidas com os fundos de investimento tradicionais do Brasil. A analista destaca as opções do tipo acumulativo, que reinvestem os cupons automaticamente, “o que melhora a eficiência tributária do investidor estrangeiro ao postergar o imposto e impulsionar os ganhos compostos no longo prazo”.Complementares, não concorrentesA conclusão dos especialistas é que a taxa dos Treasuries está de fato atrativa, mas o investidor não deve tratá-los como inimigos do Tesouro Direto na mesma carteira. Marcos Praça avalia que o momento “reforça a importância de aumentar gradualmente a diversificação internacional”, mas sem abandonar a renda fixa local.Marcus Novais pensa nos gastos do investidor para definir a alocação: “para o cliente que tem despesas em real pelos próximos 20 anos, o Tesouro Direto é o ativo casado com o passivo. Para o cliente que tem ou terá despesas em dólar, o Treasury é o casamento natural”.Os especialistas concluem que um portfólio robusto está exposto às duas geografias. “O Treasury é proteção e diversificação, já o Tesouro Direto é carrego e retorno real”, diz Guilherme Almeida. “Uma carteira equilibrada vai precisar necessariamente dos dois”. The post Renda fixa americana pagando mais: é hora de trocar o Tesouro Direto pelos EUA? appeared first on InfoMoney.